Setembro de 1983
QUANDO HELENA acordou, a casa
estava tão silenciosa que achou que fosse sábado.
Quem dera.
Se algum dia ela deseja que fosse sábado, ou qualquer coisa que não um
dia de aula, era aquele. O estomago ainda dava voltas, a cabeça parecia que
estava pesada, e ela teve de se esforçar muito para não cair de cara no chão.
O que era aquilo na lata de lixo, ao lado da cama? Helena não se
lembrava de ter vomitado durante a noite, mas, se estivesse consciência lá estava.
Precisava lidar com aquilo primeiro, antes de os pais aparecerem. Helena ficou
de pé, cambaleando por um instante, pegou a lixeira de plástico com uma das
mãos e, com outra, abriu a porta. Não havia ninguém no corredor, então passou
pelas portas abertas dos quartos e entrou no banheiro, fechando e trancando a
porta.
Esvaziou o balde no vaso sanitário, enxaguou-o na banheira, olhou-se no
espelho com a vista embaçada. Nada bonita, a sua aparência depois de uma noite
nas festas. Ela mal conseguia lembrar-se do que Mauro lhe dera para provar na
noite anterior, bebidas que tirara de casa, na surdina. Duas latas de
Budweiser, um pouco de vodca, gim, uma garrafa já aberta de vinho tinto.
Algo a incomodava. Algo em relação aos quartos. Jogou água fria no
rosto, secou-se com a toalha. Respirou fundo e estava pronta para receber
bronca de sua mãe que estaria do outro lado da porta.
Não estava.
Helena voltou para seu quarto, sentiu o tapete sobre os pés. Ao passar,
deu uma olhada no quarto de Kelly, a irmã, e, a seguir, no dos pais. As camas
estão feitas e parecia que não estariam dormindo aquela noite ali.
Ela sentiu uma onda de pânico. Será que já estava atrasada para a
escola? Que horas seriam?
Dava para enxergar o despertador de Kelly sobre a mesinha-de-cabeceira.
Eram apenas dez para oito da manhã. Faltava quase meia hora para o horário em
que normalmente saia de casa para o primeiro tempo de aula.
A casa estava em silencio.
A essa altura ela costumava escutar os pais na cozinha e a irmã, Kelly,
subindo e descendo as escadas pedindo de sua mãe seus sapatos. Ela entrou em
seu quarto e fechando a porta disse a si mesma. Controla-se. Apareça no café
como se nada tivesse acontecido. Finja que não houve uma briga horrível na
noite passada. Aja como se seu pai não houvesse arrancado seu namorado de
dentro do carro, muito mais velho que você, e a trazido para casa.
Mas que estranho. Helena era acostumada a ouvir as algazarras da irmã
Kelly toda vez ia a seu quarto emprestar suas maquiagens, mas naquele dia não
aconteceu isso.
Certo, então talvez Kelly tivesse ido para a escola mais cedo, mas onde
estaria a mãe e o pai?
O pai talvez tivesse partido em alguma viagem de negócios antes mesmo de
o sol nascer. Ele vivia indo a algum lugar; nunca dava para saber. E a mãe,
bem, vai ver que tinha ido levar Kelly à escola, ou algo assim.
Helena se vestiu. Jeans, suéter. Pôs maquiagem, mas não muita, para a
mãe não começar a fazer comentários sobre ela estar fazendo “teste para
vagabunda”.
Ao chegar à cozinha, deixou-se ficar ali, parada.
Nenhuma caixa de cereal tirada do armário, nada de suco, nada de café ma
cafeteira. Nenhum prato na pia. A cozinha estava exatamente como a mãe a teria
deixado após limpá-la depois do jantar, na noite anterior.
Estranho para Helena, tudo aquilo era muito estranho. Outra coisa que
sua mãe deixava era bilhetes. A te mesmo quando estava zangada. Um bilhete
longo o bastante para dizer: “vire-se sozinha hoje” ou “prepare os seus ovos,
tenho de levar Kelly”, ou, apenas, “até mais”.
Não havia nenhum bilhete.
Helena criou coragem para gritar:
Helena- Mãe?
A própria voz soou-lhe aos ouvidos muito estranha. Como a mãe não
respondeu, ela voltou a gritar:
Helena- Pai?
Nada. Isso pensou, devia ser seu castigo. Ela havia enfurecido os pais,
os desapontara, então iam fingir que ela não existisse. Bem, podia lhe dar com
isso.
Helena resolveu não tomar o café da manhã e então saiu porta a fora.
O jornal da manhã que estava na escadaria da porta, enrolado num
elástico, e mais parecendo um tronco. Ela chutou para fora do caminho sem
pensar e desceu a rampa vazia que levava à entrada da garagem, ao chegar
percebeu que o Dodge do pai e o For Escort da mãe haviam desaparecido. Helena
tentara se lembrar do que houve na noite passada, com dificuldades ela relembra
o acontecido.
A senhora Barbara da escola de inglês informou aos pais de helena que se
a jovem não entregasse os trabalhos, estaria em falta no curso, e não passaria.
Ela tinha dito aos pais que ia à casa de um amigo fazer os deveres da escola.
Como Helena ainda não havia chegado em casa as oito e quinze, a mãe
telefonou para a casa do amigo da filha. Nem mesmo ele estava lá. Foi então que
o pai dela passou a mão no chapéu de feltro surrado, sem o qual jamais saia,
entrou no Dodge e começou a dar voltas pelo bairro a sua procura. Ele
suspeitava que ela talvez estivesse com aquele garoto, Juan Fleming, de 17
anos, que andava por aí num Mustang vermelho, de 1970, enferrujado. Jorge e
Vilma Bigge não gostavam muito dele, garoto durão, família problemática, má
influencia.
Foi pura sorte o pai ter visto o carro parado na extremidade do
estacionamento do shopping Connecticut post, na Post Road, não muito longe dos
cinemas. O pai de Helena parou seu carro bem na frente, para que ele não
tivesse como sair.
Então o pai de Helena bateu na porta e interrompeu o beijo que Juan dera
em Helena.
Juan- Ei, meu irmão, cuidado!
Disse Juan.
Jorge- Não me venha com “meu irmão”
Disse o pai, puxando-a pelo braço e conduzindo-a para o próprio carro.
Jorge- Você está fedendo.
Ela desejou ter morrido naquele momento. Não conseguia olhar para ele
nem dizer coisa alguma, nem mesmo quando Jorge começou a falar sem parar sobre
como ela estava se transformando numa tremenda dor de cabeça, que não sabia o
que havia feito de errado, que só queria que ela crescesse e fosse feliz, e
blá-blá-blá. E mesmo, furioso, ele dirigia como se estivesse fazendo um teste
de direção, jamais ultrapassando o limite de velocidade, e sempre usando a seta
nas curvas; o homem era inacreditável.
Quando chegaram a casa lá estava a mãe, sentada, mais preocupada que
propriamente zangada, dizendo:
Vilma- Helena! Onde é que...
Passou por ela feito bala e foi direto para o quarto. O pai gritou:
Jorge- Desça já aqui! Temos coisas para discutir!
Helena- Eu queria que vocês estivessem mortos!
Gritou ela, batendo a porta.
Ela tinha remorsos. Havia desrespeitado quase todas as regras da casa em
uma única noite, a começar pelas mentiras.
Helena volta a sua realidade e percebe que ela mesma havia jogado praga
para sua família. Mas como seus pais e sua irmã foram desaparecer assim?
Naquele mesmo dia ela sairia de sua cama na madrugada para abraçar sua
mãe e dizer que sentiria muito e que nunca mais seria aquela Helena rebelde.
Mas tarde de mais ela não teve coragem e quando se acordou de manhã não
encontrou mais ninguém. A jovem para a escola com a intenção de que a irmã
Kelly estaria na aula e que quando voltasse seus pais estariam em casa. A
primeira aula, história, foi uma perda de tempo. A segunda, matemática, foi
pior ainda. Ela não conseguia se concentrar; a cabeça ainda doía. No almoço,
Helena deixou o refeitório, foi até o telefone publico da escola e discou o
numero de casa. Diria a mãe que sentiria muito. Desistiu depois de tocar 15
vezes. Achou que tinha discado errado. Tentou outra vez; ninguém atendeu.
Estava na frente da escola com uns amigos quando Juan Fleming passou no
seu carro vermelho.
Juan- Eu sinto muito sobre ontem a noite.
Disse ele.
Juan- Nossa, seu pai é uma piada.
Helena- É.
Começou Helena. Juan perguntou novamente.
Juan- E então? O que foi que aconteceu depois que chegou a sua casa?
Havia algo na maneira de ele fazer aquela pergunta, como se já soubesse
a resposta. Helena não fez questão e desfiou o olhar.
Juan- Onde está sua irmã?
Insistiu Juan.
Juan- Estar em casa, doente?
Ninguém viu Kelly na escola. Juan disse que quis perguntar a ele,
discretamente, qual o tamanho da encrenca em que Helena havia se metido, se ela
estava de castigo, por que ele esperava que ela quisesse sair na sexta ou no
sábado à noite.
Helena correu para casa. Não pediu carona a Juan, embora ele estivesse
oferecido. Correu o caminho todo, pensando: Por favor, permita que o carro dela
esteja lá. Por favor, permita que o carro dela esteja lá.
Mas, quando dobrou a esquina da sua casa de dois andares entrou em seu
campo de visão, viu que o Escort amarelo de sua mãe não estava lá. Ela gritou o
nome da mãe mesmo assim, quando entrou. A seguir, a da irmã.
Então começou a tremer e se forçou a parar. Aquilo não fazia sentido.
Por mais zangado que os pais estivessem eles não poderiam ter ido embora, não
fariam aquilo, fariam? Simplesmente ir embora?
Helena sentiu-se idiota por fazê-lo, mas tocou a campainha dos Champion,
na casa ao lado. Começou a falar, sem parar, quando a Sra. Champion abriu a
porta. Que quando tinha acordado não havia ninguém em casa e que, então, tinha
ido à escola, mas que Kelly não aparecera...
A Sra. Champion disse:
Sra. Champion- Ei está tudo bem. Sua mãe deve ter saído para fazer umas
compras.
A senhora caminhou com Helena de volta a casa. Juntas, percorreram
o segundo andar, o primeiro, a garagem, o quintal.
Sra. Dalva Champion- Que coisa mais esquisita.
Concluiu a senhora Dalva. Ela não sabia o que pensar exatamente. Elas
ligaram para a policia e enviaram um policial, que, de inicio, não pareceu nem
um pouco preocupado. Mas logo chegaram outros policiais e, ao cair da noite,
havia policiais por todos os lados.
Detetive- Você tem certeza de que não disseram nada sobre ir a algum
lugar?
Falou o detetive que se chama Wanderson ou Anderson.
Detetive- Bem, não parece que sua mãe, seu pai e sua irmã tenham feito
as malas para ir a algum lugar. As roupas estão todas aqui.
Foram feitas muitas perguntas. Qual tinha sido a ultima vez que viu os
pais? A que horas tinha ido deitar? Quem era o rapaz com quem estivera? Tentou
contar tudo ao detetive, até mesmo admitiu que ela e os pais tivessem brigado.
Mas por que a mãe, o pai e a irmã desapareceriam? Para onde iriam? Por que não
a levaria junto?
De repente, freneticamente, Helena pôs-se a virar a cozinha de pernas
para o ar. Pegava e tirava as coisas do lugar. O detetive perguntou-lhe:
Detetive- O que foi?
Helena- Onde está o bilhete?
Perguntou Helena com os olhos suplicantes.
Helena- Tem de haver um bilhete. Minha mãe nunca sai sem deixar um bilhete.
PASSANDO A CENA
Helena se encontrava diante da casa de dois andares na rua vinte e sete.
Não que fosse a primeira vez que via a casa onde passara a infância, depois de
quase 25 anos. Ela ainda morava em Mil Ford, Connecticut. Passava de carro por
ali, de vez em quando. Havia me mostrado a casa antes de nos casarmos, muito
rapidamente, de dentro do carro.
Helena- É aquela ali!
Dissera a seguira em frente, sem parar. Mas certamente fazia muito tempo
que ela não atravessava aquela porta de entrada. Helena parecia ter criado raiz
na calçada, sem coragem de dar um único passo em direção a casa. Eu queria ir
para o seu lado, apoiá-la, caminhar com ela até a porta. Caminho que levava a
porta da garagem tinha dez metros, mas se estendia um quarto de século ate o
passado.
Helena ficou ali, como se aguardasse permissão para se aproximar. Então,
ela veio.
Produtora- Tudo certo, Senhora Helena? Comece a caminhar na direção da
casa. Não muito rápido. Um pouco hesitante, como se fosse entrar ali pela primeira
vez desde 14 anos.
Helena olhou por cima do ombro para a mulher de calça jeans e tênis, o
rabo-de-cavalo puxando para baixo e passando pela abertura na parte de trás do
boné de beisebol. Era uma das três assistentes de produção.
Helena se sentia muito nervosa e olhava para mim que estava do outro
lado da rua e me fez uma careta e começou a caminhar em direção a garagem,
lentamente. Ela estava com as mãos na maçaneta, prestes a empurrar a porta,
quando a garota do Rabo-de-cavalo gritou:
Produtora- Certo! Pare aí!
Então, para o operador de câmera:
Produtora- Vamos para dentro, pega-la entrando na casa.
Eduardo- Vocês estão brincando!
Disse bem alto para todos da produção ouvir, eram meia dúzia de pessoas,
incluindo Paula Maluf, e Karen, que fazia o trabalho na frente da câmera alem
das narrações. A própria Paula veio até mim.
Paula- Sr. Eduardo Archer. Está tudo bem.
Eduardo- Como é que vocês podem fazer uma coisa dessas com ela? Minha
mulher está entrando aí pela primeira vez desde que a família desapareceu e
vocês só faltaram gritar “corta”!
Karen- Eduardo, eu sinto muito, nós precisamos posicionar a câmera e
queremos que a expressão no rosto de Helena, quando ela entrar na casa depois
de tantos anos, seja genuína. Queremos que tudo seja sincero.
Essa era boa. Que a repórter de um programa de noticias e entretenimento
na TV que, quando não solucionava crimes no passado bizarros, estava
perseguindo a ultima celebridade que saia por ai dirigindo embriagada fosse
agora exigir sinceridade.
Eduardo- Certo.
Concordei, exausto, tentando ter uma visão de que o programa finalmente
proporcionasse algumas respostas para Helena. E vinha fazendo o possível
para estar fora do caminho. O diretor, e meu amigo há muitos anos, Leandro
Carruthers, sabia como era importante para Helena gravar esse programa e havia
encontrado um substituto para assumir as minhas aulas de inglês e de redação.
Helena naquele dia tinha tirado folga da Pamelas, a loja de roupas femininas
onde trabalhava. A caminho havíamos deixado nossa filha de oito anos, Julia, na
escola. Os atuais moradores da casa, um casal de idosos, haviam recebidos da
produção uma quantia de dinheiro para desocupar a casa por aquele dia, de
maneira que tivesse controle sobre o local.
Helena fez seu trabalho com medo e com muita insegurança, mas fez
conforme a produção pediu. Ela havia dado uma entrevista para a TV e contado
tudo sobre aquela noite e sobre o dia em que acordou e não vou sua família. A
produtora Paula disse:
Paula- Se você pudesse lhes dizer alguma coisa, neste instante, o que
seria?
Helena, perplexa, olhou para a câmera um tanto desesperançada:
Helena- Por quê?
Paula permitiu-se uma pausa dramática e indagou:
Paula- Por que o quê, Helena?
Helena- Por quê? Por que vocês tiveram de me deixar? Se vocês podem, se
estão vivos, por que nunca entraram em contato comigo? Por que não deixaram se
quer um bilhete? Por que não disseram adeus?
Deu para sentir a eletricidade que corria entra a equipe, entre os
produtores. Eu sabia o que estava pensando. Aquela cena valia dinheiro. Aquilo
daria um ótimo programa de TV. Eu os odiava por explorarem os sentimentos de
Helena, mas eu sabia que ela estava disposta a ser explorada se isso
significasse algum telespectador se apresentar com a chave que desvendaria o
seu passado. A pedido do programa, Helena trouxe duas caixas de sapatos
amassadas cheias de lembranças, poucas coisas que ela havia conseguido tirar da
casa antes de ir morar com a tia Tereza, irmã da mãe. E lá foi mais uma parte
de um programa.
A produção entrevistou além de Helena o diretor da minha escola e
meu amigo, Leandro.
Leandro- É um mistério. Eu conheci Jorge Bigge. Saímos para pescar umas
duas vezes. Era um bom sujeito. Não consigo nem imaginar o que foi que
aconteceu com eles.
Entrevistaram a tia Tereza.
Tereza- Eu perdi uma irmã, um cunhado e uma sobrinha. Mas a perda de
Helena foi muito maior. Ela conseguiu superar, apesar de tudo, e se tornar uma
ótima garota e uma ótima pessoa.
Duas semanas depois, quando o programa foi exibido, Helena ficou
atordoada ao ver o detetive que a interrogava em sua casa depois que a vizinha,
a Sra. Dalva, telefonava para a policia.
Detetive- O que sempre me incomodou nessa historia foi o porquê de ela
ter sobrevivido. Partindo do principio, é claro, de que o restante da família
tenha morrido. Por que ela sobreviveu? Não são muitas as possibilidades.
Paula- O que o senhor quer dizer com isso?
A voz era de Paula Maluf.
Detetive- Ora, pense um pouco. É só o que eu tenho a dizer.
Quando ouviu aquilo, Helena ficou furiosa.
Helena- Isso outra vez?!
Gritou para a televisão.
Helena- Ele está dando de entender que eu tive alguma coisa a ver
com o que aconteceu. Há anos que eu ouço esses sussurros.
Mas eu consegui acalmá-la porque o segmento foi, num balanço final,
bastante positivo.
E assim, o programa foi exibido. Helena foi esperar ao lado do telefone
no instante em que terminou, imaginado que alguém o veria, alguém que soubesse
de alguma coisa, e ligaria para a emissora. Mas não houve telefonemas. Helena
logo deixou de ser novidade.
OS OLHOS DE JULIA imploravam, mas seu tom foi implacável.
Julia- Papai. Eu. Tenho. Oito. Anos. De. Idade.
Onde será que ela aprendeu isso?
Eu andei me perguntando. Essa técnica de entrecortar as frases para
gerar efeito dramático.
Eduardo- Sim. Eu sei muito bem disso.
Seu cereal estava ficando mole e ela não tocara no suco de laranja.
Julia- As crianças debocham de mim.
Tomei um gole do meu café.
Eduardo- Sua mãe só quer ter a certeza de que você chegou à escola com
segurança, é só isso.
Julia soltou um suspiro e baixou a cabeça, derrotada, um cacho de cabelo
castanho caindo sobre os olhos castanhos.
Julia- Mas não precisa andar comigo até a escola. A mãe de ninguém faz
isso, a não ser das crianças que estejam no jardim.
Nós já havíamos tido essa discussão antes, e eu tentaria de conversar
com Helena; talvez fosse a vez de Julia fazer o vôo para a escola sozinha,
agora que estava no quarto ano da terceira série. Havia muita criança com quem
poderia caminhar.
Julia- Por que você não pode me levar? – Perguntou Julia.
As raras vezes que fui com Julia até a escola eu havia ficado quase um
quarteirão para trás. Qualquer um acharia que eu estava dando um passeio, e não
vigiando Julia. E jamais contamos isso para Helena.
Eduardo- Eu não posso. Tenho de estar na minha escola as oito. Uma vez
ou outra, quando tiver o primeiro período livre, posso ir com você.
Na verdade, Helena havia organizado o seu tempo na Pamelas de modo que
ficasse em casa por parte da manhã para se certificar que Julia chegaria à
escola em segurança.
Julia- Além disso, o meu telescópio quebrou.
Eduardo- Como assim quebrou?
Julia- Aquelas pecinhas que prendem o telescópio na parte que tem os
pezinhos estão soltos. Eu arrumei mais oi menos, mas vai soltar outra vez.
Eduardo- Eu dou uma olhada.
Julia- Tenho que ficar de olho em asteróides assassinos.
Disse Julia.
Julia- Não vou poder vê-los no me telescópio estiver quebrado.
Eduardo- Está bem, eu dou uma olhada.
Julia- E mamãe? Ela tem mesmo de me levar na escola?
Eduardo- Eu vou conversar com ela.
Helena- Conversar com quem?
Perguntou Helena, entrando na cozinha. Helena estava linda naquela
manhã. Tinha uma beleza impressionante, e eu jamais me cansava de admirar seus
olhos verdes, as maças do rosto salientes, os cabelos ruivos brilhante. As
pessoas devem pesar que ela faça algum exercício na academia ou algo do tipo.
Ela queima calorias de tanto se preocupar com as coisas. Se ela quisesse se
matricular numa academia eu pagaria. Como já mencionei, sou professor de Inglês
do ensino médio e Helena trabalha numa loja de roupas de uma amiga de
adolescência. Assim não estamos exatamente nadando em dinheiro. Temos uma casa
localizada num bairro modesto a apenas algumas quadras de onde Helena cresceu.
Nossos carros têm dez anos e nossas férias são bastante simples. Pedimos
emprestada a casa de campo de um tio e passamos os momentos lá, durante uma
semana todo verão, e quando Julia completou cinco anos a levamos pra Disney.
Mas temos, a meu ver, uma vida tranqüila e somos mais ou menos felizes. Na
maior parte dos dias.
Eduardo- Com a professora de Julia.
Respondi.
Helena- Conversar com a professora de Julia sobre o quê?
Perguntou Helena.
Eduardo- Eu só estava comentando que quando houver uma dessas reuniões
de pais e professores eu deveria conversar com ela.
Disse eu.
Julia- Minha professora é um doce.
Eduardo- Tenho de ir.
Avisei, tomando mais um gole de café. Enquanto me levantava da mesa,
Julia me olhava, em desespero crescente.
Helena- Eduardo, você viu a chave sobressalente?
Eduardo- Hmmm?
Ela apontou para o gancho vazio na parede, na entrada da porta da
cozinha, que dava para o nosso pequeno quintal dos fundos.
Era a chave que levávamos quando íamos dar uma volta e não queríamos
levar um chaveiro inteiro com as chaves da casa, do carro e do trabalho.
Eduardo- Não sei. Devo ter colocado ao lado da cama.
Eu me aproximei de Julia dei um beijo em sua testa e senti o perfume de
Helena ao seu pescoço.
Eduardo- Me leve até porta.
Pedi para Helena. E ela disse-me sobre Julia.
Helena- Julia está bem? Ela está um pouco quieta essa manhã.
Eduardo- (fazendo que não) É que... Você sabe, ela já tem oito anos,
Lena.
Ela deu um passo pra trás zangando-se.
Helena- Então é isso. Ela quer que converse comigo e não com a
professora.
Eu sorri, cansado.
Eduardo- Ela disse que as outras crianças vivem pegando no pé dela.
Helena- Ela vai sobreviver. Você sabe que tem gente má à solta por ai. O
mundo está cheio delas.
Eduardo- Eu sei Lena, eu sei. Mas até quando você vai levá-la a escola?
Até os doze ou quinze anos dela? Até o ensino médio?
Helena- Deixe que eu me preocupe com isso quando chegar a hora. (faz uma
pausa) Eu vi aquele carro outra vez.
O carro. Sempre havia um carro.
Helena- Já o vi duas vezes, um carro vermelho.
Eduardo- Que tipo de carro?
Helena- Não sei. Um carro normal. Com vidro escuro. Quando passa por mim
e pela Julia, desacelera um pouco.
Eduardo- Lena, vai ver que é só alguém do bairro. As pessoas têm de
reduzir. Aquilo é uma área escolar.
Helena- Você nunca levou essas coisas tão a serio quanto eu. (esperando
um segundo) Mas suponho que isso seja compreensível.
Eduardo- Eu te amo. Não vamos resolver isso agora.
Eu me despedi dela novamente e fui trabalhar.
ELA QUERIA transmitir conforto naquilo que tinha de dizer, mas era
igualmente importante que fosse firme.
- Eu compreendo que você ache a idéia um pouco inquietante, compreendo
mesmo. Percebo as partes que o deixariam desconfortável com a idéia como um
todo, mas já estive nessa situação antes e posso lhe assegurar que essa é a
única maneira. É assim que é quando o assunto é família. A gente tem de fazer o
que tem de ser feito, mesmo que seja difícil, mesmo que seja doloroso. É claro
que o que teremos que fazer com eles vai ser doloroso, mas você precisa
enxergar a situação mais ampla. Precisamos destruir um vilarejo para salvá-lo.
Pois é mais ou menos assim. Pense na nossa família como um vilarejo. Precisamos
fazer o que for preciso.
Ela gostava da parte em que sua filha usava “nós”. Parecia que formavam
uma espécie de equipe.
TELEFONEMA MISTERIOSO
Quando a primeira vez que conheci Helena ela fazia aula na universidade
de Connecticut. Muitas pessoas que conheciam o caso dela começavam a zombar
dela e acreditavam que ela mesma por linda e muito atraente poderia ter matado
sua família. Helena pensava que eu estaria naquele meio e chegou comigo para
ter uma conversa, mas eu afirmei que não falaria dela daquela forma, pois não a
conhecia. E como ela era uma jovem linda a convidei para tomar um suco comigo.
Fomos a uma lanchonete do campus, e Helena me contou que vivia com a tia
Tereza. Começamos a sair bem mais e enfim morando juntos e tendo uma linda
filha.
Minha amizade com Leandro possuía muitas facetas. Somos colegas e
amigos, mas, como é mais velho do que eu, ele se transformou numa figura
paterna. Eu o conheci por intermédio de Helena. Tornou-se um tio tão oficial
para ela. Ela havia sido amigo do pai dela, Jorge, antes de seu desaparecimento
e, fora a tia Tereza, era a única pessoa que conhecia com alguma ligação ao seu
passado.
Naquele dia era meu primeiro dia de aula como professor. Quando entrei
na aula de redação, havia na sala 21 corpos, todos mais ou menos deitado sobre
a mesa, como se estivesse removidos a espinha. Lá no fundo, Norma Scavullo, de
17 anos, estava debruçada de tal maneira na sua mesa que eu quase não conseguia
ver-lhe o curativo no queixo.
Eduardo- Muito bem.
Comecei a falar.
Eduardo- Já corrigi as redações, e tem muita coisa boa aqui. (remexi a
papelada na bolsa e tirei uma folha de papel) Vamos ler um trecho desta daqui.
Levantei a folha para o alto. Percebi Norma levantar a cabeça levemente.
Talvez tivesse reconhecido o papel pautado.
“O pai ou pelo menos o sujeito com quem a mãe dormia há tempo suficiente
para fazê-lo achar que devesse ser chamado assim. Tira a caixa de ovos de
dentro da geladeira e quebra dois com uma única só Mao dentro da tigela”. Parei
de ler e ergui os olhos.
Eduardo- Algum comentário?
Um menino disse:
- Eu gosto dos ovos com gema mole.
Uma garota do outro lado da sala comentou:
- Eu gostei. Dá vontade de saber como é o cara. Se ele se importa com o
café-da-manhã dela, talvez não seja um idiota.
Uma hora mais tarde quando iam saindo, eu chamei Norma.
Eduardo- Norma.
Ela se aproximou da minha mesa, com medo.
Eduardo- Você ficou zangada?
Ela deu de ombros.
Eduardo- Estava bom. Foi por isso que li.
Mas uma vez ela não fez questão.
Eduardo- Você escreve bem. Alguns dos seus textos ma fazem pensar um
pouco em Oates. Você já leu Joyce Carol Oates?
Norma fez que não com a cabeça.
Eduardo- Experimenta ler Foxfire: Confession of. a girl gang.
Recomendei.
Norma- Acabamos?
Perguntou ela. Eu disse que sim e ela sauí.
Eu queria saber um pouco mais da historia de Norma Scavullo, e, então
perguntei de Leandro sobre a vida da jovem. Disse-me que Norma era muito
triste, pois morava com a mãe e um sujeito novo que a mãe encontrara. E que
Leandro não tinha o endereço novo da jovem, mas que ela se passou a demonstrar
muito bem nos últimos meses; então, pensei comigo: Vai ver que o cara novo é um
sujeito legal.
Então passamos a conversar sobre Helena e disse a Leandro sobre o carro
vermelho que Helena disse ter visto.
Leandro- Um carro?
Eduardo- Um carro vermelho. Passou por ela duas vezes quando levava
Julia para a escola.
Leandro- Alguma coisa aconteceu?
Eduardo- Não.
Leandro- Eu devia conversar com ela.
Nos anos após o desaparecimento da família, Leandro, de vez em quando,
tomava conta de Helena para Tereza.
Eduardo- Talvez seja uma boa idéia. Eu só queria que isso acabasse para
Lena, que ela pudesse ter algum tipo de resposta. (fiz uma pausa) O que você
acha que aconteceu, Leandro? Você conhecia Jorge. Saia para pesar com ele.
Tinha noção do tipo de pessoa que ele era.
Leandro- E de tipo de pessoa era Vilma.
Eduardo- Eles pareciam do tipo de pessoa que abandonaria a filha?
Leandro- Não. O meu palpite, o que sempre acreditei lá no fundo do
coração, é que foram mortos. Sabe um assassino em cena, ou algo assim.
Eduardo- Mas, se algum assassino tivesse entrado na casa deles, levado
embora e matado os três, por que não Helena? Por que a teriam deixado para
trás?
Leandro não tinha uma resposta para mim.
Na manhã seguinte, enquanto Julia remexia a torrada com geléia sem muita
vontade de comer, disse que levaria a escola. O rosto da minha filha se
iluminou.
Julia- Você? Jura?
Eduardo- Eu já avisei a sua mãe. Eu não preciso estar na escola hoje
cedo, então tudo bem.
Julia me abraçou e ouvimos a sua mãe descendo as escadas falando.
Helena- Docinho, seu pai vai levá-la a escola hoje.
Docinho era um apelido carinhoso pelo qual a mãe chamara Helena.
Helena- Você se importa?
Julia- Claro que não.
Helena levantou uma das sobrancelhas.
Helena- Entendi. Você não gosta da minha companhia.
Julia- Mãe.
Reclamou Julia. A mãe sorriu, e não demonstrou que estaria chateada.
Mudando de assunto Julia perguntou.
Julia- Onde está a minha autorização?
Helena- Que autorização?
Julia- Para o passeio. Vocês tinham de me dar uma autorização.
Helena- Meu amor, você não disse nada sobre essa autorização. Você não
pode tirar esse tipo de coisa do nada, de uma hora para outra.
Eduardo- E para quê?
Julia- Para a gente ir visitar o corpo de bombeiros hoje e eu na posso
ir se não tiver uma autorização de vocês.
Eduardo- Não se preocupe. Vou escrever uma.
Corri escada acima até que seria o terceiro quarto, mas seria uma
combinação de quarto de costura e escritório. Num canto estava uma mesa em que
Helena e eu compartilhávamos um computador. Sobre a mesa estava uma velha
maquina de escrever Royal, dos tempos de faculdade, que eu ainda usava para
escrever bilhetes rápidos, pois minha letra é horrível.
Bati uma autorização para que nossa filha fosse ver o grupo de bombeiro
trabalhando. Eu só esperava que o “e” quase ilegível e que se parecia um “c”
não causasse confusão.
Entreguei a autorização para Julia e nos despedimos de Helena. Já na
calçada Julia me disse:
Julia- Mamãe parece estar bem contente hoje.
Eduardo- É claro que sim. Sua mãe estar quase sempre contente.
Julia olhou para mim como se eu não estivesse inteiramente sincero e não
estava.
Eduardo- Sua mãe tem andado com muita coisa na cabeça. Não está sendo um
momento bom para ela.
Julia- Por causa do programa da TV. Eu não sei por que vocês não me
deixam ver. Vocês gravaram, não gravaram?
Eduardo- Sua mãe não quer aborrecê-la.
Julia- Uma amiga gravou um pouquinho no celular dela, eu fui ver na casa
dela depois do almoço.
Como podia uma menina de oito anos sair assim, não dá para controlar
tudo na vida dos nossos filhos.
Julia- Mamãe amava a irmã dela, Kelly.
Eduardo- Amava. Amava, sim. Elas brigavam como muitos irmãos brigam, mas
elas se amavam.
Julia- Acho que você poderia parar de andar ao meu lado, hoje é um bom
dia. Não vi nenhum asteróide ontem de noite.
Um pouco adiante vi algumas crianças da escola e três quadras já dava
para ver a escola.
Eduardo- Está bem.
Julia- Tchau, pai.
Disse ela, apressando o passo. Não olhou para trás. Agora corria para
alcançar os amigos.
Foi então que o carro vermelho passou. Era um Impa La, creio, com um
pouco de ferrugem em volta das janelas. Fiquei parado, olhando-o descer a rua
até a ultima quadra antes da escola, onde Julia tagarelava com duas amigas.
O carro parou na esquina, a poucos metros de Julia, e meu coração bateu
na garganta por alguns instantes. Então a seta começou a piscar; o carro virou
para a direita e desapareceu na rua. Julia e as amigas atravessaram a rua e
entraram na escola.
Para minha surpresa, ela olhou para trás e acenou para mim. Ergui a mão
em retribuição.
Bom, então, havia mesmo um carro vermelho. Mas nenhum homem pulara de
dentro e perseguira a nossa filha. Parecia só um sujeito indo trabalhar.
Fiquei ali parado e senti uma tristeza infinita me invadindo. No mundo
de Helena, todos conspiravam para levar embora aqueles que amávamos.
Enquanto caminhava de volta para casa, tentei me colocar em outra
situação sem desespero, tentei esquecer o que aconteceu. Ao passar pela porta,
gritei:
Eduardo- Cheeeeeeguei.
Ouvi uma voz vinda da cozinha.
Helena- Estou aqui.
Avisou Helena. Sua voz parecia triste. Fiquei na soleira da porta. Ela
estava sentada a mesa da cozinha com o telefone a sua frente. O rosto parecia
ter perdido a cor.
Eduardo- O que foi?
Helena- Um telefonema.
Eduardo- De quem?
Helena- Ela não disse quem era. Só disse que tinha um recado.
Eduardo- Que tipo de recado?
Helena- Disse que eles me perdoam.
Eduardo- O quê?
Helena- Minha família. Ela disse que eles me perdoavam pelo que eu fiz.
Sentei-me ao lado de Helena sentir ao pegar em sua mão que estava
tremendo.
Eduardo- Pois bem. Tente se lembrar exatamente do que ela disse.
Helena- Eu já lhe falei. (disse ela irritada)
- O telefone tocou. Eu disse alô e ela perguntou: “Quem está falando? É
Helena Bigge?” isso me surpreendeu ser chamada assim, pelo nome, mas eu disse
que era. E ela continuou: “A sua família a perdoa.” - Ela fez uma pausa. –
“Pelo que você fez.” Eu não sabia o que dizer. Perguntei a ela do que estava
falando.
Eduardo- Então, o que foi que ela disse?
Helena- Não disse mais nada. Simplesmente desligou
Uma única lagrima descia pelo rosto de Helena enquanto olhava para mim.
Helena- O que ela quis dizer com isso, que eles me perdoam?
Eduardo- Eu não sei. Provavelmente foi alguma maluca que viu o programa.
Puxei o telefone para perto. Tinha uma pequena tela de identificador de
chamadas.
Eduardo- você chegou a ver de onde era a ligação?
Helena- Eu olhei, mas não dizia. Quando ela desligou, tentei verificar o
numero.
Apertei os números que mostravam o histórico de chamadas. Não havia
nenhum histórico de chamadas nos últimos minutos.
Eduardo- Não está mostrando nada.
Helena fungou e se inclinou por cima do telefone.
Helena- Eu devo... O que será que eu fiz? Quando fui olhar de onde o
telefonema tinha vindo, apertei esse botão para salvar.
Eduardo- Este é o botão para apagar. (avisei) Você apagou a chamada.
Helena- Eu fiquei tão nervosa... Simplesmente não sabia o que estava
fazendo.
Passei o braço por cima do ombro de Helena.
Eduardo- Não se preocupe com isso. Há gente demais que sabe o que
aconteceu com você. Isso pode transformá-la num alvo. Sabe o que a gente devia
tentar conseguir?
Helena- O quê?
Eduardo- Um numero que não conste da lista. Assim não receberíamos
ligações como essas.
Helena- (não concorda) Não, isso nós não vamos fazer.
Eduardo- Por que não?
Helena- (engolindo seco) Por que quando eles estiverem prontos para
telefonar, quando a minha família finalmente decidir se comunicar comigo, vai
ter como me achar.
AQUELE ERA o dia do nosso encontro com a Dra. Naomi Kinzler após o
trabalho. Helena combinara de deixar Julia na casa de uma amiga após a aula,
fomos de lá. Eu tivera as minhas duvidas, desde o inicio, de que houvesse
alguma coisa que um psiquiatra pudesse conseguir; depois de frequentarmos o
consultório desta há quase quatro meses, ainda não estava convencido.
A Dra. Naomi atendia num prédio de consultórios médicos na extremidade
leste de Bridgeport com vista para a auto-estrada. Ela era baixinha e gorducha
com cabelos grisalhos puxado para trás e presos num coque apertado. Pelos meus
cálculos, devia estar perto dos setenta anos.
Naomi- Então, o que há de novo desde a nossa ultima sessão?
Antes que Helena pudesse responder qualquer coisa, eu disse:
Eduardo- Está tudo bem. As coisas tem ido muito bem.
A doutora esteve nos falando varias coisas que talvez nunca pensássemos
que fosse; e conversa ia e conversa vinha, até que:
Helena- Houve um telefonema.
Ela forneceu os detalhes para a doutora, uma narrativa bem rápida da
ligação.
Dra. Naomi- A mulher que telefonou disse que sua família quer perdoá-la.
O que você acha que ela quis dizer com isso?
Helena- É nisso que eu fico pensando. Ela disse que eles me perdoaram.
Por quê? Por não os ter encontrado? Por não ter feito mais para descobrir o que
aconteceu com eles?
Dra. Naomi-(afirmando) Tem uma parte de você que ainda acha que o que
aconteceu com ales é, de algum modo, responsabilidade sua.
Eduardo- Ouçam. (comecei antes que Helena falasse) Isso foi um trote.
Dra. Naomi- Eduardo. (sendo paciente) é claro que pode ter sido um
trote, mas o que essa mulher disse ao telefone deflagrou sentimentos em Helena
da mesma forma. O que estamos fazendo aqui é tentar ajudar Helena a lidar com
um incidente traumático da sua infância que ressoa até hoje, não só pelo bem
dela, mas pelo bem do relacionamento de vocês.
Eduardo- O nosso relacionamento vai muito bem.
Helena- Ele nem sempre acredita em mim.
Helena deixou escapar.
Eduardo- Como?
Helena- Você nem sempre acredita em mim. Eu sei. Como quando lhe falei
do carro vermelho. E quando a mulher telefonou esta manhã. Como não conseguiu
encontrar o telefonema no histórico de chamadas. Você se perguntou se realmente
houve uma chamada.
Eduardo- Eu nunca disse isso.
E na verdade não disse mesmo.
Helena- Mas eu sei que foi que pensou.
Não via raiva na voz de Helena. Ela estendeu a mão e acariciou o meu
braço.
Helena- E, eu com toda sinceridade, não o culpo por isso. Se eu fosse
você, também ficaria chateado comigo. Será que não dava para você superar essa
historia? Já aconteceu há tanto tempo. Não é mesmo?
Eduardo- Eu nunca disse nada do gênero.
A Dra. Naomi nos observava.
-E SE EU PULASSE essa outra parte toda e fizesse logo o que tem de ser
feito?
Indagou-a.
-Aí, eu poderia ir para casa.
-Não, não, não.
Disse ela, quase em tom de repreensão. Ela esperou um instante, tentou
recobrar a calma.
-Eu sei que você quer voltar. E não há nada que eu queira mais. Mas
precisamos tirar as coisas do caminho primeiro. Você não pode ser impaciente.
Ela podia ouvir sua filha suspirar.
-Eu não quero colocar tudo a perder.
Disse a filha.
-E não vai. Você sempre quis agradar a todo mundo. Como é bom ter pelo
menos uma assim nesta casa. (um meio sorriso) Você é uma boa menina e eu a amo
mais que você jamais saberá.
-Vai ser esquisito... Fazer isso.
-Eu sei. Mas, se você for paciente, quando chegar o momento, uma vez que
o palco estiver pronto, vai parecer a coisa mais natural do mundo.
-É talvez.
Ela não parecia convencida.
-É disso que você precisa se lembrar. O que você está fazendo, tudo faz
parte de um grande ciclo. É disso que fazemos parte. Você já viu?
-Já. Foi estranho. Parte de mim queria dizer oi, dizer a ela: Ei, você
nunca vai acreditar em quem eu sou.
CARTA MISTERIOSA
NO FIM DE SEMANA, fomos visitar a tia de Helena, Tereza, que vivia numa
casa pequena e modesta na metade do caminho para Derby. Morava a menos de vinte
minutos de nós, mas não íamos vê-la com a freqüência com que devíamos. Como no
fim daquela semana era seu aniversario, fizemos questão de nos reunirmos.
Tereza já estava com sessenta e tantos anos e vivia de sua
aposentadoria. Ela gostava de jardinagem e passava o tempo com uma ou outra
bobagem; fazia às vezes uma viagem de ônibus, como no outono anterior por
Vermont.
E como Tereza adorava nos ver. Especialmente Julia.
Tereza- Eu estava remexendo umas de livros antigos lá no porão. (mostra
para Julia um grande livro) E olha só o que eu encontrei.
Julia- Muito grande.
Tereza- É seu.
Julia- (pegando o livro com muita força) Muito obrigada! (sentindo o
peso) Ele é muito pesado. Tem coisas sobre asteróides?
Tereza- Provavelmente.
Julia desceu correndo até o porão, onde eu saberia que ficaria na frente
da TV, e se enrolando nos cobertores enquanto folhava o livro.
Helena- Isso foi lindo.
Tereza- Ah, não foi nada. Como está meu anjo? Você me parece cansada.
Helena- Estou bem. E você? Você é que me parece cansada hoje.
Tereza- Estou bem, eu acho. (como que se acabasse de se lembrar alguma
coisa) Ora, não acredito. Era para eu comprar sorvete para Julia.
Eduardo- Eu posso ir comprar.
Ofereci-me.
Tereza- Eu queria outras coisas também. Helena talvez fosse você ir.
Você sabe que ele vai errar na lista.
Helena- Eu vou sem problema.
Tereza fez uma pequena lista e entregou para Helena. Eu entrei na
cozinha quando Helena ia saindo e olhei para o quadro de recados que ficava ao
lado do telefone, onde Tereza pregara uma foto de Julia tirada na Disney. Abri
o freezer para pegar gelo e colocar num copo com água. Bem na frente havia um
pote de sorvete de chocolate.
Eduardo- Ei, Tereza. Você já tem sorvete aqui.
Tereza- É mesmo?
Perguntou ela, da sala.
Eu fechei o congelador e me sentei no sofá, ao lado dela.
Eduardo- O que está acontecendo?
Tereza- Eu estive no medico.
Eduardo- O quê? O que há de errado?
Tereza- Estou morrendo, Eduardo.
Eduardo- O que quer dizer com isso? O que há de errado?
Tereza- Não se preocupe. Não vai acontecer da noite para o dia. Talvez
eu tenha seis meses; talvez um ano. Nunca se sabe, na verdade. o bom é que eu
posso ver a linha de chegada. Eu quero contar para você primeiro, porque
Helena, bem, ela está passando por muitas coisas ultimamente.
Ouvimos som na escada. Julia surgiu do porão abraçada ao seu novo livro.
Julia- Estou com fome.
Tereza- Tem sorvete no congelador. Chocolate.
Julia- Sério?
Tereza- Você pode pegar o pote todo.
A sugestão violava as regras de etiqueta que nossa filha fazia, mas
Julia então correu para a cozinha e pegou o pote e uma colher e desceu
novamente para o porão.
Os olhos de Tereza estavam cansados quando olhei para ela.
Eduardo- Acho que você deveria contar para Helena?
Tereza- (estendeu o braço e pegou na minha mão) É claro, eu não lhe
pediria para fazer isso. Eu só precisava lhe contar primeiro; assim, quando eu
contar para Helena, você vai estar preparado para apoiá-la.
Tereza apertou minha mão um pouco mais.
Tereza- Mas tem outra coisa.
Pela forma de ela dizer seria algo maior do que o fato de estar
morrendo.
Tereza- Há algumas coisas que preciso lhe contar enquanto ainda posso,
para tirá-las de mim. O problema é que nem sei se vale a pena Helena saber,
porque o que tenho a dizer levanta mais perguntas do que respostas. É possível
que a atormente mais do que ajude.
Eduardo- Tereza, o que é?
Tereza- É sobre o dinheiro.
Eduardo- Dinheiro?
Tereza- (falando cansada) Houve dinheiro. Ele simplesmente aparecia.
Eduardo- Dinheiro de onde?
Tereza- (ergueu as sobrancelhas) Pois é justamente essa questão, não é
mesmo? Não ia ser fácil criar Helena. Mas era minha sobrinha, carne e sangue de
minha irmã. Eu a amava como se fosse minha própria filha, então acolhi quando
tudo aconteceu. Havia uma parte dela que queria tomar jeito caso os pais
voltassem. Ela queria que eles se orgulhassem dela. Estão decidiu estudar,
fazer faculdade.
Eduardo- Na universidade de Connecticut.
Tereza- Exatamente. Boa faculdade. Nada barata. Eu me perguntava como ia
conseguir pagar.
Eduardo- Certo.
Tereza- Encontrei o primeiro envelope dentro do carro, no banco do carona.
Estava lá, simplesmente. Eu saí do trabalho, entrei no carro, e havia um
envelope branco no assento ao meu lado. Era bem grosso.
Eu inclinei a cabeça para o lado.
Eduardo- Era dinheiro vivo?
Tereza- Um pouco menos de cinco mil dólares.
Eduardo- Um envelope com dinheiro? Sem explicações, bilhete, nada?
Tereza- Ah, havia um bilhete, sim.
Ela levantou da cadeira e deu alguns passos até uma escrivaninha antiga
de tampo corrediço que ficava ao lado da porta de entrada abriu sua única
gaveta. Unida por um elástico havia uma pequena pilha de envelopes.
Ela me entregou uma folha de tamanho padrão, dobrada em três. Eu a
desdobrei. A mensagem estava em letra de fôrma, escrita com grande cautela.
Dizia:
Isto é para ajudá-la com Helena. É para a educação dela e para o que
mais você precisar. Haverá mais, mas você tem de seguir estas regras: nunca
conte para Helena sobre este dinheiro. Nunca conte a ninguém. Nunca tente
descobrir de onde ele vem. Nunca.
Era só.
Tereza- Eu nunca contei a ninguém. Eu nunca sabia quando ou onde ia
aparecer. Uma vez, eu o encontrei dentro do New Haven Register, na escada, na
frente de casa. Outra vez eu estava no posto e, quando sai, tinha outro
envelope no carro.
Eduardo- Quanto dinheiro no total?
Tereza- No decorrer de seis anos, quarenta e dois mil dólares.
Eduardo- Desde quando não houve mais?
Tereza- Uns quinze anos, eu acho. Nada desde que Helena terminou a
faculdade.
Eduardo- Então. Quem Foi que deixou?
Tereza- É a pergunta que vale quarenta e dois mil dólares. Sempre foi a
grande questão para mim. A mãe dela? O pai? Os dois?
Eduardo- O que quer dizer que estavam vivos todos esses anos, ou que
pelo menos um deles estava. Talvez ainda esteja. Mas se um ou outro foi capaz
de fazer isso, observar você, deixar o dinheiro, por que não poderia entrar em
contato?
Tereza- Entende o que quero dizer. Só serve para levantar mais questões
em vez de responder. Não significa que estejam vivos. E não significa que
estejam mortos.
Eduardo- Mas certamente significa alguma coisa.
Ouvimos um carro chegar, era o carro de Helena e logo paramos com a
conversa.
HELENA ESTAVA SENTADA na cama, folheando uma revista, apenas virando as
paginas, sem prestar a menor atenção.
Helena- Tenho algumas coisas para fazer no shopping amanhã. Tenho que
comprar tênis novo para Julia. Você vem conosco?
Eduardo- Claro. Podemos almoçar por lá.
Helena- Tia Tereza me pareceu preocupada hoje. E acho que ela está
começando a se esquecer das coisas. Ora, tinha sorvete em casa.
Eu tirei a camisa.
Eduardo- Bem, isso não é nada de mais.
Mas o peso maior era saber a respeito do dinheiro enviado para Tereza ao
longo de vários anos. Disso, Helena certamente tinha mais direito de saber do
que eu.
UMA MULHER COMO KELLY
GASTEI UM POUCO de tempo na livraria Helena e Julia procuravam tênis. Eu
segurava um livro quando Julia entrou na loja correndo. Helena veio logo atrás,
trazendo uma sacola de compras.
Julia- Estou morta de fome.
Disse Julia me abraçando.
Eduardo- Comprou o tênis?
Ela deu um passo atrás e desfilou para mim, mostrando um pé, depois
outro. Tênis branco com algumas coisas rosa.
Devolvi o livro a estante, e pegamos as escadas volantes ate a praça de
alimentação. Julia queria Mcdonalds, então eu lhe dei o dinheiro para comprar
sopa e um sanduiche. Helena não tirava os olhos do Mcdonalds para não perder
Julia de vista. O shopping estava cheio naquela tarde de sábado, assim como a
praça de alimentação.
Helena- Ela arranjou uma mesa para nós.
Eu percorri o local com os olhos e vi Julia sentada a mesa nos chamando.
Já havia tirado o Big Mac de dentro da caixa quando nos ajuntamos a ela.
Eu me sentei na frente de Helena, com Julia a minha direita. Notei que
Helena ficava olhando por cima do meu ombro. Eu me virei, olhei para onde ela
estava olhando e me voltei outra vez para frente.
Eduardo- O que foi?
Helena- Aquela mulher ali.
Eu comecei a me virar, mas ela disse:
Helena- Não, não olhe.
Eduardo- O que há de tão especial ela?
Helena- Ela se parece com Kelly, como Kelly provavelmente seria hoje.
Certo. Já passamos por isso antes. Fique calmo. Pensei eu.
Eduardo- Bem. Diga como ela é e eu vou me virar como quem não quer nada,
para dar uma olhada.
Helena- Ela tem cabelos longo até a costa na cor preta e está
usando um vestido amarelo. Está comendo comida chinesa. Parece uma versão mais
nova da minha mãe.
Eu me virei lentamente, na cadeira, fingi que estava olhando os diversos
quiosques de comida. Eu a vi, tentando pegar brotos de feijão com a língua ao
começarem a cair de um rolinho primavera. Era possível que Kelly se parecesse
com aquela mulher. Eu me virei outra vez.
Eduardo- Ela se parece com um milhão de outras pessoas.
Helena- Vou chegar mais perto para olhar.
Ela já estava de pé antes que eu a mandasse sentar-se.
Julia- Aonde a mamãe vai?
Eduardo- Ao banheiro.
Julia- Eu também vou ter de ir.
Eduardo- Ela pode levar você mais tarde.
Observei enquanto Helena dava voltas em toda a praça de alimentação,
caminhando na direção oposta de onde a mulher se encontrava. A se ver na
paralela a ela, foi em frente, até o Mcdonalds, e entrou na fila, olhando de
vez em quando para a mulher que acreditava apresentar uma incrível semelhança
com sua irmã.
Quando se sentou outra vez, entregou um sundae pequeno de chocolate para
Julia num copinho de plástico transparente. Sua mão tremia quando o colocou na
bandeja de Julia.
Julia- Uau!
Helena olhou para mim e disse:
Helena- É ela. É a minha irmã.
Eduardo- Lena, por favor, não é Kelly.
Helena- Eu dei uma boa olhada. É ele.
Sentir meu coração ribombar dentro do peito. Isso só tendia a piorar.
Helena- Vou falar com ela.
Pronto.
Eduardo- Você não pode. Olhe, não faz o menor sentido que aquela seja
Kelly. É só uma mulher qualquer; ela tem uma leve semelhança com sua irmã.
Helena- Está indo embora.
Minha mulher falou com um indicio de pânico na voz.
Eu me virei de rapidamente. A mulher estava de pé, limpando a boca com
um guardanapo e atirando-o dentro de um prato de papel começou a se afastar.
Helena- Ela está indo para as escadas volante.
Helena já estava de pé. Eu me virei para Julia.
Eduardo- Fique aqui e não se mexa, está me ouvindo?
Eu fui pedir um favor para uma senhora que nos olhava.
Eduardo- Com licença. A senhora se importaria em ficar de ilho na minha
filha só por um instante?
Ela me olhou fixamente sem saber o que fazer. E concordou em ficar com
Julia por dois minutos. Logo depois fui atrás de Helena. Comecei a enxergar a
cabeça da mulher descendo as escadas rolantes. A praça de alimentação estava
tão cheia que Helena perdera velocidade e, quando chegou ao topo das escadas,
meia dúzia de pessoas se interpôs entre ela e a mulher e outra meia dúzia ficou
entre mim e Helena.
Quando a mulher desceu, começou a caminhar rapidamente em direção a
saída. Quando Helena chegou ao fim das escadas, saiu correndo atrás dela.
Helena- Kelly!
Alcançou-a e agarrou-a pelo cotovelo. Ela se virou, assustada diante de
Helena ofegante e de olhos arregalados.
Kéti Sloan- Sim?
Helena- Você me desculpe, mas tenho a impressão de que a conheço.
Eu agora estava ao lado dela, e a mulher me olhou.
Kéti- Acho que não.
Helena- Você é Kelly.
Kéti- Kelly? (ela balançou a cabeça) Desculpe, mas não conheço
nenhuma...
Helena- Eu seu quem você é. Consigo ver minha mãe em você. Nos seus
olhos.
Eduardo- Sinto muito. (disse eu, dirigindo-me a mulher) Minha mulher
acha que você se parece com a irmã dela. Não a vê há muito tempo.
Helena se virou para mim, enfurecida.
Helena- Eu não estou enlouquecendo. (e se virou a mulher) Muito bem,
quem é você, então? Diga quem você é.
Kéti- Minha senhora, eu não sei qual é os eu problema, mas me deixe fora
disso, está certo?
Com um tom mais calmo que consegui usar, eu disse a mulher:
Eduardo- A família de minha mulher desapareceu há muito tempo. Ela não
vê a irmã há anos, e você obviamente se parece com ela. Se pudesse lhe mostrar
algum tipo de identificação, sua carteira de motorista, algo assim, minha
mulher ficaria mais tranqüila.
Ela estudou a expressão em meu rosto por um instante.
Kéti- Pronto.
Disse, entregando-a a mim. Era uma carteira de motorista de estado de
Nova York para Kéti Sloan. O endereço era em Youngstown.
Passei-a para Helena.
Eduardo- Dê uma olhada.
Ela pegou hesitante, entre o polegar e o indicador, e a examinou com
olhos marejados. Silenciosamente, devolveu-lhe a carteira de motorista.
Helena- Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo.
A mulher pegou o documento de volta, enfiou-a na carteira, balançou a
cabeça, aborrecida, e se afastou.
Eduardo- Vamos, Lena, vamos pegar a Julia.
Helena- Julia? Você deixou a Julia?
Eduardo- Está com alguém. (tentei acalmá-la) Está tudo bem.
Mas Helena já estava correndo, escada rolante acima, de volta a praça de
alimentação. Eu ia logo atrás dela, e fomos abrindo caminho pelo labirinto de
mesas onde havíamos
almoçado.
Julia não estava lá.
A mulher de casaco azul não estava lá.
Eduardo- Onde diabos...
Helena- Ah, meu Deus. Como você pôde deixá-la aqui sozinha?
Eduardo- Estou lhe dizendo que a deixei aqui com uma mulher, ela estava
sentada aqui.
A mulher havia deixado sobre a mesa alguns pratos com torradas e uma
coca-cola inacabada, parecia que havia saindo às pressas.
Helena, de pé no meio da praça de alimentação abarrotada de gente,
começou a gritar o nome da filha:
Helena- Julia! Julia!
E então, atrás de mim, uma voz:
Julia- Oh, pai. (eu me virei rapidamente) Por que a mamãe está gritando?
Helena- Onde foi que você se enfiou Julia? O que aconteceu com aquela
mulher?
Julia- O celular dela tocou e ela falou que tinha de ir. Eu tinha ido ao
banheiro, não falei que estava apertada?
Helena agarrou Julia e a abraçou com tanta força que ela quase sufocou.
UMA ESPÍRITA NO CASO DE HELENA
NINGUÉM DISSE nada no caminho para casa. Ao chegarmos, a luzinha de
recados da secretária eletrônica piscava. Era um dos produtores do programa
Deadline. Alguém entrara em contato com eles. Alguém que dizia talvez saber o
que havia acontecido com os pais e com a irmã de Helena.
Helena retornou a ligação imediatamente.
Helena- Quem é? (perguntou ao produtor) É minha irmã?
Segundo o produtor era uma mulher. Uma clarividência ou algo do gênero.
Mas muito digna de credito, pelo que puderam perceber.
Helena desligou o telefone.
Helena- Era médium disse que sabe o que aconteceu.
Ótimos, pensei. Uma espírita. Excelente.
Helena- Acho que deveríamos ouvir o que ela tem a dizer.
JANTAMOS CEDO no dia seguinte para termos tempo de ir até a repetidora
da Fox em New Haver.
Helena- Eles querem que eu leve uma das caixas de sapato. Ela disse que
só precisa segura-la, talvez segurar algumas das coisas que estão dentro,
captar algumas vibrações, ou seja, lá o que for do passado.
Eduardo- Pelo menos sabemos quem ela é?
Helena- Keira. Keira Ceylon. Eu a procurei na internet. Tem uma pagina.
Eduardo- Aposto que tem.
Helena- Seja bozinho.
Estávamos todos no carro, prontos para sair, quando Helena disse:
Helena- Espere! Não acredito. Esqueci a caixa de sapatos.
Ela havia tirado uma das caixas de sapatos de lembranças da família de
dentro do guarda-roupa e colocado em cima da mesa da cozinha para não esquecer.
Helena- Só um segundo.
Pediu ela. Eu a observei destrancar a porta e correr para dentro de
casa. Pareceu passar um bom tempo lá, mais tempo do que deveria, mas então
reapareceu com a caixa enfiada debaixo do braço. Trancou a porta e entrou no
carro outra vez.
Eduardo- Por que demorou tanto?
Helena- Tomei um Advil. Minha cabeça está latejando.
Na emissora, fomos recebidos na recepção pela produtora de
rabo-de-cavalo que nos levou o set. Paula Maluf estava lá e cumprimentou Helena
como se fossem velhas amigas, destilando charme por todos os poros. Ao lado de
Paula havia uma mulher negra de seus quarenta e tantos anos, imaginei,
impecavelmente vestida num terninho azul-marinho.
Paula- Eu gostaria de lhes apresentar Keira Ceylon.
Keira- É um prazer conhecê-los.
Disse Keira apertando nossas mãos.
Keira- E essa deve ser Julia.
Ela se abaixou para apertar a mão de nossa filha.
Julia- Oi.
Eduardo- Vocês têm algum lugar onde Julia possa ficar? Talvez... Como é
mesmo que vocês chamam uma sala verde?
Julia- Por que é verde?
Julia quis saber, enquanto era levada por uma assistente até outra
assistente.
Depois de maquiar Helena e Keira, as duas foram posicionadas num sofá
com caixa de sapatos entre elas. Paula sentou-se numa poltrona logo a frente de
direção para as duas.
Paula contou para o publico toda a historia. Contou a surpreendente
evolução do caso. Uma médium havia se apresentado, uma que acreditava poder
esclarecer alguns aspectos do desaparecimento da família Bigge, em 1983.
Keira- Eu assistir seu programa, e é claro que achei interessante. Umas
duas semanas mais tarde, eu estava tentando ajudar um cliente a se comunicar
com um parente que havia falecido, mas não estava tendo o sucesso de sempre,
como se houvesse algum tipo de interferência.
Paula- Fascinante!
Keira- Então ouvi uma voz, que me disse: “Por favor, dê uma mensagem
para a minha filha.”
Paula- É mesmo? E ela disse quem era?
Keira- Disse que seu nome era Vilma. Queria que eu entrasse em contato
com a filha, Helena.
Paula- Por quê?
Keira- Não tenho muita certeza. Foi por isso que eu quis que você
trouxesse lembranças, para eu poder segura-las e talvez compreender melhor o
que aconteceu.
Paula chegou para frente, aproximando de Helena.
Paula- Você trouxe algumas coisas, não trouxe?
Helena- Trouxe, sim. Esta é uma das caixas de sapatos que eu já lhe
mostrei. Fotos, velhos recortes, pequenas recordações. Eu posso mostrar o que
há dentro e...
Keira- Não. (interrompeu) Não é necessário. Se você me passar a caixa
toda...
Helena a deixou pega-la, colocá-la no colo. Keira apoiou cada uma das
mãos numa extremidade da caixa e fechou os olhos.
Keira- Eu sinto tanta energia saindo daqui. (apertou os olhos) Sinto...
Que você está prestes a receber um sinal.
Helena- Um sinal? Que tipo de sinal?
Keira- Não sei se posso lhe falar mais. (Keira abriu os olhos) Eu...
Preciso que desliguem as câmeras um instante.
Paula- Qual é o problema, Keira?
Keira- Eu só quero saber ao certo, antes de irmos em frente, quanto vão
me pagar para eu fazer isso.
Eduardo- Amor. Vamos nessa.
Ela concordou tirando o microfone da blusa e se levantando.
Paula- O que você está fazendo?
Helena- Já chega de me fazerem de idiota.
Keira- Mil dólares. Eu digo o que a sua mãe me disse se você me der mil
dólares.
Helena já tinha dado a volta por trás do sofá. Eu estendi a mão para
ela.
“VOCÊ TINHA razão”. Disse Helena no caminho para casa. Balancei a
cabeça.
Eduardo- Você foi ótima, indo embora daquele jeito. Você deveria ter
visto a expressão no rosto da suposta médium quando você tirou o microfone.
O sorriso de Helena ficou suspenso no brilho de algum farol vindo na
direção oposta. Julia havia adormecido no banco traseiro.
Helena- Uma noite desperdiçada.
Eduardo- Não. O que você disse é verdade. Mesmo que haja apenas uma
chance em um milhão, é preciso conhecê-la de perto. E nós fomos conhecer. E
agora podemos riscá-la da lista e ir em frente.
QUEM DEIXOU O CHAPÉU ALI.
Quando chegamos à nossa casa. Helena acedeu às luzes da cozinha
enquanto me dirigia às escadas, para colocar Julia na cama.
Helena- Eduardo!
Disse Helena. Algo na voz de minha mulher me disse que fosse a cozinha
imediatamente. Então fui.
No centro da mesa da cozinha havia um chapéu masculino preto. Um chapéu
de feltro velho, lustroso de tanto uso.
Coloquei Julia no sofá com todo o cuidado, enfiei uma almofada de baixo
de sua cabeça e voltei para cozinha. Helena olhava fixamente para o chapéu de
feltro, se posicionado o mais longe possível da mesa, os olhos cheios de pavor.
Helena- Ele esteve aqui.
Eduardo- Quem esteve aqui?
Helena- O meu pai ele esteve aqui.
Eduardo- Helena alguém esteve aqui e deixou isso em cima da mesa, mas
daí a ter sido o seu pai...
Helena- É o chapéu dele.
Ela insistiu mais calma, porem, do que eu teria esperado.
Eu me aproximei da mesa, peguei o chapéu com as duas mãos e o virei. Não
havia duvida de que se tratava de um chapéu velho.
Helena- Olhe dentro. Depois de perder alguns chapéus, papai pegou uma
caneta e colocou um “J” por dentro da faixa deste. De “Jorge”.
Eu passei o dedo pela faixa e a dobrei para trás. Encontrei-o do lado
direito, perto da parte de trás. Virei o chapéu de maneira que Helena pudesse
ver.
Ela respirou fundo.
Helena- Oh, meu Deus.
Eu estendi o chapéu em sua direção e ela o pegou.
Helena- É ele. Ele esteve bem aqui, nesta cozinha, na nossa casa.
Eduardo- Helena. Mesmo que seja o chapéu do seu pai, e, se você diz que
é, eu acredito, o fato de estar aqui não significa que tenha sido seu pai quem
deixou.
Helena- Ele nunca saia sem ele. Ele o usava sempre. Ele não o deixou em
casa na ultima noite que vi. Você sabe o que isso quer dizer, não sabe?
Esperei.
Eduardo- Quer dizer que ele está vivo.
Helena colocou o chapéu de volta na mesa.
Helena- A policia pode tirar impressões digitais.
Eduardo- De um chapéu? Acho que não.
Helena- Não. Da maçaneta da porta. Ou da mesa. De alguma coisa. Só quero
saber se ele está vivo.
Eu não tinha tanta certeza assim, mas concordava que chamar a policia
era uma boa idéia. Alguém se não Jorge, alguém havia entrado na nossa casa
enquanto estávamos fora. Liguei para a policia. Uma patrulha chegou a nossa
casa dez minutos depois. Julia, é claro, já havia acordado no meio daquele
alvoroço e estava no topo da escada, espiando pela balaustrada, como uma
presidiária mirim.
Policia- Alguma coisa foi roubada?
Eduardo- Não que tenhamos notado.
Policia- Alguma avaria? Algum tipo de vandalismo?
Helena- Vocês precisam procurar impressões digitais.
Policia- Minha senhora, sinto dizer que não há evidencia alguma de
arrombamento. Tudo parece em ordem.
Helena- Mas esse chapéu foi deixado aqui. Isso mostra que algum invadiu
nossa casa.
Eu imaginaria como aquilo estaria soando nos ouvidos dos policias.
Policia- Não há o menor sinal de que alguém tenha mexido na fechadura.
Quem sabe alguém para quem vocês deram uma copia da chave deixou isso aí,
achando que era de vocês.
Meu olho foi direto ao ganchinho vazio onde costumávamos deixar a chave
sobressalente. A mesma da qual eu dera falta na outra manhã. E com isso eles
pediram licença para saírem.
Eu pensei em como Helena se esquecera de levar a caixa de sapatos para a
desastrosa reunião com a espírita. Em como ela havia corrido de volta para casa
enquanto eu e Julia aguardávamos no carro. Ela passou tempo demais dentro de
casa só para pegar uma caixa.
Não era possível, eu disse a mim mesmo. Certamente que não.
LEANDRO É NOTICIADO
ENFIEI A CABEÇA na porta da sala de Leandro.
Eduardo- Você tem um minuto?
Leandro olhou para a pilha de papeis sobre a sua mesa. Relatórios,
avaliações de professores, estimativas orçamentais.
Leandro- Já almoçou?
Eduardo- Não.
Leandro- Então vamos até o Stonebridge.
Ele vestiu um paletó e avisou a secretaria que ficaria fora algum tempo.
Ao sair do gabinete, me vi no caminho de Norma Scavullo, que vinha
descendo o corredor a toda.
Os livros que ela carregava espalharam-se pelo chão.
Norma- Que inferno!
Eduardo- Desculpe.
Ajoelhei para ajudá-la a reuni-los.
Norma- Tudo bem.
Disse ela, apressando-se para pegar os livros antes que eu o
fizesse. Mas não foi rápida o bastante. Eu já estava com foxfire, o livro de
Joyce Carol Oates que eu lhe recomendara, na mão. Ela o arrancou de mim.
Eduardo- Está gostando?
Norma- É bom. Por que sugeriu que eu lesse? Acha que eu sou tão ruim
quanto às meninas da historia?
Eduardo- As meninas da historia não são ruins. E não acho que você seja
como elas. Mas achei que talvez apreciasse o texto.
Ela estalou o chiclete na boca.
Norma- Posso lhe fazer uma pergunta?
Eduardo- Claro.
Norma- Que diferença faz para você? O que eu leio ou como escrevo?
Eduardo- Você acha que eu sou professor porque quero ficar rico?
Ela pareceu prestes a esboçar um sorriso, mas se conteve a tempo.
Norma- Tenho de ir.
E foi o que ela fez.
Quando Leandro e eu chegamos ao local combinado, o movimento havia
estado calmo. Nós pedimos um prato completo para almoçarmos ali mesmo.
Leandro estava falando sobre a venda da casa e que sobraria bastante
dinheiro depois de comprarem o trailer na Flórida.
Eduardo- Eu estou com a cabeça cheia. Helena sempre pensou em você como
tio, sabe? Você tomou conta dela depois do que aconteceu. Então eu tenho a
sensação de poder recorrer a você quando há algum problema.
Leandro- Sem problema algum. Mas o que aconteceu?
Eduardo- Estou começando a me perguntar se Helena está perdendo o juízo.
Não é um único fato. São vários juntos.
Eu o pus, a saber, de tudo. Do carro vermelho. Do telefonema anônimo de
alguém que dizia que a família a havia perdoado, e de como ela, acidentalmente,
apagara a ligação. Da perseguição a mulher no shopping, achando que era sua
irmã. Do chapéu no centro da mesa.
Leandro- O quê? O chapéu de Jorge?
Eduardo- É. Claro. Quer dizer, eu acho que ela poderia tê-lo guardado em
alguma caixa todos esses anos. Mas realmente tinha a tal marca por dentro, a
inicial do primeiro nome debaixo do forro.
Leandro pensou a respeito.
Leandro- Por que ela estaria inventando essas coisas?
Eduardo- Não sei só gostaria que isso tudo acabasse.
Leandro- Um encerramento.
Eduardo- Eu odeio essa palavra. Mas é isso, basicamente. O problema é
que tem mais. Lena está num momento tão delicado que eu não contei a ela
algumas coisas. (Leandro ergueu uma das sobrancelhas) sobre Tereza.
Leandro tomou um gole de cerveja.
Leandro- O que tem Tereza?
Eduardo- Para começar, ela não está nada bem. Disse-me que está
morrendo.
Leandro- Diabo! Helena vai ficar arrasada. São tão próximas.
Eduardo- Eu sei. Eu acho que é a Tereza que devia contar para ela, eu
não posso.
Leandro- E o que mais?
Eu me senti mal em contar a Leandro sobre os pagamentos secretos que
Tereza havia recebido antes de contar a Helena, mas esse era um dos motivos
pelos quais eu estava me aconselhando com ele. Para saber como contar a minha
mulher. Então com firmeza eu contei tudo o que Tereza havia me dito.
Leandro- Suponhamos que você conte a ela. E então?
Leandro apertou os lábios e inclinou o corpo para frente.
Leandro- Eu não contaria.
Acho que fiquei surpreso com aquilo.
Eduardo- Jura?
Leandro- Pelo menos por enquanto. Vai ser um tormento para ela. Vai
fazê-la achar que, se tivesse sabido a respeito do dinheiro, talvez pudesse ter
feito alguma coisa.
Pensei sobre aquilo. Achei que ele tinha razão.
Leandro- E não é só isso, bem na ocasião em que Tereza mais precisa do
apoio e do amor de Helena, quando a saúde dela está fragilizada, Helena vai
ficar com raiva dela. Vai se sentir traída. Ela vai sentir que a tia não tinha
o direito de esconder-lhe essa informação durante tantos anos.
Eu concordei, mas então parei.
Eduardo- Mas, se eu não lhe contar, será que não a estarei traindo da
mesma forma que Tereza a traiu?
Leandro me observou e sorriu.
Leandro- É por isso que eu fico feliz por a decisão ser sua, e não,
minha meu amigo.
DETETIVE OCTAVIO NO CASO
QUANDO CHEGUEI em casa, o carro de Helena estava na frente da garagem,
além de um veiculo que eu não reconheci estacionado no meio-fio.
Passei pela porta da frente e vi Helena sentada no sofá da sala de estar
na frente de um senhor baixo, atarracado e quase calvo, de pele morena. Os dois
se levantaram e Helena se aproximou de mim.
Helena- Oi, meu amor.
Eduardo- Oi, meu anjo. (Eu me voltei para o homem e lhe estendi a mão,
que ele aceitou com grande confiança e apertou.) Como vai?
Octavio Abagnal- Sr. Archer.
Ele tinha uma voz grave e doce.
Helena- Esse é o senhor Octavio Abagnal. É o detetive particular que
vamos contratar para encontrar a minha família.
Octavio- A senhora Helena Archer já me explicou muitos detalhes, mas eu
gostaria de lhe fazer algumas perguntas também.
Eduardo- É claro.
Ergui o dedo em sinal de: “Me dê um segundo?” enquanto me virara para
Helena e dizia:
Eduardo- Posso falar com você um minuto?
Ela olhou para Octavio como se pedisse desculpas.
Helena- O senhor nos da licença?
Ele fez que sim. Então conduzir Helena até a escadaria e disse:
Eduardo- Que diabos está acontecendo?
Helena- Eu não vou ficar sentada esperando que alguma coisa aconteça.
Decidi tomar as rédeas da situação.
Eduardo- E o que é que você espera que ela descubra? Helena já se
passaram vinte e cinco anos.
Helena- Bem, aquele chapéu não apareceu há vinte e cinco anos. E aquele
telefonema não aconteceu há vinte e cinco anos.
Eu balancei a cabeça. Não sabia o que fazer.
Helena- O que está acontecendo com você, Eduardo? Um dos motivos pelos
quais me casei com você foi porque eu sabia que você sempre estaria ao meu
lado, que me apoiaria. E, durante anos, você esteve. Mas, ultimamente, tenho
tido a sensação de que você talvez esteja se cansando disso. Que talvez você
nem esteja certo de que acredita em mim o tempo todo.
Eduardo- Helena, não...
Helena- Talvez esse seja o motivo de que eu esteja contratando esse
homem. Porque ele não vai me julgar. Ele não vai entrar neste caso achando que
estou parecendo uma doida varrida.
Eduardo- Eu nunca disse que achava que você fosse uma...
Helena- E nem precisa. Eu vejo nos seus olhos.
Nós ficamos nos olhando por alguns segundos. Eu a puxei para perto de
mim e falei em seu ouvido.
Eduardo- Eu sinto muito. Eu sempre estarei ao seu lado. Eu sempre vou
apoiá-la. Talvez estivessem jogando dinheiro fora. Mas, mesmo que Octavio não
descobrisse nada, talvez contratá-lo para tentar fosse exatamente o que Helena
precisava fazer.
Eduardo- Vamos conversar com ele.
Octavio Abagnal estava sentado no sofá olhando as caixas de sapatos de
Helena, repletas de lembranças, e se levantou quando entramos.
Octavio- Espero que não se importe, eu estava olhando as suas coisas.
Gostaria de olhá-las com mais calma, caso vocês decidam solicitar a minha
ajuda.
Eduardo- Já decidimos, e vamos querer, sim. Gostaríamos que o senhor
tentasse descobrir o que aconteceu com a família de Helena.
Octavio- Eu não vou lhe dar falsas esperanças. Acredito que vocês devam
ter expectativas muito baixas.
Helena concordou, levemente.
Octavio- Não vejo muita coisa aqui que salte aos olhos. Mas, gostaria de
ficar com elas se não se importar.
Helena- Tudo bem. Contanto que eu as receba de volta.
Octavio- Então senhora Helena, tem fotografias do seu pai?
Helena- Lamento que não.
Octavio- Vou verificar com o Departamento de Registro de Veículos. Eu
não sei até quando vão os arquivos deles, mas talvez tenham uma foto.
Octavio fechou o caderno de anotações e enfiou no paletó, então nos deu
um cartão de visitas. Juntou as caixas de sapatos e se levantou.
Octavio- Entrarei em contato logo, logo para lhes dizer como estou
progredindo.
Eduardo- Eu acompanharei o Sr. Abagnal até o carro.
Avisei a Helena. Octavio estava com a porta aberta e prestes a se
acomodar no assento do motorista quando eu disse:
Eduardo- Talvez o senhor queira conversar com a tia de Helena, Tereza.
Octavio- É mesmo?
Eduardo- Recentemente ela me contou uma coisa, algo que ainda não
revelou a Helena. (Contei a ele sobre as doações anônimas em dinheiro.) Direi a
Tereza que espere a sua visita.
Octavio- Obrigado. Entrarei em contato com vocês daqui a três dias, ou
antes, se descobrir coisa interessante.
- HOMENS SÃO fracos. E eles decepcionam a gente. Com a mesma freqüência,
são as mulheres que realmente nos traem; não você, é claro.
Disse ela.
-Eu sei. Você já disse isso antes.
Replicou a filha.
-Ah, me perdoe.
Ela começou a mostrar seu sarcasmo.
-Estou entediando você, meu anjo?
-Não, tudo bem. Continue. Você estava dizendo que as mulheres também nos
traem. Eu estou escutando.
-Isso mesmo. Como aquela Tereza. Ela roubou de mim.
-Bem... Ela não gastou o dinheiro com ela mesma. Ela a usou para...
-Chega! Quanto mais eu penso nessa historia, mais ela me deixa louca.
Ela devia ter encontrado uma forma de me contar e de consertar tudo.
E como ela teria feito isso? Perguntou-se a filha. Mas não disse nada.
-Você ainda está aí?
Perguntou ela.
-Estou aqui.
-Você queria dizer alguma coisa?
-Não, nada. É só que... Bem, teria sido meio complicado, você não acha?
-Às vezes eu não aguento conversar com você. (Disse ela) Falo com você
amanhã. Se eu precisar de uma conversar inteligente nesse meio-tempo, converso
com o espelho.
EXAME FALSO
DEPOIS QUE ABAGNAL saiu, liguei para Tereza para preveni-la.
Tereza- Eu ajudarei no que puder. Acho que Helena está fazendo a coisa
certa, contratando um detetive particular para investigar essa historia. Se
estiver pronta para dar um passo desses, provavelmente está pronta para ouvir o
que eu tenho a lhe contar.
Eduardo- Logo nos veremos outra vez.
Tereza- Quando o telefone tocou, eu estava mesmo pensando em lhe
telefonar. (Tereza respirou fundo.) Eduardo, fui fazer outro exame.
Sentir as pernas bambas.
Eduardo- O que disseram?
Tereza- Que eu vou ficar bem. Que o outro exame estava errado. Mas esse
ultimo, esse foi definitivo, Eduardo, eu não estou morrendo.
Eduardo- Ah, meu Deus, Tereza, que noticia maravilhosa. Eles têm
certeza?
Tereza- Têm, sim. Mas, Eduardo, diga que você não contou nada a Helena.
Eduardo- Eu não disse nada.
Quando voltei para dentro, Helena percebeu uma lagrima escorrendo pelo
meu rosto. Ela estendeu a mão e a secou com o indicador.
Helena- Eduardo, o que foi? O que aconteceu?
Eu a abracei.
Eduardo- É que estou muito feliz.
Ela deve ter achado que eu estava perdendo o juízo.
HÁ MUITO que eu não via Helena tão tranquila como se mostrou nos dois
dias que se seguiram. Depois do jantar, uma noite, Julia desapareceu para
assistir a alguma coisa no Discovery Channel sobre o que realmente compõe os
anéis de Saturno, e Helena e eu nos sentamos à mesa da cozinha. Eu colocava
números num bloco de papel, somava-os e depois os somava de outra maneira.
Eduardo- Estive pensando, que talvez a gente pudesse pagar o senhor
Abagnal por duas semanas em vez de uma.
Helena- Eu te amo, sabia?
No outro cômodo, alguém na TV disse “Urano” e Julia riu.
Helena- Alguma vez lhe contei de quando estraguei a fita cassete de
James Taylor que era da minha mãe?
Eduardo- Não.
E lá ela me contou toda a historia. Parecia uma novela sendo contada com
narradora.
Helena-... Achei que ela ia me matar. Mas, em vez disso, parou o
que estava fazendo, foi até a fita, pegou-a, olhou qual era e disse: “James
Taylor. Esta é a que tem your Smiling face. Minha favorita. E sabe por que eu
gosto tanto dela?”, me perguntou. “Porque começa dizendo: toda vez que vejo o
teu rosto tenho de sorrir porque te amo.” Bem, foi algo assim.
E ela continuou.
“É a minha preferida porque toda vez que a ouço me faz pensar em você e
no quanto eu te amo. E neste exato momento você precisa que eu ouvisse essa
musica mais do que nunca.”
Os olhos de Helena estavam cheios de lagrimas. Uma lagrima solitária
correu pelo seu rosto e caiu sobre a mesa da cozinha.
Helena- Eu adoro aquela musica. E sinto tanta falta da minha mãe...
UM POUCO mais tarde ela telefonou para Tereza. Por nenhum motivo em
especial, só para bater-papo. Depois ela subiu para o quarto, e os olhos
vermelhos sugeriram que ela andara chorando outra vez.
Helena- Tia Tereza, ela me contou, tinha achado que estava muito doente,
até mesmo em fase terminal, mas que afinal estava bem. Ela disse que não quis
me contar porque não queria me trazer mais problemas. Dá para imaginar uma
coisa dessas?
Eduardo- Que loucura.
Ela soou o nariz.
Helena- Não posso imaginar perdê-la.
Eduardo- Eu sei, nem eu.
Helena- Ela pediu que você telefonasse para ela. Provavelmente quer lhe
contar pessoalmente. Não diga que eu já lhe contei, está bem? Eu só não
agüentei guardar para mim, sabe?
Eduardo- Claro.
Desci e disquei o numero de Tereza.
Tereza- Eu contei a ela.
Eduardo- Eu sei. Obrigado.
Tereza- Ele esteve aqui. O detetive. O Sr. Octavio Abagnal. Um senhor
muito simpático. Contei tudo a ele. Sobre o dinheiro, sobre a carta. De tudo
para ele. Ficou muito interessado.
Eduardo- Imaginei que ficaria. Acho que foi o melhor a fazer. Se você se
lembrar de mais alguma coisa deve ligar para ele.
Tereza- Foi o que ele me mandou fazer. Ele me deu seu cartão. Estou
olhando para ele neste instante. Está preso no quadro de avisos ao lado do
telefone, bem pertinho daquela foto de Julia com o Pateta.
Eduardo- Está bem.
Tereza- Dê um abraço em Helena por mim.
Eduardo- Darei. Eu te amo, Tereza.
Eu disse e desliguei.
Helena- Ela lhe contou?
Perguntou Helena assim que voltei ao nosso quarto. Já estava de
camisola, ela estava deitada na cama, por cima das cobertas.
Eduardo- Contou sim.
Eu me inclinei e a beijei na testa.
Eduardo- Agora tente dormir. Vou dar boa-noite a Julia.
UMA MULHER ESPIANDO JULIA
COMO SEMPRE, o quarto de Julia estava numa escuridão completa e
imensa a lhe dar a melhor visão possível ao telescópio.
Eduardo- Estamos seguros essa noite?
Julia- Parece que sim.
Eduardo- Que bom.
Julia- Quer dar uma olhada?
Apertei os olhos perto do visor e não vir nada além de escuridão e
alguns pontinhos de luz.
Eduardo- Muito bem. O que é que eu estou vendo?
Julia- Estrelas.
Eu me virei e olhei para ela, com um sorriso travesso nos lábios.
Eduardo- Muito obrigado, Carl Sargan.
Brinquei com ela. Coloquei o olho de volta na posição, tentei ajustar o
telescópio e ele escorregou um pouco para fora do suporte.
Julia- Eu avisei que esse suporte estava uma porcaria.
Eduardo- Está bem, está bem.
Disse eu olhando outra vez pelo visor, mas agora o foco havia mudado e
eu olhava um circulo enormemente aumentando da calçada na frente da nossa casa.
No meio do circulo, uma mulher a observara.
O rosto, embaçado, indistinto, enchia a lente. Abandonei o telescópio e
me aproximei da janela.
Eduardo- Quem diabos será essa daí?
Perguntei muito mais para mim do que para Julia.
Julia- Quem?
Ela chegou à janela a tempo da mulher se afastar correndo.
“Fique exatamente onde está” disse eu para Julia, e sair como um raio de
dentro do quarto; desci as escadas de dois em dois degraus e praticamente voei
porta afora. Corri até o fim da estrada de acesso e olhei na direção em que a
mulher havia corrido. A uns trinta metros dali, as luzes vermelhas da traseira
de um carro parado no meio-fio se acenderam quando alguém virou uma chave na
ignição, passou a marcha e pisou no acelerador. Eu estava longe demais para ver
que tipo de carro era antes de ele dobrar a esquina.
Quando cheguei de volta a porta da frente, Julia estava lá, parada.
Eduardo- Mandei você ficar no seu quarto.
Ralhei furioso.
Julia- Mas eu só queria ver...
Eduardo- Vá para cama neste instante.
Ela subiu as escadas no mesmo segundo.
Meu coração rebolava dentro de mim e eu precisa parar um instante para
subir as escadas, por fim ele parou de acelerar e eu subi ao meu quarto e
encontrei Helena debaixo das cobertas, dormindo profundamente.
Olhei para ela e me perguntei que tipo de conversa estaria escutando ou
tendo com os desaparecidos ou com os mortos.
Faça-lhe uma pergunta por mim, eu queria dizer. Pergunte quem anda
vigiando a nossa casa. Pergunte o que ela quer conosco.
LEANDRO FICA POR DENTRO DO ASSUNTO
NA ESCOLA, encontrei Leandro levando uma caneca de café na sala dos
professores.
Eduardo- Tudo bem?
Ele parecia distraído.
Leandro- O mesmo de sempre, e você?
Deixei escapar um suspiro.
Eduardo Alguém estava no escuro olhando para a nossa casa ontem a noite,
e quando tente descobrir quem era, ela saiu correndo.
Peguei uma caneca para mim e enchi de café.
Leandro- (muito interessado) Mais que absurdo! E quem era, era mulher?
Eduardo- Uma mulher. Mas o que ela faria ali?
Leandro- Essa historia sua com de Helena parece mais com historia de
filme.
Leandro fez uma pausa.
Leandro- Estou tentando me aposentar mais cedo.
Já tínhamos acabo de falar de mim.
Eduardo- Achei que fosse ficar até pelo menos esse ano letivo.
Leandro- Seria menos alguns dólares na minha aposentadoria.
Eduardo- Você me parece meio tenso hoje.
Leandro- Estou bem.
Ele parecia mais como um fumante desesperado por um trago.
Leandro- Simone já se aposentou. Não há mais nada que me segure aqui.
Nenhum de nós está ficando mais jovem. Ninguém sabe quanto tempo ainda tem de
vida. A gente está aqui num minuto e no seguinte já não está mais.
Eduardo- Ah, isso me faz lembrar uma coisa.
Leandro- O que foi?
Eduardo- Sobre Tereza. Ela vai ficar bem. Fizeram outro exame, e parece
que o diagnostico inicial estava errado. Ela não está morrendo.
Leandro- (lentamente como se não conseguisse absorver a noticia) Os
médicos disseram que ela estava morrendo. E agora, como é isso? Estão dizendo
que estavam enganados?
Eduardo- Isso não é o que eu chamaria de noticia ruim, sabia?
Brinquei e Leandro piscou os olhos.
Leandro- Não, claro que não. É ótima noticia.
A PRIMEIRA DESCOBERTA
-O SENHOR ACEITA um café?
Perguntou Helena quando o Sr. Octavio entrou na nossa casa no fim
daquela tarde. Ele havia telefonado para dize que gostaria de se encontrar
conosco.
Sr. Octavio- Ah, aceito. Aceito sim.
Ele se acomodou no sofá, e Helena trouxe, xícaras, açúcar e creme numa
bandeja. Em silencio, tanto eu quanto Helena gritávamos: Pelo amor de Deus,
conte-nos o que o senhor sabe-Não agüentamos esperar mais um minuto sequer!
Finalmente Octavio Abagnal sacou o caderno de notas. Abriu-o, folheou as
paginas e disse:
Sr. Octavio- Muito bem, aqui estamos. Sra. Helena Archer, o que pode me
dizer a respeito de Juan Fleming?
Helena- Juan Fleming?
Sr. Octavio- Isso mesmo. Era um rapaz com quem a senhora estava naquela
noite. Quando seu pai a encontrou e a trouxe para casa. Tive a oportunidade de
estudar os relatórios policiais sobre o caso, e esse tal de Juan Fleming tem um
histórico interessante, se a senhora me compreender.
Helena- Não tive mais contato com ele depois daquele dia.
Sr. Octavio- Ele passou a vida toda se metendo em confusões. E o pai não
era nem um pouco diferente. Anthony Fleming tinha uma organização criminosa
bastante significativa naquela época.
Helena- Meu Deus! (espantada) Eu não tinha a menor idéia. Quer dizer, eu
sabia que Juan era meio bad boy, mas não tinha a menor idéia do tipo de
atividades em que o pai estava envolvido. Ele ainda está vivo, o pai?
Sr. Octavio- Não. Levou um tiro em 1991. Alguns aspirantes a bandidos o
mataram durante uma negociação que deu errado.
Helena- O senhor acha que Juan teve alguma coisa a ver com o desaparecimento
da minha família?
Sr. Octavio- Eu realmente nãos sei. Mas ele teria motivos para estar com
raiva. Seu pai a arrastara de um encontro com ele. Isso deve ter sido
humilhante, não só para você como para ele também. E se ele de fato teve alguma
coisa a ver com o desaparecimento dos seus pais, tinha um pai com meios de
ajudá-lo a encobrir os seus rastros.
Eduardo- Mas a policia certamente investigou essa possibilidade na
época. O senhor não deve ser a primeira pessoa a quem ocorreu.
Sr. Octavio- O senhor tem toda razão. A policia investigou essa
possibilidade. Mas jamais descobriu nada de concreto. Havia apenas algumas
suspeitas.
Ficamos em silencio por um momento. Então Helena disse:
Helena- Ele tinha uma faca. No carro, aquela noite. Ele a estava exibindo
para mim. Eu me lembro de tê-la segurado...
Sua voz começou a sumir e seus olhos rolaram dentro das pálpebras.
Helena- Estou ficando tonta.
Eu rapidamente passei o braço pelos seus ombros.
Eduardo- Quer que eu pegue alguma coisa para você?
Helena- Eu só... Eu só preciso ir ao banheiro.
Observei, preocupado, enquanto ela subia as escadas.
Octavio Abagnal também observava e, quando ouvia a porta do banheiro
fechar, disse bem baixinho:
Sr. Octavio- Esse Juan Fleming, o pai dele ganhou muito dinheiro com
atividades ilegais. Se ele de alguma forma se sentiu responsável pelo que o
filho fez, teria sido financeiramente possível para ele deixar o dinheiro para
ajudar a tia de sua mulher a mandá-la para a faculdade.
Eduardo- O senhor viu a carta. Tereza a mostrou ao senhor.
Sr. Octavio- Sim. Na verdade, ela me deu a carta e os envelopes. Imagino
que ainda não tenha contado a sua mulher.
Eduardo- Ainda não. Mas acho que Tereza está pronta para contar. Talvez
valha a pena irmos visitá-la esta noite.
Sr. Octavio- É uma boa...
Dentro do paletó, o telefone de Abagnal tocou.
Sr. Octavio- Algum relatório sobre o jantar, sem duvida.
Brincou, sacando o telefone. Mas limpou a testa ao ver o numero, atirou
o aparelho de volta no bolso e disse:
Sr. Octavio- Podem deixar um recado.
Helena já descia as escadas.
Sr. Octavio- Sra. Archer, está se sentindo bem?
Ela se se sentou novamente e ele limpou a garganta:
Sr. Octavio- Tem certeza? Porque eu gostaria de trazer outra questão à
tona.
Helena- Me sinto melhor. Pode seguir em frente, por favor.
Sr. Octavio- Primeiramente nós averiguaremos as questões por partes.
Primeiro tentaremos descobrir o que aconteceu com a sua família naquela noite,
e depois tentaremos descobrir quem é a tal mulher que ligou para cá. Estamos
caminhando muito bem.
SEGUNDA DESCOBERTA
Sr. Octavio- Bem, como à senhora não pôde me fornecer uma foto de seu
pai, eu saí a procura de uma, e fui buscar junto ao Departamento de Registro de
Veículos. Lá, não puderam me ajudar muito.
Helena- Não tinha uma foto dele?
Sr. Octavio- O problema é que não há registro de seu pai jamais ter tido
carteira de habilitação.
Helena- O que o senhor quer dizer com isso?
Sr. Octavio- Não há registro dela, Sra. Helena Archer. No que diz
respeito ao DRV seu pai nunca existiu.
Helena- As pessoas desaparecem de arquivos de computador o tempo todo.
Octavio Abagnal assentiu com a cabeça, muito afável.
Sr. Octavio- O fato de Jorge Bigge não aparecer nos arquivos do DRV não
é, por si só, particularmente conclusivo. Mas eu verifiquei os registros
antigos de seu numero do seguro social e também não encontrei nada ali. É
difícil encontrar qualquer registro de seu pai em algum lugar, Sra. Archer. Não
temos foto dele. E não há registro dele na Receita Federal.
Helena- O que o senhor está dizendo? Está querendo dizer que ele era um
espião ou coisa parecida? Alguma espécie de agente secreto?
Sr. Octavio- Bem, não necessariamente. Nada de tão exótico assim. (Ele
tomou um gole de café) Será que seu pai estaria vivendo sob um nome que não era
o dele? Estaria fugindo de um passado duvidoso? Um passado criminoso, talvez?
Helena- Nós não sabemos de nada, não é mesmo?
Octavio Abagnal reclinou-se nas almofadas do encosto do sofá.
Sr. Octavio- O que sabemos é que apenas dois dias as perguntas sem
respostas que existiam neste caso aumentaram exponencialmente. Eu quero
investigar melhor esse tal de Juan Fleming. O que acha disso, Sra. Archer? Será
que esse rapaz teria sido capaz de fazer mal a sua família?
Ela pensou nisso por um momento.
Helena- Depois de tanto tempo, acho que tenho de considerar qualquer
possibilidade.
Sr. Octavio- Sim, é bom manter a mente aberta. Muito obrigado pelo café.
Antes de sair, Octavio devolveu a caixa de sapatos com as lembranças de
Helena. Ela fechou a porta quando ele saiu, virou-se para mim e disse:
Helena- Quem era o meu pai? Quem diabos era o meu pai?
A MISTERIOSA MORTE DE TEREZA
Helena passou o jantar inteiro com a cabeça longe. Mas não ficaria assim
depois de descobrir, apenas uma hora antes, que o homem que conhecera a vida
toda como Jorge Bigge talvez não fosse Jorge Bigge no fim das contas.
Eduardo- Acho que deveríamos ir ver Tereza esta noite. Há tanta
coisa para conversamos. Você deveria contar a ela o que o Sr. Octavio nos
contou.
Julia- É mesmo. Vamos visitar tia Tereza.
Helena- Eu liguei mais cedo. Deixei um recado. Deve ter saído para fazer
alguma coisa. Ela vai nos ligar quando receber o recado.
Olhei para o relógio. Eram quase sete horas.
Eduardo- Por que não damos uma volte de carro? Vamos em direção a casa
dela; talvez já esteja lá até a gente chegar. Pode ser que ela queira
compartilhar mais alguma coisa com você.
Helena- O que quer dizer com talvez ela queira compartilhar algumas
coisas comigo?
Minha boca ficou seca.
Eduardo- Muito bem. Julia, sua mãe e eu precisamos de um pouco de
privacidade.
Julia- Eu não terminei o meu jantar.
Eduardo- Leve o seu prato e vá assistir a TV.
Ela pegou o prato e deixou o aposento com uma expressão azeda no rosto.
Para Helena, eu disse:
Eduardo- Antes de receber aqueles últimos resultados de exame, Tereza
achou que estava morrendo.
Helena se manteve completamente intacta.
Helena- Você sabia?
Eduardo- Por favor. Deixe-me pelo menos contar. Você pode ficar zangada
depois.
E assim eu contei a Helena. Tudo. Sobre o bilhete anônimo, sobre o
dinheiro, sobre como a ajudara na faculdade. Sobre como Tereza guardara esse
segredo por todos esses anos.
Quando terminei, ela parecia entorpecida. Disse algo que eu não
costumava ouvir com freqüência vindo dela.
Helena- Acho que quero um drinque.
Peguei uma garrafa de uísque de uma prateleira bem alta da despensa e
lhe servi uma pequena dose. Ela virou de uma só vez.
Helena- Muito bem. Vamos ver Tereza.
JULIA NÃO ESTAVA tagarela como de costume no caminho. Acho que captou a
tensão no carro e decidiu, sabiamente, ficar
quietinha.
Quando deixamos a estrada principal, entre Mil Ford e Derby, e descemos
a Rua de Tereza, Helena apontou:
Helena- O carro dela está em casa.
Chegamos a porta, eu bati. Após alguns segundos, bati de novo, só que
mais forte.
Helena- Talvez ela esteja nos fundos, trabalhando no jardim.
Assim, demos a volta até os fundos da casa com Julia, como de costume,
correndo na frente. Antes de dobrarmos a esquina ela já voltava, anunciando:
Julia- Não está lá.
Helena bateu a porta dos fundos, que dava direto na cozinha. Ninguém
respondeu.
Helena- Que coisa mais estranha.
Eu me juntei a Helena no degrau e espiei pela portinhola. Achei ter
visto alguma coisa no chão da cozinha, cobrindo o piso.
Uma pessoa.
Botei a mão na maçaneta, girei-a lentamente e empurrei para ver se
estava trancada. Não estava.
Entrei, com Helena olhando por cima do meu ombro.
Tia Tereza encontrava-se no chão da cozinha, com o rosto virado para o
chão, a cabeça num ângulo bizarro, um dos braços estendidos a frente, o outro
jogado para trás.
Helena- Ah, meu Deus. Ela teve um AVC ou algo assim.
Eu não era formado em medicina, mas achei que havia sangue demais no
chão para aquilo ser um AVC.
QUANDO HELENA ouviu a nossa filha chegar correndo atrás de nós e se
preparar para entrar na cozinha, ela se virou, bloqueou-lhe a entrada e começou
a desviá-la de volta para o jardim da frente.
Julia- O que aconteceu? Tia Tereza?
Eu me ajoelhei ao lado da tia de Helena e toquei as suas costas com
hesitação. Estavam muito frias.
Eduardo- Tereza.
Havia tanto sangue debaixo de suas costas que eu não quis virá-la. Eu me
ajoelhei ainda mais próximo ao chão para ver o seu rosto. Ver aqueles olhos
abertos e imóveis fitarem o vazio a frente me deu arrepios.
Fiquei de pé. Havia vozes dentro de minha cabeça dizendo que não tocasse
em nada. Peguei o celular e dei o telefonema.
Eduardo- Sim, vou esperar aqui.
Confirmei a telefonista da Emergência.
Eduardo- Não vou a lugar nenhum.
Mas deixei a casa pela porta dos fundos e caminhei até a frente onde
encontrei Helena sentada, com Julia no colo, no banco da frente de nosso carro.
Helena olhou para mim, seus olhos me enviaram uma pergunta e eu fiz que sim com
a cabeça muito lentamente.
Helena- O que foi? Você acha que foi um ataque cardíaco?
Eduardo- Não. Não foi um ataque cardíaco.
A policia concordou.
Devem ter parecido uns dez carros no intervalo de uma hora, incluindo
dez radiopatrulhas, uma ambulância e uns dois furgões de TV. Tereza fora esfaqueada.
Alguém. Alguém o fizera com uma das suas próprias facas de cozinha.
Um dos detetives tinha um monte de perguntas para me fazer. Por que
vocês vieram até aqui? Para visitá-la, respondi. Será que eu teria alguma idéia
de quem poderia ter feito isso? Perguntou.
Eduardo- Talvez esteja relacionado com algo que aconteceu com minha
mulher.
Contei ao detetive tudo, na medida do possível, da historia de Helena.
Ele me liberou e sai em busca de Helena. Encontrei-a onde estava anteriormente,
na frente do carro, com Julia no colo. A me ver, Julia perguntou:
Julia- A tia Tereza morreu papai?
Eduardo- Morreu meu amor.
Os lábios de Julia começaram a tremer. Helena falou com tanta
tranqüilidade que pude perceber que ela fazia um esforço enorme para se
controlar.
Helena- Você poderia ter me contado.
Eduardo- O quê?
Helena- Você poderia ter me contado o que sabia. O que Tereza lhe
contou. (ela fez uma pausa) E aí nada disso teria acontecido.
Eduardo- Lena, eu não vejo como... Quer dizer não há como saber...
Helena- É verdade. Não há como saber. Mas eu sei de uma coisa. Se você
tivesse me contado tudo mais cedo o que Tereza lhe contou, eu teria vindo aqui
conversar com ela e, se eu tivesse feito isso, talvez tivéssemos descoberto
alguma coisa antes de alguém ter a oportunidade de fazer isso.
Eduardo- Lena, eu realmente não...
Helena- O que mais você deixou de me contar, Eduardo? Quais outras
coisas você está escondendo porque acha que eu não vou ser capaz de agüentar?
Julia começou a chorar e enterrou o rosto no peito da mãe.
Eduardo- Nada.
Mas havia uma coisa. Algo que eu acabara de notar. Eu havia sido levado
de volta a cozinha pelo investigador, que me pedira para descrever todos os
meus movimentos, onde eu havia ficado de pé, o que eu tinha feito, o que eu
havia tocado. Quando me virei para sair, olhei, por acaso, para o pequeno
quadro de avisos que ficava ao lado do telefone. Lá estava a foto de Julia com
o Pateta.
O que era mesmo que Tereza dissera ao telefone? Depois que Octavio
Abgnal fora a sua casa?
Eu disse algo como “se você se lembrar de mais alguma coisa não deixe de
ligar para ele”.
E Tereza tinha dito: “Ele me deu seu cartão. Está preso no quadro de
avisos, ao lado do telefone, bem pertinho daquela foto de Julia com o Pateta.”
Não havia nenhum cartão no quadro agora.
-NÃO ME DIGA. Ora, aquela era uma evolução e tanto.
-É verdade.
Confirmou a filha.
-Mas que bela coincidência. (insistiu ela zombeteira) Ainda mais
considerando que você está por aí.
-Pois é.
-Estava pedindo, sabe.
-Acho que isso significa que vamos ter de esperar mais alguns dias antes
da próxima parte.
-É mesmo? (perguntou a mãe, subitamente impaciente)
-Vai haver um enterro aqui amanhã (disse a filha) Assim sendo, a minha
irmã vai estar bastante ocupada tomando todas as providencias, não é mesmo?
Então, eu acho melhor a gente esperar isso terminar.
-Compreendo o que você quer dizer. Mas há algo que eu gostaria que você
fizesse por mim.
-O quê? (perguntou a filha).
-Não a chame de irmã. (ela falou com muita firmeza)
-Desculpe. É só que... Bem, sabe como é, ela é...
-Eu não quero saber.
-Está certo, mãe. Não farei outra vez.
O DESAPARECIMENTO DE SR. OCTAVIO ABAGNAL E A TERCEIRA DESCOBERTA
NÃO HAVIA MUITA gente para quem ligar. Vilma Bigge, mãe de Helena, era a
única irmã de Tereza. Os pais das duas, é claro, tinham falecido havia muitos
anos. E Tereza não mantivera amizade com nenhuma das pessoas do escritório onde
trabalhara antes de se aposentar.
A morte de Tereza Bergman saiu no noticiário. A policia dizia não ter a
menor idéia de quem fizera aquilo, nenhuma idéia da motivação do crime. Não
havia sinal de entrada forçada. Nenhum sinal de luta. Ao que parecia, o
assassino de Tereza atacara rapidamente.
Quem havia feito aquilo? Por quê?
E onde estava o cartão de visitas de Octavio Abagnal? Será que Tereza
não prendera no quadro de avisos como me dissera?
Na manhã seguinte, consumido por essas e outras perguntas, encontrei o
cartão que Abagnal havia deixado conosco e liguei para o seu celular.
A operadora imediatamente entrou na linha e me convidou a deixar uma
mensagem, sugerindo que o telefone de Abagnal estava desligado.
Assim, tentei o telefone de sua casa. Uma mulher atendeu.
Eduardo- O Sr. Abagnal está, por favor?
Mulher- Quem está falando?
Eduardo- Sra. Abagnal? Aqui é Eduardo Archer.
Mulher- Sr. Eduardo Archer! (exclamou ela parecendo um pouco
descontrolada) Eu ia justamente lhe telefonar! O senhor tem noticias dele?
Eduardo- Como?
Mulher- De Octavio? O senhor sabe onde ele está?
Eduardo- Não, não sei.
Mulher- Ele não é disso. Algumas vezes tem de passar a noite
trabalhando, em vigília, mas sempre entra em contato comigo.
Tive uma sensação ruim na boca do estomago.
Eduardo- Ele esteve na nossa casa ontem à tarde. Veio nos dar um
relatório das suas ultimas descobertas.
Mulher- Eu sei. Liguei para ele logo depois que saiu de sua casa. Foi a
ultima vez que falei com ele.
Eduardo- Sra. Abagnal, eu não quero assustá-la, e tenho certeza de que
há uma explicação perfeitamente plausível para o seu marido não ter entrado em
contato com a senhora, mas acho que deveria chamar a policia.
Mulher- Oh.
Eduardo- Pode me telefonar se acontecer algo. Anote o telefone da minha
casa, caso à senhora já não o tenha, e o meu celular também.
Depois que desliguei. Helena entrou na cozinha. Estava a caminho da funerária.
Eduardo- Lena.
Ela não respondeu. Passara a me ignorar. Considerava-me, ao menos em
parte, responsável pela morte de Tereza.
Eu contei sobre o desaparecimento de Octavio Abagnal. Ela pareceu tombar
levemente para um lado, como se um pouco do ar tivesse sido sugado de seu
corpo.
Helena- O que foi que ela disse?
Eu lhe contei. Ela teria de ir para a funerária tomar umas providencias.
SAÍ DA COZINHA e meus olhos caíram sobre as duas caixas de sapatos que
Abagnal nos devolvera no dia anterior e que ficara na mesa de centro. Peguei as
duas e as levei de volta para a cozinha, colocando-as sobre a mesa. Comecei
atirar um objeto de cada vez.
Jorge Bigge não era nada sentimental, mas guardava uma coisinha aqui e
ali, como recortes de jornal. Havia aquele recorte do time de basquete do qual
Kelly fazia parte, por exemplo. Mas, se tivesse qualquer coisa a ver com pesca,
era ainda mais provável que Jorge guardasse. Helena havia me contado que ele
lia a seção de esportes dos jornais em busca de noticias sobre torneios de
pesca; e as de viagens, em busca de artigos sobre lagos longínquos onde havia
tantos peixes que praticamente pulavam nos barcos.
Na caixa havia mais ou menos meia dúzia de recortes do gênero. Desdobrei
cada folha amarelada, com todo o cuidado para não rasgar, para ver do que se
tratava.
Algo sobre uma delas me chamou a atenção. Fora tirada das paginas do
Hart Ford Courant. Era um artigo sobre pesca com iscas artificiais no rio
Housatonic. Quem quer que tenha feito o recorte do jornal acredito que Jorge
havia sido muito cuidadoso conduzindo a tesoura com todo o cuidado pelas
margens entre a primeira coluna desse texto e a ultima de outro que havia sido
descartado. A noticia fora colocado sobre anúncios ou outros artigos, que
haviam sido cortados, no canto inferior esquerdo. Por isso me causou estranheza
que um artigo de cunho noticioso, sem relação alguma com pesca com iscas
artificiais, mas enfiado na perna inferior direita do mesmo texto, tivesse
permanecido. Tinha apenas uns cinco centímetros e dizia:
A policia continua sem pista sobre o atropelamento de Carol Menezes, de
27 anos, de Sharon, cujo corpo foi encontrado abandonado numa vala da rodovia
U. S. 7 na manhã de sábado. Investigadores acreditam que Carol Menezes
estivesse caminhando ao lado da estrada, próximo a ponte Corwall, quando foi
atingida por um carro que seguia para o sul, tarde da noite na sexta-feira. A
policia acredita que o corpo da mulher foi transportado para a vala após ter
sido atropelado.
Por que, me perguntei todo o resto fora tão meticulosamente recortado em
torno do artigo e aquela pequena noticia havia sido mantida intacta?
A data no alto da pagina dizia 15 de novembro de 1982.
APÓS O SERVIÇO FÚNEBRE, o diretor da funerária levou Helena, Julia e eu
em seu Cadilac até o porto de Mil Ford, onde mantinha um pequeno barco
ancorado. Leandro Carruthers e sua mulher, Milena, nos seguiram, tendo
oferecido carona para a chefa de Helena, Pâmela em seu carro; os três se
juntaram a nossa família no barco.
Ao deixarmos o porto, rumamos para o estreito de Long. Island, seguindo
cerca de dois quilômetros, passando diante das casas de praia da East Broadway.
O diretor da funerária havia trazido a urna com as cinzas de Tereza, que
deveriam ser espalhadas no estreito, conforme desejo da falecida.
Não houve muita conversa a bordo. Milena abraçou Helena e disse:
Milena- Tereza não podia ter tido um dia mais bonito para que seu ultimo
desejo fosse cumprido.
O barco foi perdendo velocidade até parar e o diretor da funerária
se aproximou:
- Sr. Eduardo Archer? Acho que estamos prontos.
Ficamos bem próximos no deque, e a urna foi colocada formalmente nas
mãos de Helena. Segurando-a com firmeza, ela caminhou até a lateral do barco a
abriu enquanto Julia e eu, Leandro, Milena e Pâmela observávamos. As cinzas
caíram e pousaram sobre a água, dissolveram-se e se dispersaram. Julia trouxe
uma rosa – idéia dela mesma e a atirou sobre a água.
Julia- Adeus, tia Tereza. E muito obrigada pelo livro.
Helena comentara naquela manhã que queria dizer algumas palavras, mas,
quando chegou o momento, ela não teve forças. E eu não consegui encontrar
palavras que fossem mais significativas ou sentidas do que o simples adeus de
Julia.
UM NOVO DETETIVE
DE VOLTA AO PORTO, vi uma senhora negra baixinha, vestindo calça jeans
tão redonda quanto baixinha, mas demonstrou graça e agilidade imensas ao se
agarrar ao barco a ajudar a prendê-lo. Dirigindo-se a mim, falou:
Madalena- Eduardo Archer?
Respondi que sim.
Ela exibiu um distintivo policial que a identificava como Madalena Wedmore,
detetive de Mil Ford.
Madalena- Eu gostaria de lhe falar um instante. Caminhamos lentamente ao
longo do cais.
Eduardo- E sobre Tereza? Alguém foi preso?
Madalena- Não, senhor, ninguém.
Respondeu ela. Falava com rapidez de uma metralhadora, as palavras me
atingiam como balas.
Madalena- Estou aqui para lhe perguntar sobre Octavio Abagnal.
Meu cérebro pareceu dar uma reviravolta.
Eduardo- Pois não?
Madalena- Ele desapareceu. Já faz dois dias.
Eduardo- Eu conversei com a mulher dele na manhã depois que ele foi a
nossa casa.
Madalena- E o senhor não o viu desde então?
Eduardo- Não.
Madalena- Teve noticias dele?
Eduardo- Não. Mas não posso deixar de achar que tenha algo a ver com o
assassinato da tia de minha mulher. Ele esteve na casa dela não muito antes de
sua morte. Tinha deixado um cartão de visitas do telefone. Mas não o vi ali
depois que ela morreu.
Madalena- Ele estava trabalhando para o senhor?
Eduardo- Estava.
Madalena- O que o senhor acha?
Sobre o quê? Respondi.
Madalena- Sobre o que aconteceu com ele.
Um lampejo de impaciência passou por sua voz. Olhei para o céu sem uma
única nuvem.
Eduardo- Odeio permitir que a minha mente vagueie nessa direção. Mas
acho que ele está morto. Acho, até mesmo, que é possível que tenha recebido um
telefonema do seu assassinato enquanto estava em nossa casa.
Madalena- A que horas foi isso?
Eduardo- Por volta das cinco da tarde.
Madalena- Entramos em contato com a operadora do celular dele, pedimos
que checassem todos os telefonemas dados e recebidos. Houve uma ligação de um
telefone publico em Derby às cinco da tarde.
Eduardo- A tia de minha mulher vivia naquela região.
Madalena- A segui, outra ligação, de outro telefone publico, aqui mesmo
de Mil Ford, uma hora mais tarde.
Madalena inclinou o corpo na minha direção, num gesto agressivo.
Madalena- Quem iria querer matar a tia de sua mulher e Abagnal?
Eduardo- Alguém que está tentando se certificar de que o passado fique
no passado.
A CHEGADA EM CASA E A INVESTIGAÇÃO
HELENA SÓ QUERIA ir pra casa, e foi para onde a levei. Depois de Julia
subir para trocar de roupa, Helena me disse:
Helena- Sinto muito. Eu não o culpo. Por Tereza. Eu estava errada em
dizer aquilo.
Eduardo- Tudo bem. Eu deveria ter lhe contado tudo. Mais cedo.
Ela olhou para o chão.
Eduardo- Posso lhe fazer uma pergunta? (ela fez que sim) Por que você
acha que o seu pai guardaria um recorte de jornal sobre um atropelamento?
Helena- Do que é que você está falando?
As caixas de sapatos ainda estavam sobre a mesa da cozinha; o recorte
encontrava-se por cima. Eu lhe passei o artigo e ela o leu.
Helena- Não acredito que nunca notei isso antes.
Eduardo- Você achou que seu pai tinha guardado por causa do artigo sobre
pesca com iscas artificiais.
Helena já havia me devolvido o jornal.
Helena- Todas as vezes que vasculho essas caixas, fico achando que vou
encontrar alguma coisa que nunca tinha notado. Alguma pista minúscula. Aquela
peça do quebra-cabeça que vão me ajudar a colocar todas as outras no lugar. E
se for isso daí? E se a peça que faltava for essa?
Eduardo- Você acha que é?
Helena- (balançando a cabeça lentamente) Não.
Eu também não achava que fosse.
Mas isso não me impediu de subir e sentar a frente do computador
para pesquisar um atropelamento que ocorreu há 26 anos atrás.
Não encontrei nada.
Então comecei a procurar por toda a Carol Meneses naquela parte de
Connecticut. Usando listas telefônicas on-line, anotei nomes e telefones e
comecei a ligar. Quando alguém atendia, eu me identificava como Eduardo Archer
e dizia que estava em busca de informações sobre a morte de Carol Meneses de 27
anos. Tentei uma, duas e na terceira pessoa que contatei disse:
Marcelo Meneses- Oh, Deus, Carol? Já faz tanto tempo.
A final eu havia encontrado Marcelo Meneses, seu irmão, de agora 65
anos.
Marcelo- Por que alguém haveria de querer saber a respeito disso depois
de tantos anos? – Perguntou ele, uma voz rouca e cansada.
Eduardo- Com toda a sinceridade, Sr. Marcelo, eu nem sei direito o que
lhe dizer. A família de minha mulher teve alguns problemas alguns meses após o
acidente de sua irmã, coisas que ainda estamos tentando compreender, e um
artigo sobre Carol foi encontrado em meio a algumas lembranças de família.
Marcelo- Que coisa mais estranha, não?
Eduardo- Sim, bastante. Se o senhor não se importar em responder algumas
perguntas, talvez ajude a esclarecer alguns pontos ou pelo menos a eliminar
qualquer ligação entre a tragédia ocorrida na sua família e na nossa.
Marcelo- Eu suponho que sim.
Eduardo- Em primeiro lugar, descobriram quem atropelou sua irmã?
Marcelo- Nunca. A policia nunca descobriu nada.
Eduardo- Tinha alguma pista?
Marcelo- Bem, no inicio, acharam que tinha sido um atropelamento comum,
em que o culpado fugiu sem prestar socorro. Talvez um bêbado ou um mau
motorista. Mas, depois, fizeram a autopsia e descobriram uma coisa curiosa.
Eduardo- Como assim, curiosa?
Marcelo- O que nos disseram foi que muito do que aconteceram com Carol,
os estragos feitos pelo carro, ocorreu depois que ela já estava morta.
Eduardo- Sua irmã já estava morta quando foi atropelada?
Marcelo- É o que acabo de dizer. E... é muito difícil falar sobre isso,
mesmo depois de tanto tempo. Eu não gosto de falar sobre coisas que possam dar
uma idéia negativa de Carol, mesmo depois de tantos anos, se é que me entende.
Eduardo- É claro.
Marcelo- Mas eles disseram que ela talvez tenha estado com alguém antes
de ser deixada naquela vala. Minha irmã era um pouco promiscua, e dizem que é
bem provável que tenha estado com alguém naquela noite. E eu sempre me
perguntei se foi a mesma pessoa.
Eu não sabia o que dizer.
Marcelo- Carol e eu éramos muito próximos. Até hoje eu sinto raiva e
queria muito que encontrassem o cretino que fez aquilo com ela.
12.09.1983
DEPOIS DE TERMINAR a conversa com Marcelo Meneses, fiquei ali sentado a
minha mesa de trabalho por algum tempo, olhando para o nada, tentando decifrar
se aquilo significava alguma coisa.
Então, como tantas vezes faço, dei uma olhada no computador para ver se
tínhamos algumas mensagens. Mas havia um e-mail, de um endereço do Hotmail, que
não passava de números -12091983-, com as palavras “Não vai levar muito mais
tempo” na linha de assunto. Cliquei na mensagem. Era curta. Dizia: “Querida
Helena: Conforme nossa conversa anteriormente, sua família de fato a perdoa.
Mas eles não podem deixar de se perguntar. Por quê?”
Devo tê-la lido umas cinco vezes, então voltei para a linha de assunto.
O que não levaria muito mais tempo?
Eduardo- Como foi que alguém conseguiu o nosso e-mail?
Perguntei para Helena que estava sentada na frente do computador,
olhando fixamente para a tela.
Helena- Meu pai. Quando deixou o chapéu. Ele pode ter subido, entrado no
computador e descoberto o nosso e-mail.
Eduardo- (calma) Lena, ainda não sabemos quem deixou o chapéu.
Lembrei de minha breve suspeita de que a própria Helena pudesse ter
colocado o chapéu sobre a mesa. E, por um instante, não mais do que isso,
pensei em como seria fácil conseguir um endereço do Hotmail e enviar um e-mail
para si próprio.
Helena- É mesma pessoa. A pessoa que me telefonou é a mesma que enviou
este e-mail e a mesma que entrou na nossa casa e deixou o chapéu.
Aquilo fazia sentido para mim. Agora pensava comigo: quem seria essa
pessoa? Seria a mesma que assassinara Tereza? Seria a mulher que eu havia visto
vigiando a nossa casa?
Helena- E ele continuava falando em perdão. Que eles me perdoam. Por que
ele fez isso? E o que quer dizer com a não vai levar muito tempo?
Eduardo- E o endereço? Esse monte de números embaralhados.
Helena- Isso não é um monte de números embaralhados. É uma data: 12 de
setembro de 1983. A noite em que a minha família desapareceu.
NÓS NÃO ESTAMOS seguros. Anunciou Helena aquela noite. Helena já estava
enfiada debaixo das cobertas e eu estava na janela para ter certeza de que tudo
estava bem mesmo.
Helena- Você não está seguro. Eu não estou segura. Julia não está
segura.
Eu sabia disso muito bem.
Helena- Minha tia foi assassinada. O homem que eu... que nós contratamos
para descobrir a respeito da minha família desapareceu. Alguém esteve na nossa
casa, Eduardo. Se não foi o meu pai, foi alguém. Alguém que deixou aquele
chapéu, que se sentou na frente do nosso computador.
Eu não sabia o que dizer.
Helena- Acha que o Sr. Octavio descobriu algo sobre Juan Fleming?
Eduardo- Olhe, tivemos um dia longo...
Helena- O que você acha que está acontecendo?
Eduardo- Eu não sei. Não foi a minha maldita família que sumiu da face
da terra.
Isso deixou Helena tão atordoada que se calou. Eu mesmo fiquei atordoado
com minha reação.
Eduardo- Sinto muito. Eu não quis dizer isso. É que esse fato está
pesando muito sobre todos nós.
Helena- Os meus problemas estão pesando sobre você.
Eduardo- Não é isso.
Ela tirou as cobertas de cima do corpo e se levantou.
Helena- Eu vou dormi com Julia. Quero ter certeza de que ela está bem.
Alguém tem de fazer alguma coisa.
E assim saiu.
FINALMENTE UMA RESPOSTA
NO DIA SEGUINTE, mais ou menos no meio da tarde, eu vinha caminhando
pelo corredor e passando pela secretaria quando uma das secretarias apareceu na
porta, me viu e parou.
Secretaria- Eu ia justamente procurá-lo. Telefonema para você. Acho que
é sua mulher.
Eduardo- Está bem.
Secretaria- Pode atender na secretaria.
Eu a segui e ela apontou o telefone sobre a mesa.
Peguei o fone e apertei o botão:
Eduardo- Helena?
Helena- Eduardo, eu...
Eduardo- Ouça, eu ia mesmo telefonar. Sinto muito sobre ontem à noite.
Sobre o que eu disse.
Helena- Eduardo, algo aconteceu.
Disse Helena, a voz muito baixa, quase sem fôlego.
Helena- Eu sei onde eles estão.
-ÀS VEZES, quando você não liga quando eu estou esperando – disse ela -,
acho que sou eu quem está sendo lavada a loucura.
-Desculpe – disse a filha. – Mas tenho boas noticias. Acho que está em
marcha.
-Então você fez a entrega?
-Fiz.
-Então, você precisa ficar um pouco mais para ver o que vai acontecer
agora.
-Ah, eu sei – concordou a filha. – Não saiu mais nada sobre Tereza. Acho
que isso quer dizer que não descobriram nada.
-Bem, temos de agradecer por toda sorte que tivemos, não é mesmo?
-E ouvi alguma coisa no noticiário sobre o detetive desaparecido. O tal
que a minha... você sabe... contratou.
-Você acha que vão encontrá-lo? – perguntou ela.
-Difícil dizer.
-Bem, não podemos nos preocupar com isso – disse ela. – Você me parece
nervosa.
-Talvez esteja.
-Esta é a parte difícil, a parte arriscada. Mas, quando você juntar
tudo, vai valer à pena. E, quando chegar o momento, você vai poder volta e me
buscar.
-Eu sei. Mas ele não vai ficar se perguntando onde você está, por que
você não foi mais vê-lo?
-É, até parece que seu pai presta atenção em mim... – reclamou ela.
-Você acha que ele nos amou algum dia? – perguntou a filha.
-A única pessoa que ele sempre amou foi ela – afirmou a mulher, sem
fazer a menor questão de esconder a sua amargura.
-Eu sei.
-O que você quer que eu prepare para você, para quando chegar em casa?
-Um bolo de cenoura.
-É claro. É o mínimo que uma mãe pode fazer.
UM ENVELOPE
TELEFONEI PARA a policia e deixei um recado para a detetive Madalena
Wedmore, que me dera o seu cartão. Perguntei se ela poderia se encontrar comigo
e Helena em nossa casa. Eu disse que era urgente. Deixei a escola sem
explicar por que, mas creio que já estavam se acostumando com meu comportamento
excêntrico.
Em casa, Helena estava de pé na porta de entrada com um enorme envelope
na mão.
Eu entrei e ela me estendeu o envelope. Havia uma palavra: “Helena”,
escrita na frente. Nada de selos. Não havia passado pelo correio.
Tirei a folha de papel sem pauta de dentro do envelope. O verso continha
um mapa, toscamente desenhado a lápis: algumas linhas se cruzavam representando
estradas, uma pequena cidade marcada “Otis”. Algo em formato de ovo chamado de
“lago da pedreira” e um X em um dos cantos.
Eu virei a folha e, no instante em que vi a mensagem digitada, notei
algo sobre ela, algo que saltou aos meus olhos e que me perturbou enormemente.
Mas naquele instante segurei a língua e li o que dizia:
Helena: É chegada a hora de você saber onde eles estiveram. Onde,
provavelmente, ainda ESTÃO. Eles estão numa pedreira abandonada, duas horas ao
norte de onde você mora, um pouco alem da fronteira de Connecticut. É como se
fosse um lago, mas não é um lago de verdade, porque é de onde tiveram cascalho
e coisas assim. É muito profundo. Olhe o mapa do outro lado. Bem lá embaixo, no
fundo desse lago, é lá que você encontrará a sua resposta.
Helena- É lá que eles estão. Estão dentro d água. Então... estão mortos.
Reli o bilhete, depois encarei o que lia de um ponto de vista mais
técnico. Fora escrito numa maquina de escrever comum. Não num computador. Não
havia sido impresso.
Eduardo- Onde você achou isso?
Helena- Estava na caixa de correio. Alguém o deixou lá. Não foi o
carteiro quem trouxe. Não tem selo nem nada.
Eduardo- Não. Alguém o colocou lá.
Helena- Temos de ir até lá. Hoje, agora, precisamos descobrir o que tem
lá, o que tem debaixo d água.
Eduardo- A detetive, Madalena, está vindo pra cá. Vamos conversar com
ela a respeito disso. Eles mandarão mergulhadores da policia. Mas há outra
coisa que quero lhe perguntar. É sobre este bilhete. Olhe bem para as letras...
Ouvi um carro parar na frente da nossa casa, olhei pela janela e vi
Madalena subir a rampa de acesso a garagem. Uma sensação de pânico me invadiu.
Eduardo- Meu amor há alguma coisa que você queira me dizer a respeito
deste bilhete? Antes de a policia chegar?
Helena- Do que você está falando?
Eduardo- Você não está vendo nada de esquisito aqui? (apontei para uma
das palavras do bilhete.) Bem aqui, no começo. (Disse, apontando para
“chegada”.) A linha horizontal do “e” estava desbotada, fazendo-o parecer um
“c”.
Helena- Não sei do que você está falando.
Madalena estava subindo a escada, o punho pronto para bater.
Eduardo- Tenho de ir lá em cima, rapidinho. Atenda a porta.
Subi as escadas como um foguete. Ouvi Madalena bater e, a seguir, Helena
abrir a porta. A essa altura, eu estava no pequeno cômodo que uso para corrigir
os deveres dos meus alunos. Minha velha Royal estava sobre a mesa, ao lado do
computador.
Para mim era obvio que o bilhete que Helena estava mostrando para a
detetive fora escrito naquela maquina. O “e” falhado era imediatamente reconhecível.
Eu sabia que não havia aquele bilhete. Aquilo deixava apenas outras duas
possibilidades. Ou o estranho que havia entrado em nossa casa usara a maquina
para escrever aquele bilhete ou a própria Helena o escrevera.
E se Helena tivesse batido aquele bilhete a maquina, e o que teria
acontecido de fato se a informação fosse verdadeira?
Eduardo! – gritou Helena. – A detetive Madalena está aqui!
Eu estava começando a suar. Tinha de haver outra explicação. Alguma
outra pessoa havia usado a nossa maquina de escrever. Dias antes. Planejado
tudo com antecedência. O tal ou a tal pessoa estranha que havia entrado na
nossa casa e deixado o chapéu.
Helena- Eduardo!
Eduardo- Estou indo!
Agi por impulso. Abrir a porta do armário peguei a maquina de escrever e
a coloquei lá dentro, no chão.
Ao descer as escadas, vi que Madalena estava agora com Helena na sala de
estar. O bilhete estava sobre a mesa de centro. Madalena encontrava-se
debruçada sobre ele, lendo.
Helena- A senhora pode conseguir mergulhadores, não pode? Para ir até a
pedreira ver o que tem lá. Eles estão lá. Os corpos estão lá.
Madalena pegou um dos cantos do bilhete entre duas unhas pintadas de
vermelho brilhante e o virou. Ela fitou o mapa.
Madalena- Interessante que tenha sido composto numa maquina de escrever.
Quase ninguém usa maquinas de escrever.
Senti o coração na boca. E então Helena disse uma coisa que eu não pude
acreditar que estava ouvindo.
Helena- Nós temos uma maquina de escrever.
Madalena- Têm?
Helena- Eduardo gosta de usar, não é mesmo, amor? Para bilhetes curtos,
esse tipo de coisa. Ele a tem desde a faculdade.
Madalena- Mostre-me.
Helena- Está lá em cima. Vamos, eu lhe mostro.
Eduardo- Lena, está meio bagunçado lá me cima.
Madalena- Vamos.
Insistiu Madalena, já subindo as escadas.
Helena- É a primeira porta a esquerda.
Madalena desapareceu por dentro.
Madalena- Não a estou vendo.
Helena subiu as escadas antes de mim, entrou no cômodo e disse:
Helena- Costuma está bem aqui. Eduardo, não está sempre bem aqui?
Ela apontava para minha mesa quando entrei.
Eduardo- É... é que estava atravancado a mesa, então eu a enfiei no
armário.
Abrir o armário e me ajoelhei. Madalena espiava lá dentro, por cima do
meu ombro. Eu a levantei e coloquei de volta sobre a mesa.
Madalena- Não a toque.
Ela avisou, tirando o celular de dentro da jaqueta. Helena olhou para
mim com expressão de incredulidade.
Helena- O que você tem? Que diabos está acontecendo?
Eu queria lhe perguntar a mesmíssima coisa.
QUEM ESCREVEU O BILHETE?
MADALENA WEDMORE deu vários telefonemas, a maioria deles da frente da
garagem, onde não podíamos ouvir o que dizia. Isso permitiu que Helena e eu
ficássemos sozinhos na casa para refletirmos sobre os últimos acontecimentos.
Helena perguntou:
Helena- O bilhete... Ele foi escrito na sua maquina de escrever, não
foi?
Eduardo- Foi.
Ela me estudou por um instante.
Helena- Foi você quem escreveu o bilhete? Foi por isso que escondeu a
maquina de escrever?
Eduardo- Lena, eu a escondi porque estava me perguntando se você tinha
escrito o bilhete.
Ela arregalou os olhos com o choque.
Helena- Eu?
Eduardo- Eu só fiz isso para proteger você. Eu não queria que a policia
soubesse.
Helena nada disse por um momento.
Helena- Então, está querendo dizer que eu sempre soube que minha família
estava nessa pedreira?
Eduardo- Eu juro por Deus, Lena, que não sei mais o que pensar. Mas no
instante em que vi aquele bilhete eu soube que tinha saído da minha maquina de
escrever. E sabia que eu não havia escrito. Então sobrava você, a não ser outra
pessoa tenha entrado aqui e usado aquela maquina.
Ela olhou fundo nos meus olhos, assumiu uma expressão muito seria e
perguntou:
Helena- Você acha que eu matei minha família?
Eduardo- Não, não acho.
Helena- Mas a possibilidade já lhe passou pela cabeça, não passou?
Eduardo- Não. Mas tenho me perguntado ultimamente se o estresse de tudo
aquilo pelo qual você passou a fez pensar, ou até mesmo fazer, coisas que não
são... sei lá, completamente racionais.
Alguém bateu na parede que ficava do lado de fora do nosso quarto e a
detetive Madalena entrou.
Madalena- Concordaram. Vamos mandar os mergulhadores.
UM ENCONTRO TRISTE
FICOU MARCADO para a manhã seguinte. Uma equipe de mergulhadores estaria
no local às dez da manhã. Helena providenciou para que uma vizinha pegasse
Julia na escola.
Liguei para a escola, e quem atendeu foi Leandro.
Leandro- O que é desta vez?
Eu disse a ele para onde estávamos indo, que os mergulhadores iam entrar
na pedreira.
Leandro- Meu Deus, sinto muito por vocês dois. Essa historia não vai
acabar nunca.
Fiz uma pausa.
Eduardo- Ei, eu sei que esta vem do nada, mas o nome Carol Meneses
significa alguma coisa para você?
Leandro- Quem?
Eduardo- Ela foi morta alguns meses antes do desaparecimento de Jorge,
Vilma e Kelly. De inicio, parecia um atropelamento em que o motorista não parou
para acudir a vitima, mas parece que não foi bem isso.
Leandro- Não sei do que você está falando. E o que isso poderia
ter a ver com a família de Helena?
Ele quase me pareceu irritado.
Eduardo- Não sei se tem. Você conhecia Jorge. Alguma vez ele mencionou
um acidente ou algo desse tipo?
Leandro- Não. Não que eu me lembre. E tenho quase certeza de que me
lembraria de algo do tipo.
Helena e eu pegamos a estrada logo depois. Copiamos o mapa em uma folha
antes que a policia levara à verdadeira copia. Seguimos para o leste assim que
passamos Otis, subimos até Lee e a auto-estrada de Massachusetts.
Havia dois carros da policia estadual de Massachusetts marcando o desvio
para nós. Abrir a janela e expliquei a um dos policiais quem éramos, e ele disse
que a detetive Madalena estava a nossa espera.
Percorremos o caminho devagar. Não era exatamente uma estrada, apenas um
caminho coberto por cascalho e terra. Subíamos um morro com arvoredos densos
dos dois lados e, depois de uns quatrocentos metros, o solo tornou-se plano e
as arvores deram lugar a uma paisagem que quase nos tirou o fôlego. A uns
quatro carros a nossa frente a terra despencava, abruptamente.
O carro sedã sem marcações que reconheci como sendo de Madalena Wedmore.
Ela estava encostada no pára-lama, conversando com o policial do outro carro.
Ao nos ver, aproximou-se.
Madalena- Não chegue muito perto. É um mergulho e tanto.
Saímos do carro lentamente.
Madalena- Por aqui.
Demos alguns passos, chegando mais próximos da borda, e então conseguimos
ver a água. Era um lago muito pequeno, no fundo de um precipício. A água era
cinzenta e sem vida.
Madalena- O mapa e o bilhete indicam que vamos encontrar alguma coisa.
Os homens de roupa de mergulho caíram de costas na água e desapareceram
de vista.
Um vento fresco soprou sobre o topo do penhasco. Eu me aproximei um
pouco mais de Helena e passei o braço em torno dela. Para minha surpresa e
alivio, ela não me afastou.
Madalena se comunicava todo o momento com os mergulhadores. Passaram-se
alguns minutos e nada. Então duas cabeças emergiram. Os mergulhadores nadaram
até o barco, atiraram os braços por cima da borda em busca de apoio, levantaram
as mascaras e atiraram da boca o equipamento que lhes permitiam respirar
debaixo da água. Disseram alguma coisa para o homem.
Vimos o homem levantar o radio, e Madalena pegou o dela.
Madalena- Encontraram alguma coisa?
Crepitou o radio.
Madalena- O que ê?
Homem- Um carro. Está lá há muito tempo. Metade já coberto pelo o lodo.
Madalena- Tem alguma coisa dentro?
Homem- Eles não têm certeza. Vamos ter de tirá-lo.
Helena- Que tipo de carro? Como é?
Madalena passou a pergunta adiante.
Homem- Parece amarelo. Um carrinho compacto.
Helena- É o carro da minha mãe. Era amarelo. Um Ford Escort. (Helena se
apoiou em mim) São eles. São eles.
Madalena nos pediu que fôssemos da uma volta até que os mergulhadores
resolvessem a questão.
Descemos até a estrada principal, onde encontramos uma lanchonete. Pedi
um café-da-manhã reforçado, embora já fosse meio-dia, com ovos e salsichas. O Maximo
que Helena conseguiu comer foi uma torrada.
Helena- Então, quem quer que tenha escrito aquele bilhete, estava certo
do que falava.
Eduardo- É.
Helena- Mas nem sabemos se há alguém dentro do carro.
Eduardo- Vamos esperar para ver.
Estava tomando o meu café quando Madalena me ligou e disse:
Madalena- Foi mais rápido do que pensávamos. O carro já saiu.
O ESCORT AMARELO já estava na traseira de um reboque quando chegamos ao
local. Helena saltou antes mesmo de eu parar o carro completamente, correndo na
direção do caminhão e gritando:
Helena- É o carro da minha mãe!
Madalena a segurou antes que ela pudesse se aproximar.
Madalena- Você não pode chegar perto. Está indo para o laboratório.
Helena- O que encontraram? Havia alguma coisa dentro?
Madalena- Parecem os retos de duas pessoas, compreenda, após vinte e
cinco anos...
Nem dava para imaginar.
Helena- Duas? Não são três?
Madalena- Ainda é cedo para saber. Temos muito trabalho a frente.
(pausa) Gostaríamos de colher uma amostra de seu DNA.
Helena- Por quê?
Madalena- Se tivermos a felicidade de conseguir recuperar algum DNA
do... do que conseguimos encontrar no carro, podemos comparar com o seu.
Helena olhou para mim, as lagrimas enchendo-lhe os olhos.
Helena- Passei vinte e cinco anos esperando algum tipo de resposta, e
agora que estou prestes a consegui-las, estou apavorada.
Eu a abracei.
Eduardo- Quanto tempo?
Perguntei a Madalena e ela disse:
Madalena- Uns dois dias. É melhor vocês irem para casa. Vou pedir para
alguém passar e pegar a amostra mais tarde.
Voltar para casa seria a única coisa a fazer naquele momento.
DESCONFIANÇA
HORAS MAIS TARDE, Madalena Wedmore apareceu para fazer algumas
perguntas. Havia coisas naquele caso das quais ela não gostava. Aquilo era,
certamente, algo que todos nós tínhamos em comum.
Ela confirmou um fato que eu sabia. O bilhete que nos levara a pedreira
tinha sido escrito na minha maquina. Havia pedido que eu e Helena
comparecêssemos a delegacia para colherem nossas impressões digitais.
Compararam as nossas com aquelas colhidas na maquina. Encontraram algumas de
Helena no corpo da maquina. Mas as teclas, em si, estavam cobertas com as
minhas.
É claro que isso não apoiava a nossa afirmação de que alguém que poderia
ter estado de luvas e não deixado digitais.
Madalena- E por que alguém deveria de fazer isso?
Perguntou ela com os punhos fechados sobre os quadris largos.
Aquela era uma boa pergunta.
Madalena- E quem quer que seja essa pessoa, ela não tentou esconder a
maquina de escrever. Foi seu marido quem fez isso.
Eduardo- Não deveríamos ter um advogado presente quando a senhora fizer
esse tipo de pergunta?
Madalena passou a língua pelo interior da bochecha.
Madalena- Creio que vocês tenham de se perguntar se precisam de um.
Helena- As vitimas aqui somos nós. Minha tia foi assassinada;
encontramos o carro da minha mãe no lago. E a senhora está falando conosco como
se fôssemos criminosos. (Ela balançou a cabeça indignada) É como se alguém
tivesse planejado isso tudo para parecer que estou ficando maluca, ou algo
assim. A senhora não percebe? É como se alguém quisesse que a senhora achasse
que eu talvez esteja perdendo a razão.
Madalena- Sra. Helena Archer; já lhe passou pela cabeça conversar com
profissionais? Sobre essa conspiração que parece estar girando a sua volta?
Helena- Eu estou me consultando com uma psi... (Helena se deteve.)
Madalena sorriu.
Madalena- Ora, mas que grande surpresa!
Eduardo- Acho que, por enquanto, basta para nós.
Madalena- Tenho certeza de que nos falaremos outra vez.
É ENCONTRADO OCTAVIO ABAGNAL
E MUITO EM BREVE, alias. Assim que descobriram o corpo de Octavio
Abagnal.
Eu estava escutando radio na nossa sala de costura/escritório, sem
prestar muita atenção, na verdade, quando as palavras “detetive particular”
saíram pelas caixas de som. Estendi a mão e aumentei o volume.
Repórter- A policia encontrou o carro do homem num estacionamento
próximo ao Stanford Town Center. Quando forçaram a mala, encontraram o corpo de
Octavio Abagnal, de cinqüenta e um anos, dentro dela. Ele morreu em
conseqüência de um traumatismo causado por uma pancada no crânio.
Contei a Helena o que ouvira.
Helena nada disse por um instante e, a seguir, desabafou:
Helena- Estou começando a me sentir entorpecida, Eduardo. Quando isso
vai acabar? Quando vamos ter a nossa vida normal de volta?
Eduardo- (eu a abracei) Eu sei. Eu sei.
O problema era que Helena não tinha uma vida normal desde os 14 anos.
QUANDO MADALENA WEDMORE apareceu outra vez, foi direto ao assunto:
Madalena- Onde vocês estavam na noite em que Octavio Abagnal
desapareceu? Na noite em que ele saiu daqui, que foi a ultima vez que se teve
noticias dele?
Eduardo- Fomos visitar a tia de Helena. Ela estava morta. Ligamos para
policia. Passamos a noite toda com a policia. Assim imagino que a policia seja
o nosso álibi.
Pela primeira vez Madalena pareceu ficar constrangida.
Madalena- Claro, eu deveria ter-me dado conta disso.
Eduardo- Encontraram algum documento com o Sr. Abagnal? Um bilhete, uma
pilha de envelopes vazios?
Madalena- Até onde eu sabia, não havia nada. Por quê?
Eduardo- Só queria saber. Sabe, uma das ultimas coisas que o Sr. Abagnal
nos disse foi que queria investigar Juan Fleming, o rapaz que estivera com
minha mulher na noite em que sua família desapareceu. A senhora sabe quem é
Juan Fleming?
Madalena- Conheço o nome.
QUEM ESTAVA NO CARRO?
E MADALENA APARECEU outra vez no dia seguinte. Quando a vi subir à pista
de acesso a garagem, disse a Helena:
Helena- Vai ver que ela conseguiu nos ligar até ao caso do seqüestro
Lindbergh.
Abrir a porta antes que ela batesse.
Eduardo- Sim? O que foi desta fez?
Madalena- Tenho noticias. Posso entrar?
Hoje o seu tom estava menos caustico. Eu a conduzir até a sala de estar
e convidei-a a sentar. Helena e eu também nos sentamos.
Madalena- Em primeiro lugar, vocês precisam entender que eu não sou
cientista. Mas compreendo os princípios básicos e farei o possível para
explicá-los a vocês.
Olhei para Helena. Ela fez sinal para Madalena prosseguir.
Madalena- As chances de conseguirmos extrair DNA dos restos humanos
encontrados no carro de sua mãe sempre foram pequenas, mas não inexistentes.
Como você pode imaginar, a deterioração ao longo dos anos destruiu praticamente
toda a carne dos corpos. (ela limpou a garganta) De qualquer forma, tínhamos
ossos e dentes, então tentamos encontrar as fichas dentarias de sua família,
mas não tivemos sucesso. Seu pai, pelo que pudemos descobrir, não tinha
dentista, se bem que o legista determinou, muito rapidamente, com base na
estrutura óssea das duas pessoas que se encontravam no carro, que nenhuma das
duas era um homem e ainda mais adulta.
Helena piscou perplexa. Então Jorge Bigge não era uma das duas pessoas
encontradas dentro daquele carro.
Madalena- Mas o negocio é que, mesmo sem fichas dentarias, ainda
tínhamos dentes. E bem no centro do dente, lá no fundo, na raiz, aquilo ali é
tão bem protegido que é possível encontrar células nucleadas e extrair DNA
suficiente para exibir um perfil único para cada individuo, incluindo o sexo.
Helena- E...? (perguntou Helena, prendendo a respiração.)
Madalena- Eram duas mulheres. (concluiu Madalena) A analise do legista,
antes mesmo dos testes de DNA, sugere uma mulher na metade da adolescência e
outra de provavelmente trinta e muitos, quarenta e poucos anos. E os resultados
da pericia criminal sugerem um relacionamento de mãe e filha.
Helena- Minha mãe. (sussurrou Helena) Kelly.
Madalena- Bem, mas é aí que está. Embora tenhamos, mas ou menos,
determinado o relacionamento entre os dois falecidos, não sabemos sem sombra de
duvida se são realmente Kelly Bigge e Vilma Bigge. Mas nós temos a sua amostra
de DNA. E uma vez que tiverem a tipagem do seu DNA, e estão trabalhando nisso
neste exato momento, poderão determinar a probabilidade de qualquer
relacionamento entre você e os corpos. Mas, com base no que sabemos até agora, estamos
trabalhando com a suposição de que encontramos a sua mãe e a sua irmã.
Helena parecia tonta.
Madalena- Mas não o seu pai. Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas
a respeito dele; como que tipo de pessoa ele era.
Helena- Por quê? O que está querendo sugerir?
Madalena- Acho que temos de considerar a possibilidade de que ele tenha
assassinado os dois.
-Alô?
-Sou eu – respondeu a filha.
-Eu estava justamente pensando em você. Há tempos que não tenho noticias
suas. Espero que esteja bem. - disse ela.
-Eu queria esperar para ver o que iria acontecer – disse a filha.
–Quanto eles descobririam. Tem saído muita coisa no noticiário. Mostraram o
carro. Na TV.
-Nossa...
-Mostraram uma foto deles sendo levado da pedreira. E hoje, nos jornais,
saiu uma noticia sobre os testes de DNA.
-Oh, que emocionante – disse ela. –Como eu gostaria de estar aí com
você. E o que dizia?
-Bem, estou com o jornal bem aqui na minha frente. Diz: “Os testes de
DNA indicam um elo genético entre os dois corpos encontrados dentro do carro,
tratando-se provavelmente de mãe e filha.”
-Que interessante...
-“A pericia criminal ainda precisa determinar se os corpos estão
geneticamente ligados a Helena Archer. A policia está operando sob a suposição,
no entanto, de que os corpos recuperados pertencem a Vilma Bigge e Kelly Bigge,
desaparecidos há vinte e cinco anos.”
-É impressionante do que são capazes hoje em dia, não? – ela parecia
quase contente.
-É.
-Quer dizer, naquela época, quando o seu pai e eu nos livramos daquele
carro, quem ouvira falar em testes de DNA? É de arrepiar ah, isso é. Você ainda
está nervosa?
-Um pouquinho, talvez. – Para ela, a filha pareceu um pouco mais
relaxada.
-Acho que você fez um trabalho maravilhoso, tem muito do que se
orgulhar. Logo você estará em casa e poderá me levar de volta. Eu não quero
perder isso de jeito nenhum. Quando chegar o momento, estarei ansiosa para ver
a expressão no rosto de Helena.
HELENA CONSULTOU a sua psiquiatra. E contou tudo sobre os últimos
acontecimentos.
HELENA VERSUS EDUARDO
HAVIA DEZ LIGAÇÕES em nossa secretaria eletrônica quando chagamos
em casa, todas de diferentes representantes da mídia. Havia uma longa e
apaixonada mensagem de Paula, do programa Deadline. Nela, dizia que Helena
devia aos telespectadores a oportunidade de revisitar o caso.
Observei enquanto Helena apertava o botão para apagar a mensagem.
Nenhuma hesitação. Nenhuma confusão. Num movimento certeiro com um indicador
firme.
Eduardo- Dessa vez você não teve problemas. Deus que me perdoe,
simplesmente escapuliu.
Helena- O quê?
Eduardo- Nada.
Helena- Você estava se referindo aquela manhã. Quando eu recebi aquele
telefonema... Quando eu, sem querer, apaguei o histórico de chamadas do
aparelho. Eu disse a você o que aconteceu. Eu fiquei abalada.
Eduardo- Mas é claro que ficou.
Helena- Você nem ao menos acredita que recebi aquele telefonema,
não é mesmo?
Eduardo- Eu não disse isso.
Helena se aproximou de mim.
Helena- Como é que eu posso ficar aqui, debaixo do mesmo teto que você,
se não posso estar absolutamente certa do seu apoio? Não preciso de você
duvidando de tudo o que eu faço.
Eduardo- Não estou fazendo isso.
Helena- Então fale. Me diga isso agora. Olhe dentro dos meus olhos e
diga que você acredita em mim, que sabe que eu não tive nada a ver com tudo
isso.
Eu juro que ia dizer. Mas a minha hesitação de um décimo de segundo foi
o bastante para Helena me dar às costas e se afastar.
PENSAMENTOS DE JULIA
QUANDO ENTREI no quarto de Julia naquela noite, ela já estava debaixo
das cobertas. Mas estava completamente desperta.
Eduardo- Achei que você ia procurar asteróides.
Falei sentando-me na beira da cama e acariciando-lhe a cabeça.
Julia- Nem me dei ao trabalho.
Disse ela bem baixinho que mal podia ouvi-la.
Eduardo- Não está mais preocupada com asteróides?
Julia- Não. (virando a cabeça no travesseiro) Talvez eles ainda estejam
vindo, mas não importa.
Eduardo- O que quer dizer com isso, meu anjo?
Julia. Não fez a menor diferença se um asteróide estava a caminho ou
não. A tia Tereza morreu do mesmo assim. (respondeu triste) As pessoas morrem o
tempo todo, por todos os tipos de motivos. Elas são atropeladas. Elas podem se
afogar. E, às vezes, alguém vai até elas e as matam.
Eduardo- Eu sei.
Julia- E a mamãe está agindo como se a gente não tivesse em segurança.
Ela acha que alguma coisa virá atrás da gente, mas não é nada do espaço.
Eduardo- Nós nunca deixaríamos que algo de ruim acontecesse com você.
Julia não disse nada.
Eduardo- Eu ainda acho que vale a pena dar uma olhada de vez em quando.
(levantando-me da cama e me ajoelhando diante do telescópio) Você se importa se
eu der uma olhada?
Julia- Divirta-se.
Eduardo- Está bem. (eu levei o olho a lente e segurei o telescópio)
Vamos dar uma olhadinha aqui.
Brinquei, então o telescópio se soltou do suporte, caiu no chão e rolou
para debaixo da escrivaninha de Julia.
Julia- Eu lhe disse, papai. Ele é uma porcaria.
HELENA SOME COM JULIA
DE MANHÃ, quando me levantei, Helena e Julia haviam sumido. Eu não achei
estranho que Helena não estivesse em nossa cama quando acordei. Mesmo quando
não estávamos brigados, ela algumas vezes adormecia na cama de Julia e passava
a noite inteira lá.
Eu me levantei, vesti um jeans, entrei no banheiro e joguei água no
rosto. O suporte de toalhas fica bem do lado da janela que dá para a entrada da
garagem. Ao pegar a toalha, vi que o mundo além das venezianas estava
diferente. O espaço entre elas costuma ser branco e prata, açor dos nossos dois
carros. Mas naquele momento, estavam prata e cor de asfalto. O carro de Helena
não estava na pista de acesso à garagem.
Desci o corredor a abrir a porta do quarto de Julia. A cama estava
desfeita e vazia.
Espiei no escritório, desci ate a cozinha. Estava exatamente como havia
sido deixada na noite anterior. Tudo limpo e guardado. Quando abri a porta da
frente, o jornal daquela manhã me
aguardava.
Foi difícil, naquele momento, me livrar da sensação de estar vivendo um
episódio tirado da vida de Helena. Mas então, ao contrário daquela manhã de 25
anos atrás, eu encontrei um bilhete. Estava dobrado, de lado, sobre a mesa da
cozinha. Dizia:
Eduardo,
Eu vou embora. Não sei para onde, nem por quanto tempo. Só sei que não
agüento ficar aqui nem mais um minuto. Tenho a impressão de estar
enlouquecendo, de que ninguém acredita em mim.
O que vai acontecer a seguir? Quem vai ser o próximo a morrer? Eu não
quero que seja Julia. Então, vou levá-la comigo.
Quero procurar o meu pai, mas não tenho a menor idéia de por onde
começar. Talvez tenha sido isso que o Sr. Octavio descobriu depois de ir atrás
de Juan. Não sei.
Não vou deixar o celular ligado com minha freqüência. Mas vou verificar
as mensagens de vez em quando. Talvez, em algum momento, eu sinta vontade de
falar com você. Mas não agora.
Com amor, Lena.
Sentei-me a mesa da cozinha e comecei a chorar. Coloquei a cabeça entre
as mãos e chorei muito. Não sei quanto tempo fiquei ali, sentado, sozinho, a
mesa da cozinha, deixando as lagrimas escorrerem pelo meu rosto. Tempo bastante
para não ter mais lagrimas, eu acho. Uma vez exaurida a provisão, não tive
escolha senão traçar uma nova linha de ação para mim.
PLANO DE EDUARDO
VOLTEI PARA CIMA, terminei de me vestir.
Retornei a cozinha e liguei para Leandro. Era ainda muito cedo para ele
já ter saído para a escola.
A mulher dele atendeu. Eu havia perguntado se ela sabia de alguma
noticia de Helena, e ela disse que não. Então eu contei o que havia acontecido.
Ela chamou Leandro; ele ficou assustado com a noticia.
Leandro- Vocês brigaram ou algo assim?
Eduardo- Mais ou menos. Acho que tudo está começando a pesar sobre ela.
Ouça, se você tiver noticias, se a vir, me avise,está bem?
Leandro- Pode deixar. E, se você a achar, telefone.
E então um nome surgiu na minha mente. O nome de alguém que eu nunca
conhecera com quem eu nunca tinha falado, e que nunca tinha visto. Mas seu nome
não parava de ser mencionado. Talvez enfim tivesse chegado a hora de eu bate um
papo com Juan Fleming.
FUI PARA O COMPUTADOR e comecei a fazer buscas sobre Juan Fleming e
MILFORD. Havia algumas noticias no jornal de New Haven no decorrer dos últimos
anos, uma detalhava que ele havia sido acusado de agressão. Era dono de uma
oficina mecânica num bairro industrial em alguma parte da cidade, e havia um
foto dele entrando num bar chamado Mike’s.
Talvez eu pudesse fazer algumas perguntas sobre Juan Fleming.
Dirigi para oeste na Bridgeport Avenue, entrando no bairro de DeVon,
ainda em MILFORD. Consegui chegar ao bar onde Juan aparecia nas imagens.
Estacionei antes da esquina e caminhei de volta, sem saber se o MIKE’S estaria
aberto na parte da manhã. Uma vez lá dentro, eu me dei conta de que para muitos
nunca é cedo demais para beber.
Eu me aproximei do bar, ficando mais ou menos próximo de alguns
fregueses, e chamei a atenção da figura corpulenta de camisa quadriculada que
trabalhava atrás do balcão.
- O que vai querer? – Perguntou ele com uma caneca úmida em uma das mãos
e uma toalha na outra. Enfiou a toalha dentro da caneca e a torceu para
enxugar.
Eduardo- estou procurando um sujeito. Ele vem muito aqui.
- Muita gente vem aqui.
Eduardo- Juan Fleming.
- Fleming? (repetiu) Que tipo de assunto você tem para tratar com ele?
Eu sorri, tentando ser educado.
Eduardo- É um assunto mais ou menos pessoal. Se você puder me dizer onde
ele mora.
O Barman deve ter decidido que o local de trabalho de Fleming era de
conhecimento geral, porque disse:
- Oficina Dirksen. Do outro lado da ponte.
Eu saí e peguei meu carro. Cheguei à oficina, era um prédio de blocos de
concreto, com o pátio da frente cimentada e um reboque preto parado ali. Uma
jovem que se encontrava por trás de uma mesa me perguntou o que eu queria.
Eduardo- Estou aqui para falar com Juan Fleming.
- Ele não está.
Eduardo- É importante. Meu nome é Eduardo Archer.
- Como eu disse o Sr. Fleming não está no momento. Mas eu posso anotar o
recado.
Eduardo- O nome é Eduardo Archer.
Dei a ela o telefone de casa e o celular.
Eduardo- Eu realmente gostaria de falar com ele.
Assim sair da oficina, mas quando fui entrando no meu carro um unitário
vermelho passou por cima do meio-fio e parou, de repente, bem na minha frente.
Dois homens meio barrigudos, vestido jaquetas jeans e camisetas sujas. Um
careca e outro cabelo louros. Saltaram.
- Entre. – disse o careca.
Eduardo- Como?
- Você ouviu. Entre no carro.
Eles saltaram para frente ao mesmo tempo, cada um agarrando um dos meus
braços.
Eles estavam me levando não sei lá pra onde, mas eu ia com muito medo. E
sempre que falava algo, eles logo me rebatiam e mandavam calar a boca.
Demos algumas voltas e passamos por algumas linhas de trem. Acredito que
já haviam chegado ao local. O louro e o motorista já haviam saído. O careca
abriu a porta, saiu e eu me levantei primeiro me sentando no banco traseiro,
depois me arrastando para o lado ate conseguir sair. Estávamos estacionados na
frente de uma garagem entre duas casas de veraneio. Dava para ver a praia e,
mais além, o estreito de Long. Island.
O careca fez um gesto para eu subisse uma escadaria que levava ao
segundo andar. O louro e o motorista foram na minha frente, depois eu e o
careca.
No topo das escadas, o motorista abriu uma porta de tela e nós passamos
na frente dele. Entramos num aposento grande, com portas de correr de vidro que
davam para o mar. Havia cadeiras e um sofá logo na entrada, uma estante cheia
de livros e uma cozinha na parede do fundo.
De costas para mim, um homem corpulento encontrava-se ao fogão com uma
frigideira numa das mãos e uma espátula na outra.
- Ele chegou- disse o louro.
O homem concordou com a cabeça sem dizer nada.
O louro e o careca saíram me olhando. Eu fiquei no meio do cômodo,
olhando para as costas do homem.
Juan- Você vai querer ovos? São ovos mexidos.
Eduardo- Não, mas muito obrigado.
Juan- Eu me levanto um pouco mais tarde...
Eduardo- (se irrita) Olha aqui, eu não estou aqui para está ouvindo papo
furado seu, não.
Juan logo se revolta também. Ele vira-se pra mim, o seu rosto tinha uma
cicatriz de dois centímetros.
Juan- Eu o conheço?
Perguntou-me, enfiando parte dos ovos na boca.
Eduardo- Não.
Juan- Mas você andou perguntando ao meu respeito por aí. O que você quer
comigo?
Eduardo- Andei.
O homem que estava em minha frente se tratava de Juan Fleming espetou
uma salsicha com o garfo e enfiou na boca.
Juan- Quando uma pessoa que eu não conheço começa a fazer perguntas a
meu respeito, isso pode me dar motivos para preocupação. E então, quem é você?
Eduardo- Eduardo Archer. Você conhece a minha mulher. O nome dela é
Helena. Você a conhecia quando se chamava Helena Bigge.
Ele parou de mastigar.
Juan- Ah, cara, isso foi há muito tempo.
Eduardo- Pois é, mas houve alguns progressos recentes. Imagino que você
se lembre do que aconteceu naquela noite.
Juan- Claro. A família dela desapareceu.
Eduardo- Exato. Encontraram os corpos da mãe e da irmã de Helena.
Juan- Kelly? Eu conhecia Kelly.
Eduardo- Conhecia?
Juan Fleming deu de ombros.
Juan- Um pouco. Quer dizer, estudamos na mesma escola. Era uma menina
legal.
Eduardo- A policia os encontrou dentro do carro da mãe de Helena, no
fundo de um lago, numa pedreira em Massachusetts. E a tia de Helena foi
assassinada.
Juan- Existe algum motivo pelo qual você esteja me contando isso?
Eduardo- Helena desapareceu. Ela fugiu. Com nossa filha. Nós temos uma
filha chamada Julia. Ela tem oito anos.
Juan- É uma pena.
Eduardo- Achei que Helena teria vindo procurá-lo.
Juan estendeu a mão esquerda por cima da mesa, agarrou o meu punho
direito e o puxou para si. Com outra mão pegou a faca de carne.
Juan- Eu tenho outra pergunta pra você. Teve outro sujeito que teve aqui
fazendo perguntas ao meu respeito, você sabe quem é?
Eduardo- Que sujeito?
Juan- Tinha uns Cinqüenta anos. Baixo. Talvez fosse detetive particular.
Eduardo- Pode ter sido um homem chamado Octavio. Nós o contratamos para
tentar encontrar a família de Helena. Ou, pelo menos, descobrir o que aconteceu
a ela.
Juan- E isso queria fazer perguntas ao meu respeito?
Engoli seco.
Eduardo- Ele achou que valia a pena investigar você.
Juan- É mesmo? E o que ele descobriu?
Eduardo- Isso a gente não sabe. Ele morreu alguém que ficou com medo o
assassinou.
Juan apertou-me mais e de repente uma voz:
Norma- Ei, Juan, o que você está fazendo com o meu professor?
Perguntou a voz. Mesmo com os dedos grossos de Juan segurando o meu
couro cabeludo e impedindo meus movimentos, eu consegui virar a cabeça o
suficiente para ver Norma Scavullo.
Juan- Seu professor? Que professor?
Norma- Meu professor de redação. (ela se aproximou) Oi. Sr. Archer.
Eduardo- Oi, Norma.
Juan Fleming largou meu cabelo.
Juan- Era desse sujeito que você estava falando? Do que gostava de suas
historias?
Norma fez que sim com a cabeça.
Eduardo- Estou tentando encontrar minha mulher. Ela está com nossa filha
e eu estou muito preocupado com elas. Achei que seu Pa... Que Juan talvez
pudesse me ajudar.
Norma- Ele não é meu pai. Ele e minha mãe estão juntos há algum tempo.
Juan a levou até a porta. Eu não pude ouvir o que ele lhe disse, mas,
pouco antes de descer as escadas, ela se dirigiu a mim:
Norma- Até mais, Sr. Archer.
Eduardo- Até mais, Norma.
Juan caminhou de volta a mesa, com uma postura bem menos ameaçadora, e
sentou-se outra vez. Ele pareceu-me meio envergonhado e não disse nada logo de
cara.
Eduardo- Ela é uma boa garota.
Juan concordou.
Juan- Ela precisava de um pouco de... Como é mesmo que se diz? De um
pouco de estabilidade.
Eduardo- Ela parece se dar muito bem com você.
Juan concorda novamente e conversa vai, conversa vem. Eles se entendem.
Eduardo- Posso ser franco sem você me puxar os cabelos?
Ele fez que sim.
Eduardo- Você estava com Helena naquela noite. O pai dela encontrou
vocês dois e a arrastou até em casa. Menos de doze horas depois, Helena acordou
e era a única que sobrava da família. Você foi, presumivelmente, uma das
ultimas pessoas a ver um integrante da família, alem da própria Helena, vivo.
(fiz uma pausa) Mas tenho certeza de que a policia lhe disse tudo naquela
época.
Juan- Disse.
Eduardo- E o que você disse a eles?
Juan- Não disse nada. Está aí uma coisa que eu aprendi com meu velho,
que Deus o tenha. Jamais responder a perguntas feitas por policiais.
Eduardo- Seu pai sempre foi bem de vida, estou certo?
Juan- Dinheiro? Ah, sim. Meu pai sempre ganhou bem.
Eduardo- Você acha que ele pode ter considerado que você foi, de alguma
forma, responsável, e que foi ele quem anonimamente deu dinheiro para Tereza,
tia de Helena, para ajudá-la a pagar a universidade?
Juan- Não.
Eduardo- Por que. (fiquei lutando comigo mesmo, se eu deveria falar o
que aconteceu.) Alguém fez exatamente isso.
Juan- Alguém deu dinheiro para a tia dela pagar a faculdade?
Eduardo- Isso mesmo.
Juan- E ninguém nunca soube quem?
Eduardo- Isso mesmo.
Juan- Bem, que coisa mais estranha. (ele parecia meio incomodado) Vou
lhe contar um negocio, mas não é para você contar a policia.
Eduardo- Tudo bem. (minha boca ficou seca). Pode contar.
Juan- Naquela noite, depois que o pai dela nos encontrou no carro e a
levou para casa, eu os segui no meu carro. Acho que queria saber qual era o
tamanho da encrencar em que ela tinha se metido. Eu os vi subir a estrada de
acesso à entrada na casa, juntos. Estacionei mais adiante, na rua, pensando que
ela talvez saísse outra vez depois de levar uma bronca dos pais. Mas isso não
aconteceu. E, depois de algum tempo, outro carro passou, devagar, como se
alguém tentasse ler os números das casas. Ao chegar ao fim da rua, deu a volta
e estacionou do outro lado, umas duas casas depois da de Helena.
Eduardo- Deu pra você ver quem estava dentro? E que tipo de carro era?
Juan- Era alguma bosta da AMC. Azul, se não me engano. Parecia ter só
uma pessoa no carro. E parecia ser mulher.
Eduardo- Uma mulher estacionada na frente da casa... Estava vigiando?
Juan- Era o que parecia. E me lembro que a placa não era de Connecticut.
Era de Nova York, onde naquele tempo as placas eram laranja.
Eduardo- Quanto tempo o carro ficou lá parado?
Juan- Bem, na verdade, não muito tempo. A Sra. Vilma e Kelly saíram e
entraram no carro da mãe, um Ford amarelo, e arrancaram. Só os dois. E, assim
que dobraram a esquina, esse tal carro os seguiu. Eu fiquei ali por mais uns
quarenta e cinco minutos e, de repente, a porta da frente se abriu e o pai,
Jorge, saiu correndo de dentro da casa. Então, ele deu de ré a duzentos
quilômetros por hora e saiu que nem um louco.
Eu absorvi aquilo tudo.
Juan- A essa altura, todo mundo tinha saído, menos Helena. Então fui de
carro até lá e bati na porta, achando que poderia conversar com ela. Esmurrei a
porta umas seis vezes, mas ela não atendeu; imaginei que estivesse dormindo,
sabe? Aí, voltei para casa.
Eduardo- E por que você está me contando isso agora?
Juan- Não sei. Imagino que todos esses anos tenham sido difíceis para
Lena, acertei?
Eduardo- Acertou. Muito difíceis. Em especial os últimos meses.
Juan- Eu gostaria de fazer alguma coisa para ajudar. E então? Há alguma
coisa que eu posso lhe ser útil?
Eduardo- Eu não sei.
Juan- Eu posso colar em você por algum tempo e vemos o que descobrimos.
Eduardo- Não sei mesmo.
EDUARDO LIGA PARA HELENA
JUAN SE OFERECEU para me levar até o meu carro no seu próprio veiculo:
uma picape Dodge RAM de aparência bastante agressiva. Minha casa não ficava
longe da estrada, no caminho de volta até a oficina, onde eu deixara meu carro.
Perguntei a Juan se ele se importava que déssemos uma passada por lá para que
eu visse se Helena voltara para casa.
Juan- Claro que não.
Ele disse quando entramos em sua caminhonete.
Chegamos a minha casa. Uma vez lá dentro, busquei alguma evidencia de
que Helena pudesse ter retornado - Um bilhete qualquer coisa.
Ela não voltara.
Juan vagueou pelo primeiro andar, olhando os quadros da parede, os
livros em nossa estante. Seus olhos recaíram sobre as caixas de sapatos
abertas, cheias de recordações.
Juan- Que diabos é isso?
Eduardo- São de Helena. Da casa dela de quando era criança.
Juan sentou-se no sofá e passou a mão por aquilo tudo.
Tentei ligar para o celular de Helena, apesar de serem pequenas as
chances de que estivesse ligado. Eu já ia desligar, no quarto toque, quando
Helena atendeu:
Helena- Alô?
Eduardo- Lena?
Helena- Oi, Eduardo.
Eduardo- Você está bem? Onde você está?
Helena- Nós estamos bem, Eduardo.
Havia muito barulho ao fundo.
Eduardo- Onde vocês estão?
Helena- No Carro.
Eduardo- Quando vão voltar?
Helena- Não sei. Eu só preciso de algum tempo.
Juan- Diga oi por mim.
Gritou Juan da sala de estar.
Helena- Quem é?
Eduardo- Juan Fleming.
Helena- Como? O que ele está fazendo aí?
Eduardo- É uma historia meio longa. Eu lhe conto quando você voltar. Ele
me contou outras coisas, sobre aquela noite, que nunca tinha contado a ninguém.
Helena- Como o quê?
Eduardo- Como o fato de ter seguido você e seu pai, de ter ficado na
frente da sua casa um tempo e de ter visto Kelly e sua mãe saírem, e, mais
tarde o seu pai. Com muita pressa. E havia outro carro na frente da sua casa,
que esperou um tempo e saiu depois de sua mãe e de Kelly.
Nada além do barulho da estrada.
Eduardo- Helena?
Helena- Estou aqui. Não sei o que isso significa.
Eduardo- Nem eu.
Helena- Eduardo, vou desligar. Esqueci de trazer o carregador e não
tenho mais muita bateria.
Eduardo- Volte logo para casa, Lena. Eu te amo.
Helena- Tchau.
Terminando a ligação.
Coloquei o fone no gancho e voltei para a sala. Juan Fleming me mostrou
um recorte de jornal, o tal no qual Kelly se encontrava de pé com outros
integrantes do time de basquete.
Juan- Esta parece ser Kelly. Mas a foto é esquisita. Eu não reconheço
mais ninguém. Ninguém que tenha estudado na mesma escola que a gente naquela
época.
Eu peguei de sua mão, embora fizesse pouco sentido. Eu não havia
estudado com Kelly e nem com Helena e não teria conhecido nenhum de seus
colegas de turma.
Juan- E o nome está errado.
Disse Juan, apontando logo abaixo da foto. Dei de ombros.
Eduardo- Tudo bem. Jornais erram os nomes das pessoas.
Eu li o nome que se encontrava onde o dele deveria estar. Era K. Sloan.
Eduardo- Ah, meu Deus.
Juan olhou pra mim.
Juan- O que foi?
Eduardo- K. Sloan. Kéti Sloan. A mulher que vimos na praça de alimentação.
Era o nome da mulher que Helena achou que era sua irmã.
Juan- Do que é que você está falando?
Eduardo- Há umas duas semanas, Helena, Júlia e eu estávamos no shopping.
Helena viu uma mulher e ficou convencida de que era Kelly.
Juan- Como foi que você descobriu o nome dela?
Eduardo- Helena foi até ela e disse que sabia que era sua irmã. Foi uma
cena horrível. A mulher negou. Então eu disse que, se ela mostrasse a carteira
de motorista, se pudesse provar a ela que não era quem ela achava que fosse ela
a deixaria em paz.
Juan- E ela mostrou.
Eduardo- Mostrou. Eu vi a carteira. O nome dela era Kéti Sloan.
Juan pegou o recorte de jornal de volta da minha mão.
Juan- Que coisa mais curiosa, não?
Eduardo- Isso não faz menor sentido. Por que a foto de Kelly está neste
jornal velho com um nome diferente?
Juan- Você se lembra de alguma coisa na carteira de motorista?
Eduardo- Só que era de Nova York.
Juan- É um estado meio grande.
Eduardo- Acho que a cidade era Young alguma coisa.
Juan virou o recorte. Havia texto no verso. Pôs-se a ler trechos de
artigos, aqui e ali, então ergueu os olhos.
Juan- Você tem um computador?
Eduardo- Tenho.
Juan- Ligue-o.
JUAN DESCOBRE ALGO
ELE ME SEGUIU até o segundo andar e ficou olhando por cima do meu ombro
enquanto eu puxava uma cadeira e ligava o computador.
Juan- Tem um pouco de texto aqui sobre Falkner Park e o condado de
Niágara. Jogue isso tudo no Google.
Digitei as palavras e dei inicio a busca. Não demorou muito para juntar
todas as peças.
Eduardo- Existe Falkner Park em Youngstown, Nova York, que fica no
condado de Niágara.
Juan- Bingo. Então o mais provável é que se trate de um jornal daquela
região.
Eu me virei na cadeira e olhei para ele.
Eduardo- Por que haveria uma foto de Kelly num jornal de Youngstown,
Nova York, listado como K. Sloan? Esse “K” seria de Kelly ou Kéti?
Juan- Claro que possa ser dessa Kéti. Tudo indica que seja ela. Talvez
não seja uma foto de Kelly Bigge. Talvez seja uma foto de Kéti Sloan.
Levei um segundo para observar o comentário.
Eduardo- O que está querendo dizer? Que existem duas pessoas? Uma
chamada Kelly Bigge e outra chamada K. Sloan, Kéti Sloan, ou que existe uma
pessoa com dois nomes?
Juan- Ei, eu não sei. Só estou aqui porque quero te ajudar.
Eu me virei outra vez para o computador, consultei o catalogo telefônico
on-line, e digitei Kéti Sloan em Youngstown, Nova York. A busca não me deu
nada, mas sugeriu que eu procurasse K. Sloan ou apenas o sobrenome. Tentei a
ultima opção e surgiu um punhado de Sloans na região de Youngstown. Mostrei a
tela para Juan.
Eduardo- Tem um Jorge Sloan listado em Niágara View Drive.
Juan- Jorge? Esse era o primeiro nome do pai de Helena.
Eduardo- É. Vou dar uma ligadinha para esse numero.
Juan- Epa! Você enlouqueceu?
Eduardo- Como assim?
Juan- Ouça, se eles estiverem um identificador de chamadas, vão saber
imediatamente quem está ligando. Talvez eles saibam quem você é, talvez não,
mas você não vai querer arriscar, vai? (passando um celular) Use isso.
Eu peguei o telefone e digitei o numero. Um toque. Dois toques. Três
toques. Quatro toques. Quando chegou a oito, comecei a afastar o telefone da
orelha quando ouvi uma voz.
- Alô?
Era uma voz de mulher mais velha, uns sessenta anos.
Eduardo- Ah, sim, alô. (falei) Kéti está? (mesmo enquanto eu falava
pensei: E se estiver? O que vou dizer?
- Não, não está. (respondeu a mulher) Quem está falando?
Eduardo- Ah, então tudo bem. (repliquei) Posso tentar outra vez um pouco
mais tarde.
- Ela está viajando. (continuou a mulher) Não sei dizer quando vai
voltar.
Eduardo- Claro, ela mencionou alguma coisa sobre ir a Conecticut.
- Foi mesmo? Você tem certeza?
Ela me pareceu bastante perturbada.
Eduardo- Eu posso ter entendido errado. Ouça, falo com ela depois; sem
problemas. É só uma bobagem sobre o golfe.
- Golfe? Mas Kéti não joga golfe. Quem está falando?
O telefone começa a fugir do meu controle. Juan passou o dedo na frente
do pescoço. Eu fechei o telefone, encerrando a ligação. Entreguei-o de volta a
Juan, que o enfiou na jaqueta.
Juan- Pelo o visto você ligou para o lugar certo.
Eduardo- Então a Kéti Sloan que encontramos no shopping é, muito
provavelmente, a Kéti Sloan que mora em Youngstown, numa casa cujo o telefone
está listado sob o nome de Jorge Sloan.
Nenhum de nós dois disse mais nada. Ambos tentávamos compreender aquilo
tudo. Descemos outra vez até a cozinha.
Eduardo- Alguma idéia, Juan?
Juan- Bem, essa tal de Sloan ainda está viajando. Isso significa que
deve estar na região de Mil Ford, provavelmente em algum hotel das
redondezas. (tirou o telefone mais uma vez da jaqueta, puxou o numero da
lista de contatos e apertou um botão. Aguardou um momento e disse:) Ei, sou eu.
Preciso que você faça uma coisa.
Então Juan falou para quem estava do outro lado da linha que juntasse
alguns dos outros homens e começasse a fazer a ronda nos hotéis da cidade.
Juan- Quero que encontre uma mulher chamada Kéti Sloan, de Youngstown,
Nova York, que está hospedada em um deles. E, se descobrirem onde ela está;
avise-me. (Juan colocou o telefone de volta na jaqueta) Se essa mulher estiver
na cidade, eles o encontrarão.
Eu me sentei à mesa da cozinha. Juan sentou-se a minha frente.
Juan- Tem alguma idéia do que está acontecendo?
Eduardo- Talvez esteja começando a ter. A mulher que atendeu ao
telefone. E se ela for à mãe de Kéti Sloan? E se Kéti realmente for irmã de
minha mulher?
Juan- Certo.
Eduardo- E se eu tiver acabando de falar com a mãe da minha mulher?
- ALGUÉM LIGOU para cá á sua procura – disse ela.
-Quem?
- Ele não disse quem era. Mas perguntei por você e, quando eu disse que você
estava viajando, ele se lembrou de você ter dito alguma coisa sobre ir a
Connecticut.
- O quê?
-Você não deveria ter dito a ninguém para onde estava indo!
-Mas eu não disse!
-Bem, se não disse, como é que ele iria saber?
- Eu não sei.
-Ele disse que a conhecia do golfe.
- Do golfe? Mas eu não jogo golfe.
- Foi o que eu disse a ele. Eu disse que você não jogava golfe.
- Quer saber de uma coisa, mãe? Deve ter sido engano, ou algo assim. Não
fique preocupada. Alem do mais, eu estou voltando para casa.
- É mesmo?- O tom dela mudou completamente.
- Pois é. Se eu sair daqui logo, chego aí ainda esta noite.
- Dirija com cuidado. Não quero você adormecendo no volante. Você nunca
teve a mesma resistência para dirigir que o seu pai.
- E como ele está?
- Eu acho que, se a gente conseguir fazer tudo ainda esta semana, ele
dura pelo menos esse tanto. Vou ficar aliviada quando isso tudo terminar: Você
tem idéia de quanto custa pegar um taxi para ir até lá vê-lo?
- Logo, logo nada disso vai ter importância, mãe.
- É bem mais do que o dinheiro, sabe? – queixou-se ela. –Eu tenho
pensado em como isso vai ser feito. Vamos precisar de corda. Ou daquela fita. E
acho que faz sentido cuidar da mãe primeiro. Depois disso, a pequenininha não
vai dar o menor trabalho.
EDUARDO E JUAN ENCONTRA KÉTI SLOAN
JUAN E EU VOLTAMOS para a caminhonete. Ele ia me levar de volta para
pegar o meu carro, ainda estacionado perto da sua oficia. Mas seu celular
tocou.
Juan- Sim? (ele escutou por alguns instantes, então disse:) Espere
Eduardo. (guardou o telefone) Encontraram a mulher. Está registrada no Hojo’s.
Juan pisou no acelerador. Pegou a rodovia I-95 e subiu a rampa de acesso
feito um louco. Estava a quase 140 quando se misturou aos outros carros.
Chegamos ao outro lado da cidade em poucos minutos. Juan virou à direita
e dobrou outra vez à direita no estacionamento do Hojo’s. O utilitário no qual
eu havia andando mais cedo estava parado um pouco alem das portas que levavam
ao saguão e, quando nos viu, o homem louro correu a janela de Juan.
Ele deu um numero de quarto para o chefe e disse que, se subíssemos o
morro e nos aproximássemos por trás, seria um dos quartos aos quais poderíamos
chegar direto de carro. Juan subiu por uma estrada de acesso sinuosa que dava
atrás do edifício. A estrada parava de subir atrás de uma fileira de quartos
com portas que davam para o meio-fio.
Juan- Aqui estamos.
Eduardo- Eu quero conversar com ela. Não faça nada precipitado com ela.
Juan, que já havia saltado, fez um aceno desdenhoso sem nem ao menos
olhar para mim. Foi até a porta, notou que já estava aberta e bateu.
Juan- Sra. Sloan?
A algumas portas dali, uma faxineira olhou em nossa direção.
- Já foi. Faz o check-out há alguns minutos.
Juan- Há quanto tempo?
Perguntou Juan, tirando uma nota de vinte dólares da carteira e
entregando a ela.
Ela enfiou no bolso do uniforme.
- Dez minutos?
Eduardo- Que tipo de carro ela tinha?
- (dando de ombros) Não sei. Um carro comum. Janelas escuras.
Juan- Obrigado.
Ele fez sinal em direção a picape e nós dois entramos.
Eduardo- E agora?
Juan ficou ali sentado um momento.
Juan- Eu acho que ela foi para Youngstown. É o único lugar, no momento,
onde talvez encontre algumas respostas.
Juan estendeu o braço dentro do carro na minha direção e abriu o
porta-luvas. Tirou um mapa rodoviário e o abriu.
Juan- Muito bem, vamos dar uma olhada aqui.
UM ENCONTRO INESPERADO
JÁ HAVIA ESCURECIDO quando passamos por Búfalo. Continuamos até Niágara
Falls, subimos a Robert Moses Parkway, passando Lewiston, onde notei um
hospital não muito longe da estrada. Pouco ao norte de Lewiston, pegamos a
saída para Youngstown.
Não tinha o endereço exato de Jorge Sloan. Mas Youngstown era um
vilarejo, e imaginamos que não demoraríamos muito para encontrá-lo.
Estacionamos o carro em frente de um restaurante e lá compramos algumas coisas
para comer no caminho; então Juan achou uma lista de telefone e perguntou de
alguma dava na casa de Jorge Sloan? O barman disse que Niágara New Drive numero
25. Logo depois de deixarmos a Robert Moses, entramos na Lockport Street e
seguimos para o sul na rua principal e descemos oitocentos metros. Juan dobrou
a esquerda e desceu a rua lentamente enquanto eu procurava o numero.
Eduardo- Vinte e um; vinte e três. (fui lendo) Ali; vinte e cinco.
Juan desceu mais cem metros antes de desligar a caminhonete e
apagar os faróis.
A casa era um imóvel amplo, de um único andar. Bem cuidado. Na varanda
havia duas espreguiçadeiras de madeira. Havia também uma rampa para cadeira de
rodas com pouca inclinação, do passeio para a varanda. Subimos por ela e nos
colocamos juntos, diante da porta.
Juan- Como vai querer fazer?
Eduardo- O que você acha?
Juan- Com o Maximo de discrição.
As luzes ainda estavam acesas dentro da casa e eu achei que podia ouvir
sons abafados de uma televisão em algum lugar lá dentro, então imaginei que não
acordaria ninguém. Levei o indicador a campainha e deixei-o ali por um
instante.
Juan- Chegou a hora da verdade.
OUVIMOS UM MOVIMENTO abafado dentro da casa e, um momento depois, a
porta se entreabriu de madeira bastante hesitante. Uma mulher numa cadeira de
rodas chegou para trás e depois se inclinou a frente para abrir a porta mais
alguns centímetros.
- Pois não?
Eduardo- Sra. Sloan?
Calculei a sua idade na casa dos sessenta e muitos, talvez setenta. Era
magra, mas os movimentos dos membros superiores não sugeriam fragilidade. Ela
segurava as rodas da cadeira com firmeza, bloqueando a nossa entrada.
Trazia uma manta dobrada por cima das pernas, que lhe cobria até os
joelhos. Os cabelos prateados estavam presos para trás e não se via nem um
único fio fora do lugar. Seus traços sugeriam que, em determinada vida era uma
mulher elegante. Procurei nela alguma semelhança com Helena, mas não encontrei
nenhuma.
- Sim, eu sou a Sra. Sloan.
Eduardo- Sinto incomodá-la tão tarde. (arrisquei) Sra. Jorge Sloan?
Edna- Sim. Sou Edna Sloan. Você tem razão. Já é muito tarde. O que
deseja?
A voz transmitia certa acidez. Ela ergueu a cabeça e projetou o queixo
para frente, não apenas porque estávamos em posição superior a dela, mas para
demonstrar a própria força. Tentava nos mostrar que era uma velhinha valente e
que não devíamos mexer com ela.
Havia uma TV ligada em outro cômodo, e um aroma reconfortante chegava a
nós do fundo da casa. Farejei o ar:
Eduardo- A senhora está assando alguma coisa?
Edna- Bolo de cenoura. É para minha filha. Volta hoje para casa.
Eduardo- Ah. É justamente por ela que estamos procurando. Kéti?
Edna- O que vocês querem com Kéti? Quem são vocês?
Eduardo- Talvez pudéssemos conversar com seu marido. Poderíamos
conversar com Jorge?
Edna- Ele não está. Está no hospital.
Aquilo me surpreendeu.
Eduardo- Ah, sinto muito. No hospital que vimos quando vínhamos para cá?
Edna- Se vocês vieram por Lewiston. Já está lá há varias semanas.
Eduardo- Espero que o problema de seu marido não seja nada serio.
Edna- Meu marido está morrendo. Está tomado pelo câncer. É só uma
questão de tempo. (olhando para mim) Foi você que ligou pra cá? Atrás de Kéti?
Eduardo- Acho que devemos continuar essa conversar lá dentro.
Juan dando um passo à frente.
Edna Sloan segurou as rodas da cadeira.
Edna- Eu acho que não.
Juan- Bem, eu acho que sim. (colocando as mãos nos braços da cadeira e
forçando-a para trás) A senhora vai nos contar tudo o que sabe.
Juan a empurrou para dentro, e eu percebi que não tinha muita escolha
senão segui-lo. Fechei a porta da frente ao passar.
Edna- Que diabos são vocês?
Eduardo- Senhora Edna Sloan, meu nome é Eduardo Archer. O nome de minha
mulher é Helena. Helena Bigge.
Ela me fitou com a boca semi-aberta. Estava sem fala.
Eduardo- Pelo que pude perceber, o nome significa alguma coisa pra
senhora. Eu tenho uma pergunta. E pode até soar um pouco estranho, mas tenho de
lhe pedir que seja um pouco paciente comigo. A senhora é Vilma Bigge? Mãe de
minha mulher, Helena?
Ela riu, zombeteira.
Edna- Não sei do que você está falando.
Eduardo- Então, por que a risada. A senhora parece reconhecer os
nomes que mencionei.
Edna- Vou chamar a policia.
Eduardo- Talvez seja uma boa idéia. Podemos todos ficar aqui a espera de
Kéti e lhe fazer algumas perguntas na presença da policia.
Edna- E por que eu teria medo da policia?
Eduardo- Essa é uma boa pergunta. Será que teria alguma coisa a ver com
o que aconteceu há vinte e cinco anos? Ou com eventos mais recentes ocorridos
em Connecticut? A morte da tia de minha mulher, Tereza Berman? E de um detetive
particular chamado Octavio Abagnal?
Edna- Saiam daqui!
Eduardo- E quanto a Kéti? Ela é irmã de Helena, não é?
Ela estava cheio de ódio de mim.
Edna- Não ouse dizer isso.
Fulminou as mãos pousadas na manta.
Eduardo- E o que me diz de Jorge Sloan? Jorge Sloan é, na verdade Jorge
Bigge? Os dois são a mesma pessoa?
Edna- Você não pode fazer isso. Não pode invadir a casa de uma velha
senhora e agarra desta maneira!
Eduardo- Eu preciso ir ao hospital. (falei para Juan) Preciso ver Jorge
Sloan.
Edna- Ele está muito doente, não pode ser incomodado.
Eduardo- Mas eu preciso incomodá-lo.
Juan- Se formos, ela vai ligar para Kéti e dizer que estamos esperando
aqui para conversar com ela. Eu podia amarrá-la.
Eduardo- Que tal se você ficasse aqui?
Ele fez sim com a cabeça.
Juan- Assim funciona. Edna e eu podemos trocar umas idéias. (ele olhou
bem para ela) Não vai ser divertido?
Ele enfiou as mãos dentro da jaqueta, tirou as chaves da caminhonete e
atirou-as para mim. Eu as peguei no ar.
Eduardo- Em que quarto ele está, Edna?
Edna- Terceiro andar. Quarto três zero nove.
Antes de eu deixar a casa, Juan e eu trocamos os números dos nossos
celulares. Peguei a caminhonete dele e, ao me encontrar de volta na estrada,
rumei para o sul.
Encontrei o caminho para o estacionamento do hospital e entrei pela
emergência. Havia meia dúzia de pessoas na sala de espera. Passei direto, não
parei na recepção, onde vi que o horário de visitas terminara havia duas horas,
as oito, e encontrei um elevador que me levaria até o terceiro andar. Se, ao
menos, eu pudesse chegar até o quarto de Jorge Sloan, estaria bem.
As portas do elevador se abriram no posto de enfermagem. Não havia
ninguém. Saí, parei por um breve instante e segui pelo corredor, procurando os
números das portas. Entrei na esquerda e a primeira porta que eu dei de cara
foi a 309. Estava entreaberta, o quarto mergulhado na escuridão.
Dei alguns passos já dentro do quarto e vi um homem na cama, deitado de
barriga pra cima, levemente erguido e profundamente adormecido. Devia ter uns
setenta anos, pelos meus cálculos. Estava muito magro, os cabelos rareados.
Fui até a extremidade oposta da cama, onde a cortina me escondia do
corredor. Havia uma cadeira perto da cabeceira e eu me sentei. Estendi a mão e
toquei suavemente o braço nu do homem.
Eduardo- Jorge.
Friccionando a pele espessa como couro, para frente e para trás, com
todo o cuidado. Ele abriu os olhos, confuso. Ao me ver, piscou algumas vezes,
deixou que os olhos se ajustassem em foco.
Jorge- O que...
Eduardo- Jorge Bigge?
Ele virou a cabeça bruscamente.
Jorge- Quem é você?
Eduardo- Sou seu genro.
EMOÇÃO
QUANDO ELE ENGOLIU em seco, vi o seu pomo-de-adão subir e descer por
toda a extensão da garganta.
Jorge- Meu o quê?
Eduardo- Seu genro. Sou o marido de Helena.
Ele respirou bem fundo e deixou o ar escapar lentamente.
Jorge- Acha que eu sei do que está falando?
Eduardo- Eu acho que sim. O senhor é Jorge Bigge.
Outra respiração profunda. A seguir:
Jorge- Eu sou Jorge Sloan.
Eduardo- Acredito que seja mesmo. Mas também acho que seja Jorge Bigge,
que foi casado com Vilma Bigge, que teve duas meninas, uma por nome de Kelly e
outra por nome de Helena, ate uma noite de 1983, quando alguma coisa terrível
aconteceu.
Ele desviou o olhar, fixando na cortina.
Jorge- Eu estou morrendo.
Eduardo- Então talvez tenha chegado a hora de confessar algumas coisas.
Jorge- (virou para mim) Diga-me o seu nome.
Eduardo- Eduardo. Eduardo Archer. Qual o seu nome?
Jorge- Jorge. Sempre fui Jorge. (abaixou os olhos) Jorge Sloan. Jorge
Bigge. (fez pausa) Tudo dependia de onde eu estivesse na época.
Eduardo- Duas famílias?
Conseguir distinguir um sim com a cabeça. Conseguir me lembrar algumas
das coisas que Helena me contara a respeito do pai. Vivia viajando. Atravessa o
país. Passava poucos dias em casa.
Jorge- (de repente ilumina um pensamento) Helena. Ela está aqui? Está
com você?
Eduardo- Não. Eu não... Eu não sei exatamente onde ela está no momento.
Talvez esteja de volta em nossa casa, em Mil Ford. Com nossa filha, Julia.
Jorge- Julia. Minha neta.
Eduardo- Sim. (sussurrei, enquanto uma sombra passava pelo corredor) Sua
neta.
Jorge fechou os olhos por um instante como se sentisse dor.
Jorge- Minha filha. Onde está minha filha?
Eduardo- Kelly?
Jorge- Não, não. Não Kelly. Kéti.
Eduardo- Acho que deve está chegando de Mil Ford.
Jorge pareceu despertar.
Jorge- O que ele está fazendo lá?
Eduardo- Eu não compreendo. Kéti e Kelly não são as mesmas pessoas?
Jorge- (olhando para mim) Não. (fez pausa) Kelly está morta.
Eduardo- Quando? Quando Kelly morreu?
Jorge- Naquela noite. (resignando) Com a mãe.
Então eram mesmo os dois. No carro, no fundo da pedreira.
Eduardo- Vilma e Kelly. Então estão mortos.
Os olhos de Jorge se fecharam outra vez.
Jorge- Você precisa me contar o que Kéti foi fazer em Mil Ford.
Eduardo- Eu não estou bem certo, mas acho que está nos vigiando.
Vigiando a nossa família. Não posso dizer com certeza, mas acho que talvez
tenha matado a tia de Helena, Tereza.
Jorge- Oh, meu Deus! A mãe de Vilma? Está morta?
Eduardo- Foi esfaqueada até a morte. E o homem que contratamos para que
descobrisse algumas coisas também foi morto.
Jorge- Isto não pode está acontecendo. Ela disse que minha Kéti havia
arranjado um emprego. Na Costa Oeste.
Eduardo- O quê?
Jorge- Edna. Ela disse que Kéti tinha arranjado um emprego em... em
Seattle, ou algo assim. Que era uma oportunidade. Disse que ela tinha de ir.
Que ela voltaria e me veria logo. Kéti, ela é... Ela não tem culpa do que é.
Edna a transformou no que é. Kéti faz tudo o que a mãe manda. Ela a envenenou
contra mim desde o dia em que nasceu. Ela diz para mim: “Agüente só mais um
pouquinho”. É como se não se importasse que eu morra. Só não quer que eu morra
ainda. Está aprontando alguma coisa.
Eduardo- E por que ela não iria querer que você soubesse?
Jorge- Ela deve ter visto.
Eduardo- Visto o quê? O quê?
Jorge- Meu Deus. Se Edna souber...
Eduardo- Se Edna souber o quê? Do que você está falando?
Jorge- Estou morrendo... Ela... Ela deve ter ligado para o advogado.
Nunca foi minha intenção que ela visse o testamento antes de eu morrer... As
minhas instruções foram muito especificas.
Eduardo- Testamento?
Jorge- O meu testamento. Eu o mudei. Quando eu morrer, minha herança,
tudo meu irá para Helena... Edna e Kéti não ficarão com nada, que é o que elas
merecem. (ele olhou para mim) Você não tem idéia do que elas são capazes.
Eduardo- Kéti está viajando e Edna está numa cadeira de rodas, ela não
pode fazer nada contra você.
Jorge- Ela vai conseguir fazer sozinha desta vez...
Eduardo- Fazer sozinha o quê?
Jorge- Esquece. Mas Kéti está voltando para cá?
Eduardo- Foi o que Edna disse para nós.
Jorge- “Nós”? Achei que você tivesse dito que Helena não veio com você.
Eduardo- E não veio mesmo. Eu vim com um homem chamado Juan Fleming.
Jorge ponderou sobre aquele nome.
Jorge- Juan Fleming. (repetiu baixinho) Era o garoto com quem ela estava
naquela noite.
Eduardo- Isso mesmo. Ele está me ajudando. Está com Edna agora.
Certificando-se de que ela não vai ligar para Kéti para lhe contar que estamos
aqui.
Jorge- Mas Kéti está voltando, já deve ter feito o que foi fazer.
Eduardo- Fazer o quê?
Jorge- Helena está bem? (um desespero invadiu o seu rosto) Está viva?
Eduardo- É claro que está viva!
Jorge- E sua filha? Julia? Ainda está viva?
Eduardo- Você está me deixando preocupado ainda mais. Elas estão bem.
Jorge- Por que se alguma coisa acontecer com Helena, tudo irá para
qualquer filho... Está tudo muito bem explicado. Kéti e Edna estão tentando
matar Helena para que a herança seja para eles.
Eu então passei a relembrar alguns momentos da tal mulher que perseguia
Julia quando ia a escola e a observava quando ia dormir.
Senti o meu corpo tremer. Quantas horas já não se passaram desde que eu
falara com Helena? Tirei o celular do bolso e digitei o numero de casa.
Eduardo- Por favor, por favor, me confirme que você decidiu voltar para
casa. (eu falava baixinho. O telefone tocou uma, duas, três vezes. Na quarta
vez a secretaria eletrônica atendeu.) Helena, você precisa ligar para mim
imediatamente. É uma emergência.
Terminei a ligação e tentei o celular dela. Deixei mais ou menos a mesma
mensagem, mas acrescentei: “Você tem de me ligar.”
Jorge- Onde ela está?
Eduardo- Eu não sei.
Disquei outro numero. Tiraram do gancho e, a seguir limparam a garganta.
Leandro- Alô.
Eduardo- Leandro. É Eduardo.
Leandro- Certo. Eu já sei. Você encontrou Helena?
Eduardo- Não. Mas encontrei outra pessoa.
Leandro- Quem?
Eduardo- Ouça, não tenho tempo para explicar, mas preciso que você
encontre Helena. Vá até a nossa casa e veja se o carro dela está lá. Comece
ligando para todos os hotéis. Faça qualquer outra coisa que lhe ocorrer.
Leandro- Eduardo, o que está acontecendo? Você achou quem?
Eduardo- Leandro, eu encontrei o pai dela.
Leandro- Eu... Eu não acredito. O que foi que lhe disse? Ele lhe contou
o que aconteceu?
Eduardo- Nós apenas começamos. Eu lhe conto tudinho assim que puder. Mas
você precisa procurar Helena.
Leandro- Está certo. Eu vou atrás dela.
Eduardo- E Leandro, deixe que eu conte. Sobre o pai dela. Ela vai querer
fazer um milhão de perguntas.
Encerrei a ligação.
JORGE REVELA O PASSADO
Eduardo- Minha mulher e minha filha estão correndo perigo de vida.
Jorge- Por causa desse testamento. A Edna mataria as duas para que a
herança ficasse com ela.
Eduardo- Mas isso é loucura. Um homicídio duplo chamaria muita atenção.
A policia reabriria o caso, começaria a remexer o que aconteceu há vinte e
cinco anos atrás.
Eu parei por aí.
Um homicídio atrairia muita atenção. Sem duvida. Mas um suicídio... Algo
assim atrairia pouca atenção. Especialmente quando a mulher que cometeu o
suicídio esteve sob tanta pressão nas ultimas semanas. Uma mulher que havia
chamado a policia para investigar o aparecimento de um chapéu estranho na sua
casa. Uma mulher que também entrara em contado com a policia porque havia
recebido um bilhete avisando onde podia encontrar os corpos da mãe e da irmã
desaparecidos. Um bilhete que havia sido digitado numa maquina de escrever
dentro da sua própria casa. Uma mulher nessas condições que se matasse? Bem,
não era difícil entender do que se tratava. Era culpa. A culpa com que ela
devia ter vivido por muito tempo. Uma mulher tão dominada pela culpa que não
seria surpresa se tirasse a vida da filha com a sua.
Jorge- O quê? Do que está falando?
E se fosse verdade que Kéti andara nos espionando durante semanas,
seguindo Julia até a escola? Que tinha observado no shopping? Da rua, na frente
da nossa casa? Será que ela havia entrado na nossa casa um dia, quando nos
descuidamos, levando a chave sobressalente para poder entrar e sair quando bem
entendesse? Para deixar aquele chapéu. Saber o nosso e-mail. Escrever o bilhete
em nossa maquina, guiando Helena até os corpos da mãe e da irmã...
Balancei a cabeça levemente. Tudo aquilo me parecia diabólico demais.
Eduardo- (para Jorge) Eu preciso que você me conte tudo.
Ele respirou bem fundo.
Jorge- Leve-me até minha filha. Deixe que eu me despeça dela. Leve-me
até ela e eu lhe contarei tudo.
Eduardo- Não posso. Você pode morrer.
Jorge- Vou morrer de qualquer forma. Vamos. As minhas roupas estão no
armário. Vá pegá-las.
Caminhei até o armário, mas parei.
Eduardo- Mesmo que eu quisesse, nunca vão deixá-lo sair do hospital.
Jorge- Vamos tentar. Eu não quero ficar aqui. Ela é um monstro. Tenho
tão pouco tempo de vida. Não há limite para que Edna seja capaz de fazer.
Eduardo- Ela não vai fazer mais nada. Não com Juan a vigiando.
Jorge- Você foi a nossa casa, certo?
Eu concordei.
Jorge- Ela lhe pareceu com medo.
Eduardo- Não exatamente.
Jorge- Você não olhou debaixo da manta, olhou?
TIREI O CELULAR outra vez.
Eduardo- Vamos logo, atenda.
Eu falava sentindo uma imensa ansiedade me invadir.
Jorge- Ele não está atendendo?
Perguntou Jorge descendo as pernas pela lateral da cama.
Eduardo- Não. Eu preciso voltar lá.
Jorge- Só um minuto.
Pediu ele, sentando na beira da cama. Eu fui até o armário, encontrei
meias e cuecas, uma calça comprida, uma camisa e um paletó de tecido leve.
Eduardo- Você tem certeza de que é isso que quer?
Ele fez que sim.
Jorge- Se existe alguma chance de eu poder ver Helena, eu vou encontrar
forças.
- O que está acontecendo aqui?
Nós dois nos viramos para a porta. Havia uma enfermeira parada na
soleira: uma mulher negra de porte elegante, na metade dos quarenta, a
expressão de mais completa incredulidade no rosto.
- Sr. Sloan, o que pensa que vai fazer?
Jorge- Eu estou me vestindo.
- Isso está completamente fora de cogitação. Será que eu vou ter que
ligar para os médicos no meio da noite?
Jorge- Faça o que quiser.
- A minha primeira ligação vai ser para a segurança.
Ela sai correndo.
Eduardo- Eu sei que é pedir muito, mas você vai ter que se
apressar. Vou ver se consigo uma cadeira de rodas.
Fui até o corredor, avistei uma cadeira vazia e a empurrei até o quarto
de Jorge.
Jorge- Estou pronto.
Ainda estava abotoando a camisa, mas o paletó estava vestido. Ele
parecia um idoso sem teto.
Cheguei a cadeira bem perto para que ele pudesse arriar o corpo sobre
ela. Girei-o e partimos em direção aos elevadores.
Eu estava tão cheio de adrenalina que não parei pra pensar no que estava
fazendo. Fui empurrando Jorge até a porta do carona do Dodge. Tirei as chaves,
destranquei a caminhonete com o controle remoto, abri a porta. O utilitário era
alto, então tive de ajudar Jorge a subir no assento.
Os pneus da picape cantaram quando saí em disparada do
estacionamento, pegando outra vez a rodovia. Jorge, já aparentando exausto,
disse:
Jorge- Precisamos voltar a minha casa.
Eduardo- Eu sei. Eu preciso saber por que Juan não está atendendo ao
telefone.
Jorge- E há algo que preciso pegar antes de irmos ver Helena.
Eduardo- O quê?
Jorge- (faz um aceno muito débil em minha direção) Depois.
Eduardo- Vão chamar a policia. Eu praticamente seqüestrei um paciente.
Forcei a minha caminhonete a mais de 140 km/h a caminho de Youngstown.
Tentei contatar Juan outra vez pelo telefone, ainda sem o menor sucesso. Já
estava chegando ao fim da minha bateria.
Percorri a rua principal, dobrei a esquerda, rumei para o sul por alguns
quilômetros e desci a rua em direção a casa dos Sloans.
Parei a caminhonete no quintal dos fundos, onde não poderia ser
vista da rua, apaguei os faróis e desliguei o motor.
Jorge- Vá em frente. Vá logo ver o que aconteceu com seu amigo. Eu tento
alcançá-lo.
Saltei rápido, corri até a frente da casa e forcei a porta de entrada.
Estava destrancada.
Eduardo- Juan! (gritei, entrando no saguão. Não vi Edna, nem a sua
cadeira, nem Juan.) Juan!
Não até chegar a cozinha.
Edna não estava lá, nem a sua cadeira de rodas. Mas Juan estava deitado
no chão com as costas da blusa vermelha de sangue.
Eduardo- Juan. (exclamei, ajoelhando-me ao seu lado. Ele deixou escapar
um gemido suave) Oh, Deus! Cara, você está vivo.
Juan- Eduardo. (sussurrou) Edna tinha uma arma debaixo da manta.
Eduardo- Não fale. Vou ligar para a emergência.
Encontrei o telefone e digitei os três números.
Eduardo- Um homem foi baleado.
Avisei. Gritei o endereço no aparelho, pedi a atendente que corressem,
ignorei as outras perguntas que ela fez e desliguei.
Juan- Ela chegou em casa. (falou Juan quando me ajoelhei ao seu lado
outra vez) Kéti... Edna foi encontrá-la na porta, nem o deixou entrar... Disse
a ela que tinha de partir na mesma hora... Ela ligou para Kéti... Depois de
atirar em mim, mandou que ela pisasse no acelerador.
Na porta da frente, ouvi Jorge entrar em casa com dificuldade,
arrastando os pés.
Juan- Dói muito. Que velhinha maldita!
Eduardo- Você vai ficar bem. Agüente firme.
JORGE DISSE:
Jorge- Edna nunca atende a porta sem uma arma debaixo da manta.
Principalmente quando está em casa sozinha.
Eu estava com aboca perto do ouvido de Juan.
Eduardo- Nós temos de ir. Temos de ir atrás de Edna e de Kéti. Elas vão
atrás de minha mulher e minha filha.
Juan- Faça o que tem que fazer.
Olhei para o relógio da parede. Era 1h06.
Eduardo- Você acha que elas estão quanto tempo na nossa frente?
Jorge- Seja lá quanto tempo for já é muito. Mas tem uma coisa que
preciso levar comigo. Só não acho que ainda tenha forças para ir até lá em
baixo pegá-la.
Eduardo- Diga o que é.
Jorge- NO porão, você vai encontrar uma bancada. Há uma caixa de
ferramentas em cima dela. Logo no alto, tem uma bandeja removível, é só
levantar. Eu quero o que está preso com fita debaixo dessa bandeja.
ENVELOPE
ERA UM ENVELOPE. Um envelope tamanho carta, sujo e manchado, preso com
umas tiras amarelas de fita adesiva. Retirei o envelope.
Jorge- Encontrou?
Eduardo- Encontrei.
Peguei o envelope selado, virei nas mãos. Não havia nada escrito.
Entreguei para Jorge.
TIVE UMA ULTIMA conversa com Juan.
Eduardo- A ambulância deve chegar aqui a qualquer momento. Você vai
ficar bem.
Juan- Vá salvar a sua mulher e sua filha. Tem uma arma na caminhonete.
Eu toquei a testa dele.
Eduardo- Você vai ficar bem.
Juan- Vá.
Para Jorge perguntei:
Eduardo- Aquele Honda, o da estrada de acesso, funciona?
Jorge- É claro. (apontou para um pequeno pires, próximo a porta) As
chaves devem estar ali.
Eduardo- Só um segundo.
Corri até os fundos da casa e abri a picape Dodge. No fundo do console
central, debaixo de uma pilha de mapas, encontrei a arma. Usando as chaves de Jorge,
abri o Honda, sentei-me no banco do motorista e pus a arma no porta-luvas. Dei
partida no carro.
Jorge saiu da casa e deu passos hesitantes em minha direção. Eu saltei,
dei a volta no carro correndo, abri a porta do carona e o ajudei a se acomodar.
Eduardo- Muito bem. (voltando e sentando no banco do motorista) Vamos
embora.
Desci até a rua, dobrei a direita e segui para o norte.
Jorge- Bem na hora.
Disse Jorge. Uma ambulância, seguida de perto por dois carros da
policia, com as luzes piscando, mas sem sirene, corriam na direção sul.
Eduardo- Agora eu quero ouvir a historia toda.
Jorge- Está certo.
Disse ele. E limpou a garganta, preparando-se.
O PASSADO DE JORGE SLOAN E JORGE BIGGE
O CASAMENTO foi fundamentado numa mentira. O primeiro casamento, explicou
Jorge. Bem, o segundo também. Mas ele chagaria a esse logo, logo. Seria uma
longa viagem até Connecticut. Tempo suficiente para cobrir tudo.
Mas ele falou sobre o casamento com Edna primeiro. Uma garota que
conhecera no ensino médio, em Tonawanda, cidadezinha dos arredores de Buffalo.
Eles haviam começado a sair, e ele percebeu que ela estava acostumada a
conseguir o que queria. E usara isso em seu favor. Era atraente, tinha um corpo
magnífico e um apetite sexual voraz.
Certa noite, com os olhos cheios de lagrimas, ela lhe disse que a
menstruação estava atrasada.
A primeira coisa em que pensou foram os pais, no quanto iriam ficar
envergonhados. Não havia muito a fazer senão se casarem. E imediatamente.
Dois meses depois ela disse que não estava se sentindo bem e que iria
marcar uma hora com o clinico geral, Dr. Douglas. Foi ao medico sozinha, voltou
para casa e disse que o perdera. O bebê se foi. Muitas lagrimas. Um dia, Jorge
estava numa lanchonete, avistou o Dr. Douglas, aproximou-se e disse:
Jorge- O fato de Edna ter perdido o bebê não quer dizer que ela não vai
poder ter outro, não é mesmo?
Ao que o Dr. Douglas responde: “HEIN?”
Naquele momento ele teve uma idéia de com quem estava lidando. Com uma
mulher que diria qualquer coisa, qualquer tipo de mentira, para conseguir o que
queria. Ele deveria tê-la deixado naquela ocasião. Mas Edna lhe pediu perdão,
disse que achava que estava mesmo grávida, mas que ficara com medo de ir ao
medico para confirmar e que, no fim, estava mesmo enganada. Jorge, mais uma
vez, se preocupou com a vergonha que causaria a ele próprio e a família se
deixasse Edna e entrasse com um pedido de divorcio.
Quanto mais tempo foi ficando, mas difícil era partir. Logo ele aprendeu
que o que Edna queria, Edna conseguia. E quando não conseguia, a vida se
transformava num inferno. Gritava, quebrava as coisas. Ele arranjou um emprego
em vendas. Isso o faria ter de percorrer o país todo, um corredor que ligava
Chicago a Nova York, passando por Buffalo. Teria de passar muito tempo fora. Para
Jorge, essa era a maior vantagem do emprego. Uma folga das queixas e da
gritaria. Ele sempre teve pavor de viagem de volta para casa. A única coisa que
fazia o retorno valer a pena era o setter irlandês, Flynn. O cão sempre ia ao
encontro do carro de Jorge, como se tivesse ficado esperando na varanda desde o
momento em que partira até o da sua volta.
Então ele engravidou. Dessa vez, de verdade. Uma menina. Kéti. Como ela
amava aquela menina. Jorge também a amava, mas logo se deu conta de que era uma
competição. Edna queria o amor da menina com exclusividade e iniciou, do
instante em que Kéti começou a caminhar, uma campanha para envenenar o
relacionamento de pai e filho.
Jorge só pensava em sair de casa. Uma vez, antes de partir para uma das
suas viagens de vendas, disse que precisava conversar com ela.
Jorge- Eu não estou feliz. Acho que não está bom assim.
Edna não chorou. Ela não perguntou que havia de errado. A única
coisa que fez foi se levantar, chegar bem perto dele e olhar dentro dos seus olhos.
E a única coisa que disse foi:
Edna- Você nunca vai me deixar.
E saiu da sala. Ele pensou naquilo durante a viagem. Isso é o que nós
vamos ver, disse para si mesmo. Isso é o que nós vamos ver.
Quando chegou, o cachorro não foi recebê-lo. Quando abriu a porta da
garagem, lá estava Flynn, com uma corda em volta do pescoço, pendendo do caibro
do teto. A única coisa que Edna lhe disse foi:
Edna- Ainda bem que era só um cachorro.
Por mais que ela amasse Kéti. Queria que Jorge acreditasse que a
menina corria risco de vida caso ele algum dia decidisse deixá-la. Jorge se
resignou a uma vida de tristeza e humilhações.
Certa vez, Jorge. Foi para Mil Ford. Procurava novos clientes. Entrou
numa farmácia para comprar uma barra de chocolate e uma mulher por trás do
balcão chamou sua atenção. Ela usava crachá com o nome de “Vilma”.
Era linda. Cabelos vermelhos. Pareceu-lhe tão boa. Tão verdadeira. Ele
se demorou muito comprando aquela barra de chocolate. Ficou batendo papo sobre
o tempo, sobre como passava a maior parte da vida na estrada. E depois, antes
mesmo de se Dra conta do que estava fazendo, disse: “Você quer almoçar comigo?”
Vilma sorriu e lhe disse que, se ele quisesse voltar dali a trinta
minutos, ela teria uma hora de folga.
VILMA LHE DISSE, enquanto comia um sanduíche de atum, num café das
redondezas, que não costumava almoçar com homens que acabava de conhecer, mas
que algo nele a intrigava. Ele lhe disse que seu nome era Jorge Bigge.
Nos meses que se seguiram, se as viagens de trabalho o levavam ao sul,
até Torrington, ele percorria um pouco mais de chão, esticando o percurso mais
ao sul, até Mil Ford, para ver Vilma. Ela o adorava. E o fazia sentir
importante.
Que maravilha seria ser feliz pelo menos metade do tempo. Vilma aceitou
quando ele a pediu em casamento. Ele teve de enganar Vilma, mas tentou
compensá-la, sendo bom para ela. Pelo menos quando estava em casa. Ela lhe deu
dois filhos, Kelly e Helena. Jorge fazia um assombroso numero de malabarismo.
Uma família em Connecticut. Uma família em Nova York. Idas e vindas entre as
duas.
Quando ele era Jorge Bigge, não conseguia parar de pensar em quando
teria de voltar a ser Jorge Sloan. E, quando era Jorge Sloan, não conseguia
parar de pensar em pegar a estrada para se tornar Jorge Bigge.
Tudo o que dizia respeito a sua vida era falso. O primeiro casamento foi
fundamentado sobre a mentira contada por Edna. O segundo foi fundamentado sobre
as mentiras que ele contara a Vilma.
ESTÁVAMOS MANTENDO um bom ritmo na rodovia. Já eram quase quatro da
manhã e nos aproximávamos de Albany. Achei que talvez fosse hora de avisar a
Madalena Wedmore o que estava acontecendo. Vasculhei o bolso da frente da calça
e encontrei o cartão que ela me dera. Digitei o numero do celular da detetive
Madalena. Ela atendeu no quarto toque.
Madalena- Madalena Wedmore.
Disse ela. Tentava com muito esforço, parecer desperta e alerta.
Eduardo- Sou eu Eduardo Archer.
Madalena- O que aconteceu?
Eduardo- Eu vou lhe contar algumas coisas muito rapidamente. Estou
falando de um celular quase sem bateria. A senhora precisa encontrar a minha
mulher. Duas mulheres mãe e filha. Querem matar ela. Uma se chama Kéti Sloan e
a mãe Edna Sloan, estão a caminho de Connecticut, vindos de Buffalo. Acredito
que a intenção delas seja encontrar Helena e fazer exatamente o que eu lhe
disse.
Madalena- Onde estão agora?
Eduardo- Na rodovia New York Thruway. A senhora conhece Juan Fleming,
não é mesmo?
Madalena- Conheço.
Eduardo- Eu o deixei numa casa, em Youngstown, no norte de Buffalo.
Estava tentando me ajudar. Foi baleado por Edna.
Madalena- Nada disso está fazendo o menor sentido. Essa menina Kéti
Sloan e a mãe? Estão em que tipo de carro?
Eduardo- Um carro marrom...
Jorge- Um Impala. (sussurrou Jorge) Um Chevy Impala.
Eduardo- Um Impala. (concluí) Um Chevy Impala.
Madalena- Beleza. Você está voltando pra cá?
Eduardo- Estou. Chego daqui a algumas horas. Saia à procura dela. Eu
preciso ir.
Fechei o telefone e guardei no paletó.
Eduardo- Então? (voltei-me para Jorge) Conte-me mais sobre tudo.
Jorge se permitiu voltar ao tempo outra vez.
Se havia momentos de felicidade, só ocorriam quando ele era Jorge Bigge.
Ele adorava ser pai de Kelly e Helena.
Jorge foi contando e contando a sua longa historia pra mim.
A PRIMEIRA PARTE DA HISTORIA eu conhecia por Helena. Como Jorge a
encontrara no carro com Juan Fleming e a levara para casa.
Jorge- Ela ficou furiosa. (confirmou Jorge) Disse que queria que
estivéssemos mortos. Subiu correndo para o quarto, e não ouvi mais um único pio
vindo dela. Estava bêbada.
Eduardo- Eu sei.
Jorge- Um pouco antes de eu voltar com Helena, Kelly tinha pedido que eu
ou Vilma a levássemos para comprar cartolina, tinha deixado um projeto da
escola para a ultima hora e precisava de uma folha para alguma apresentação. Já
era tarde e Vilma se lembrou de vendiam cartolina numa farmácia que ficava
aberta vinte e quatro horas, então disse que a levaria até lá.
Ele olhou para a janela quando passávamos por uma carreta.
Jorge- Kelly e a mãe ficaram fora um bom tempo. Deve ter sido quase uma
hora. A farmácia não ficava tão longe assim. Então o telefone tocou. Era Edna,
ligando de um telefone público. Ela disse: “Adivinhe quem é?”
Jorge- Ah, Deus! Eu exclamei. Aquele era um telefonema que, de alguma
forma, eu vinha esperando. Mas não podia imaginar o que ela havia feito. Ela me
disse que a encontrasse no estacionamento da lanchonete Denny´s. Eu saí
correndo de casa e a encontrei lá. Ela estava sentada dentro do carro. Não
podia sair.
Eduardo- Por quê?
Jorge- Não podia sair por aí coberta com tanto sangue sem chamar
atenção.
Subitamente eu Eduardo senti muito frio.
Jorge- Corri até a janela do carro dela. Ela baixou o vidro e me mandou
entrar. Eu entrei e pude ver o que a cobria por inteiro: Sangue. Eu gritava
para ela: “Que diabos você fez?” Mas eu já sabia a resposta. Edna ficara
estacionada na frente da nossa casa. Tinha visto o endereço na conta
telefônica. Foi juntando as peças. Então Vilma e Kelly saíram no carro e ela os
seguiu. A essa altura, devia estar cega de ódio. Deve ter se dado conta de que
eu tinha outra vida, outra família. Da mesma maneira que anos mais tarde, Edna
mantinha uma arma a Mao em caso de emergência, naquele tempo ela mantinha uma
faca no portas-luvas. Pegou-a, correu em direção a farmácia, escondeu-se na
curva da esquina, encoberta pelas sombras. Era um beco largo, usando por
caminhões de entrega. Kelly e Vilma saíram da loja. Edna emergiu da escuridão.
- Socorro! Gritou Edna. – Minha filha! Está ferida!
Vilma correu ao seu encontro, Kelly foi atrás. Edna os conduziu alguns
passos em direção ao beco , virou-se para Vilma e perguntou:
Edna- Você, por acaso, não é mulher de Jorge, é?
Ela respondeu que sim. Então a faca subiu e lhe retalhou a garganta.
Edna não esperou nem um segundo. Enquanto Kelly tentava decifrar o que havia
acontecido, ela já o atacava, cortando a sua garganta com a mesma rapidez com
que cortara a de sua mãe.
Eduardo- Edna lhe contou isso tudo?
Jorge- Muitas e muitas vezes. Ela adorava falar nesse assunto. Até hoje.
Chama isso de entregar-se a reminiscências.
Eduardo- O que aconteceu então?
Jorge- Ela foi até um telefone publico mais próximo e me ligou. Eu
apareci, encontrei-a no carro e ela me contou o que havia feito. “Eu os matei”,
disse ela. “A sua mulher e sua filha. Estão mortos.”
Eduardo- Ela não sabia que você tinha uma filha.
Jorge- Sim, deu para perceber, pelo jeito de ela falar, que não tinha a
menor idéia de que Helena ainda estava em casa, ou mesmo que existia.
Eduardo- E você não ia lhe contar.
Jorge- Eu estava em estado de choque, acho, mas tive alguma presença de
espírito. Ela deu partida no carro, foi até o beco e me mostrou os corpos.
“Você vai ter de me ajudar”, disse. “Temos de nos livrar deles.”
Jorge se deteve por um instante e passou o quilometro e meio seguinte
sem dizer uma única palavra.
Jorge- Eu poderia ter colocado um ponto final bem ali. Eu poderia ter me
recusado a ajudá-la.
Eduardo- Mas não fez nada disso.
Jorge- Ela sabia o que eu estava pensando.
Ele tossiu.
Jorge- Você já sabe o que aconteceu depois dali. Tivesse que me submeter
a obedecê-la. Alguns dias mais tarde. Andou acompanhando o noticiário, mas a
historia não teve muita cobertura nas emissoras ou nos jornais de Buffalo. Mas
foi o suficiente para Edna descobrir que eu tinha Helena, e que a jovem estaria
viva. Ela voltou para casa. Nunca a i tão enfurecida. Quebrava pratos, atirava
as coisas no chão. Estava completamente transtornada.
Eduardo- Mas teve de viver com isso.
Jorge- Não queria de inicio. Começou a fazer as malas para ir a
Connecticut eliminar Helena. Mas eu a detive.
Eduardo- Como consegui?
Jorge- Fiz um pacto com ela. Uma promessa. Disse a ela que nunca
tentaria entrar em contato com minha filha se ela lhe poupasse a vida.
Eduardo- E ela aceitou isso?
Jorge- Alguns dias sim. Outros não. E é por isso que hoje ela quer vingança.
Ela sabe da existência do testamento, sabe que eu posso morrer antes de ela
conseguir matar Helena e que ela pode perder tudo.
Eduardo- E, então, o que você fez? Simplesmente foi em frente?
Jorge- Eu parei de viajar. Arranjei outro tipo de emprego, abri o meu
próprio negocio. Edna deixou bem claro que não era mais para eu viajar. Desde
aquela noite, nunca mais coloquei os pés em Connecticut.
Eduardo- Então como foi que você fez o dinheiro chegar as mãos de
Tereza?
Jorge nada disse.
Eduardo- Foi você, não foi? Você desviou dinheiro para Helena e evitou
que Edna descobrisse.
Jorge- Edna suspeitou. Anos depois. Então eu lhe contei sobre ter
enviado dinheiro para Tereza, para ajudar com a instrução de Helena. Mas
mantive a minha palavra. Nunca mais entrei em contato com ela.
Eduardo- então Edna também alimentou esse rancor contra Tereza durante
todos esses anos.
Jorge- Ela a odiava por ter recebido o dinheiro que segundo ela, lhe
pertencia. Eram as duas mulheres que ela mais odiava no mundo, e nunca conheceu
nenhuma das duas.
Eduardo- Então. (provoquei) Essa historia de que você nunca mais voltou
a Connecticut, mesmo que não tenha voltado a ver Helena, não é verdadeira.
Jorge- Não. É verdade.
Pensei nisso enquanto continuávamos a dirigir noite adentro.
Eduardo- Bem, se você não mandou pelo correio e não entregou
pessoalmente, alguém deve ter feito isso por você.
Jorge permaneceu impassível. Fechou os olhos, encostou a cabeça no
descanso do assento, como se dormisse.
Eduardo- Eu tenho uma ultima pergunta. (pressionei) Fale sobre Carol
Meneses.
Seus olhos se abriram subitamente.
Jorge- Não conheço esse nome.
Eduardo- Deixa-me ver se consigo ajudá-lo. Ela era de Sharon; tinha
vinte e sete anos, e uma bela noite, há vinte e seis anos, estava caminhando
pelo acostamento, perto da ponte Cornwall, quando Foi atropelada. Mas não foi
atropelada e abandonada sem salvamento. O mais provável é que já estivesse
morta e que o acidente tenha sido encenado.
Jorge olhava pela janela e eu não conseguia ver o seu rosto.
Eduardo- Você admitiu um monte de coisas esta noite. Uma vida dupla. Ter
ajudado a encobrir o assassinato de sua mulher e da filha. Mas não quer me
contar sobre Carol Meneses e sobre como fez o dinheiro chegar às mãos de Tereza
Berman para ajudar a financiar a educação de Helena.
Jorge balançou a cabeça.
Eduardo- Jorge, você matou essa mulher?
Jorge- Não.
Eduardo- Você sabe quem a matou?
Jorge continuou a balançar a cabeça e, finalmente, disse:
Jorge- Acho que já houve vidas suficientes destruídas. Não há por que
arruinar mais alguma. Tenho mais nada a dizer sobre isso.
OUTRO DIA
Assim que a manhã chegou e o carro se encheu de luz, percebi que parecia
muito mais fraco desde que havíamos deixado o hospital. Então paramos em uma
lanchonete e lá pedimos um café bem reforçado. Mas não podíamos ficar ali
parado. Pegamos o café e entramos no carro para assim seguir a viagem. Foi
então que Jorge pediu:
Jorge- Fale-me sobre ela.
Eduardo- Como?
Jorge- Fale-me sobre Helena. Faz vinte e cinco anos que não a vejo.
Eu respondi:
Eduardo- Ela é maravilhosa; é a coisa mais maravilhosa que jamais me
aconteceu. Desde que a conheço, tenta lidar com o que você e Edna fizeram com
ela. Pense bem. Você acorda um dia e sua família desapareceu. (Agarrei o
volante com mais força, com raiva) Você tem alguma idéia de como deve ter sido?
Tem? O que ela deveria pensar? Que todos estavam mortos? Ou que vocês três
tinham decididos ir embora e começar uma vida nova, em algum outro lugar, uma
vida nova que não a incluía?
Jorge ficou perplexo.
Jorge- Ela achou isso?
Eduardo- Ela achou um milhão de coisas! Ela foi abandonada! Você não
entende? Se você tivesse sido homem desde o inicio, talvez nada disso tivesse
acontecido.
Jorge colocou o rosto entre as mãos e se encostou na porta.
Eduardo- Deixe-me fazer uma pergunta. (uma espécie de tranqüilidade se
apossava de mim) Que tipo de homem fica ao lado de uma mulher que assassinou a
sua própria filha? Uma pessoa assim pode ainda ser chamada de homem? Se fosse
eu, acho que eu mesmo a teria matado.
MENSAGEM DE HELENA
EU PRECISAVA de um pouco de ar e de esticar as pernas por dois segundos.
Além disso, queria ligar para casa outra vez. Tirei o celular do paletó, abri e
olhei o visor. Eu tinha uma mensagem.
-Oi, Eduardo, sou eu. – Helena. – Onde você está? Aconteceu uma coisa.
Uma coisa inacreditável. Nós estávamos hospedadas num hotel e eu pedi para usar
o computador do escritório. Verifiquei os meus emails e tinha outra mensagem
daquele endereço, o da data, lembra? Só que, dessa vez, tinha um numero de telefone
para eu ligar. Eu liguei e, Eduardo, você não vai acreditar no que aconteceu.
Foi a coisa mais incrível. Era a minha irmã. Minha irmã, Kelly. Ela me disse
que era a mulher do shopping, a mulher que eu achei que fosse a minha irmã. Eu
estava certa. Era Kelly! Eduardo, eu sabia!
Fiquei tonto. A mensagem continuava:
_ Kelly disse que sentia muito, mas que podia explicar tudo. Parece um
sonho. Finalmente vou poder ver Kelly outra vez. Espero que você entenda. Não
posso esperar. Tenho de ir já. Ligue para mim quando ouvir este recado. Julia e
eu vamos para Winsted para vê-lo agora. Eduardo é como seu um milagre tivesse
acontecido.
Winsted?
Nós estávamos em Winsted. E Helena e Julia estavam a caminho de Winsted?
Verifiquei há quanto tempo ela havia deixado o recado. Há quase três horas.
Comecei a fazer os cálculos. Havia uma boa chance de que Helena e Julia
já estivessem em Winsted. Pelas minhas estimativas, talvez já estivessem lá há
uma hora.
Por que aqui? Por que atraí-la para esta parte do estado?
Digitei o numero do celular de Helena. Eu precisava detê-la. Ela estava
caminhando para uma armadilha. Com Julia a tiracolo.
Levei o telefone ao ouvido. Nada. Meu telefone estava morto. Se tinha
vindo para Winsted, talvez ela ainda estivesse por aqui. Onde seria um lugar
fácil para o encontro? O McDonald´s onde primeira coisa chamativa que se via ao
sair da rodovia.
Corri de volta para o carro e entrei.
Jorge- O que está acontecendo?
Eduardo- Eu tinha uma mensagem de Helena. Kéti ligou para ela, disse que
era Kelly e pediu-lhe que fosse ao seu encontro. Exatamente aqui, em Winsted.
Tirei o Honda da vaga e dei uma volta pelo estacionamento a procura do
carro de Helena. Como não o vi, saltei do nosso, deixando o motor ligado, e
corri até a janela do drive-through.
-Ei, companheiro, você não pode vir até aqui. – Reclamou o atendente.
Eduardo- Nessa ultima hora, você viu uma mulher num Toyota com uma
garotinha?
-Você está brincando? – Perguntou o sujeito, entregando um saco de
comida para um motorista. – Tem idéia de quantas pessoas passam por aqui?
Eduardo- E que tal uma mulher com uma senhora idosa? (insisti) Um carro
marrom. Ela estava numa cadeira de rodas. Não, a cadeira de rodas devia estar
no banco traseiro. Dobrada.
Uma luz se acendeu em sua mente.
- Ah, sim – Respondeu ele. – Disso eu me lembro, mas já faz mais tempo,
talvez uma hora. Eu me lembro de ter visto a cadeira.
Corri de volta para Honda e me sentei ao lado de Jorge.
Eduardo- Kéti e Edna estiveram aqui.
Eu apertei o volante, soltei, apertei outra vez. Minha cabeça estava a
explodir.
Jorge- Você tem noção de onde estamos, não tem?
Eduardo- Como assim? É claro que tenho noção de onde estamos.
Jorge- Você sabe onde passamos na vinda para cá. Um pouco ao norte
daqui, alguns quilômetros. Eu reconheci a estrada quando passamos.
A estrada que levaria a Fell´s Quarry.
Jorge- Você ainda não entendeu? (insistiu Jorge) Faz sentido. Helena e
sua filha finalmente vão acabar no lugar onde Edna sempre achou que ela deveria
estar todos esses anos. Talvez as pessoas achem que Helena estava muito mexida
com tudo o que aconteceu, com a morte da tia. Então ela vai até o local e se
atira da borda.
Eduardo- Mas isso é loucura.
Jorge- Exatamente. E é a cara de Edna.
Eu quase bati num Beetle ao deixarmos o estacionamento para voltar pela
mesma direção da qual havíamos vindo.
EU ESTAVA a mais de 140 km/h.
Eduardo- O porta-luvas. (disse eu a Jorge) Abra,
Ele estendeu o braço com alguma dificuldade, abrindo o compartimento e
deparando com a arma que eu pegara da caminhonete de Juan. Tirou-a lá de dentro
e a inspecionou brevemente.
Eduardo- Fique com ela a mão até chegarmos.
Jorge concordou com a cabeça.
Jorge- Se ela estiver lá, se chegarmos a tempo, o que você acha que
Helena dirá para mim? (ele fez uma pausa) Eu preciso dizer a ela que sinto
muito.
Eu olhei para ele. Percebi, pela sua expressão, que, por mais tardio que
fosse, o pedido de perdão era genuíno.
Aquele era um homem que tinha de pedir perdão por toda uma vida.
Eduardo- Talvez você tenha essa oportunidade.
Jorge, mesmo no estado em que se encontrava, viu a estrada para a
pedreira antes de mim. Não tinha placa, e era tão estreita que teria sido fácil
passar direto.
Eduardo- Jorge, me dê a arma.
Pedi, ao descermos pela pista estreita. A alameda começou a sua subida
íngreme; as arvores foram se abrindo. A estrada, então, se nivelou até se
transformar numa pequena clareira, e, em sua extremidade, estacionados de
frente para uma ribanceira, estavam um Impala marrom à direita e o Toyota
Corolla prata de Helena à esquerda.
De pé, entre os dois, olhando para nós, estava Kéti Sloan. Ela segurava
alguma coisa na mão direita.
Ao erguê-la, percebi que era uma arma e, quando o pára-brisa do nosso
Honda se estilhaçou, eu soube que estava carregada.
PISEI NO FREIO e desliguei o carro; desatei o cinto de segurança,
abri a porta e me lancei para fora. Eu sabia que estava deixando Jorge por sua
própria conta, mas a essa altura eu só conseguia pensar em Helena e em Julia.
Eu me choquei contra o solo, rolei pelo mato alto e atirei, a esmo, para cima.
Queria que Kéti soubesse que eu também estava armado. Olhei ao redor,
procurando-a desesperadamente, até que a vi enfiar a cabeça pelo lado do
pára-choque dianteiro do Impala.
Eduardo- Kéti!
Gritei.
Helena- Eduardo!
Julia- Papai!
Helena e Julia gritando. A voz vinha de dentro do Toyota.
De dentro do Impala, outra voz.
Edna- Mate-o, Kéti! Atire nele! (Edna sentada no banco do carona) Faça o
que sua mãe está mandando.
Kéti- Mãe, eu não sei se posso... Eu nunca matei ninguém.
Edna- Então aproveite! Você está prestes a matar essas duas mesmo.
Eu podia ver a nunca de Edna, podia vê-la fazendo sinal em direção ao
carro de Helena.
Kéti- Eu sei, mas aí é só empurrar o carro. Isto é diferente.
Jorge já havia aberto a porta do Honda e se levantava lentamente.
Kéti- Volte para dentro do carro, papai.
Edna- Como? (gritou Edna) Ele está aqui? (Ela o viu pelo o retrovisor do
lado do carona) Seu velho estúpido! Quem foi que o deixou sair do hospital?
Ele foi caminhando com imensa dificuldade até i Impala. Ao chegar a
traseira do carro, colocou as mãos sobre a mala para se equilibrar. Parecia
prestes a desmaiar.
Jorge- Não faça isso, Edna.
Então veio a voz de Helena:
Helena- Papai?
Jorge- Olá, meu anjo. (tentando sorrir) Eu não sei como lhe dizer o
quanto sinto por tudo isso.
Helena- Papai? (repetiu ela. Incrédula)
Jorge- (para Kéti) Filha, você precisa colocar um fim nisso. Sua mãe,
ela está errada em arrastá-la para dentro desta historia, em levá-la a fazer
todas essas coisas tão ruins. Olhe para ela. (mandava Kéti olhar para Helena.)
Essa é sua irmã. Sua irmã. E essa garotinha é a sua sobrinha.
Kéti- Pai. Por que você vai deixar tudo para ela? Você nem a conhece.
Como pôde ser tão mau comigo e com mamãe?
Jorge suspirou.
Jorge- Nem tudo nesta vida se resume a vocês dois.
Eduardo- Kéti! (gritei) Jogue essa arma fora. Desista.
Ela se levantou de onde estava abaixada em frente do Impala onde se
escondia e atirou. Um torrão de terra saltou a minha direita e eu,
instintivamente, rolei para a esquerda.
Ouvi passos rápidos no cascalho. Kéti corria, aproximando-se de mim. Eu
parei de rolar, mirei na figura que se aproximava de mim e atirei. Mas errei e,
antes que eu pudesse atirar outra vez, Kéti chupou a arma voou para dentro da
grama.
O chute seguinte atingiu a lateral do meu corpo, as costelas. A dor
percorreu-me como um raio. Eu não conseguia recuperar o fôlego. Kéti se postou
sobre mim, olhando-me de cima desdém.
Edna- Atire nele!
Kéti ainda tinha a arma nas mãos, mas apenas ficou ali, segurando-a.
Jorge, continuando a usar a mala do carro como apoio, olhou para mim com os
olhos transbordando de tristeza.
Edna- Você não está ouvindo? Atire nele!
Kéti- Mamãe, talvez faça mais sentido colocá-lo no carro. Com as outras
duas.
Ela pensou naquilo.
Edna- Não. (resolveu) Não funciona. Elas têm de cair no lago sem ele. É
melhor assim.
Jorge, usando as mãos, uma por cima da outra, deslocava-se pela lateral
do Impala. Ainda parecia prestes a desfalecer.
Jorge- Eu... Eu acho que vou desmaiar.
Edna- Seu filho-da-mãe imbecil! Você deveria ter ficado no hospital e
morrido lá.
Kéti foi forçada a escolher entre ficar de olho em mim e correr para
ajudar o pai. Decidiu tentar as duas coisas.
Kéti- Não se mexa (disse, mantendo a arma apontada na minha direção
enquanto caminhava, de costas, para o Impala. Abriu a porta do lado do
motorista.). Sente-se. (Disse Kéti, olhando do pai para mim e outra vez para
ele.) Sente-se.
Jorge deu mais alguns passos, com grande dificuldade, e se deixou cair
no assento.
Eu consegui me colocar de pé e me aproximei do carro de Helena. Ela
estava no banco do motorista, Julia ao seu lado. Não dava para ter certeza, de
onde eu me encontrava, mas as duas estavam sentadas tão rigidamente que deviam
estar imobilizadas de alguma maneira.
Eduardo- Meu bem.
Os olhos de Helena estavam injetados, as faces riscadas de lágrimas já
secas.
Helena- Ela disse que era Kelly. Mas ela não é Kelly.
Eduardo- Eu sei. Eu sei. Mas aquele é o seu pai.
Helena olhou para a direita, para o homem sentado no banco da frente do
Impala e, a seguir, outra vez para mim.
Helena- Não. Ele pode até se parecer com ele, mas não é o meu pai. Não é
mais.
Jorge, que ouvira a conversa, deixou a cabeça pender sobre o peito em
sinal de vergonha. Sem olhar para Helena, disse:
Jorge- Você tem todo o direito de se sentir assim. A única coisa que eu
posso dizer é o quanto lamento por tudo. Mas não sou velho e tolo a ponto de
acreditar que você vai me perdoar.
Kéti- Afaste-se do carro. (advertiu Kéti, dando a volta pela frente do
Corolla de Helena com a arma apontada para mim.) vá para lá.
Edna- (dizendo para Jorge) Como foi que você teve coragem de fazer uma
coisa dessas? Como pôde deixar tudo para essa vadia? Eu abri mão de toda minha
vida por você, e é isso que eu ganho em troca.
Kéti- Ei, mãe. (começou Kéti. Ela estava de pé< ao lado da porta de
Helena.) Elas não deveriam estar desamarradas? Não tem de parecer que a
minha... que ela mesma fez isso?
Edna- Quer saber de uma coisa? (ignorando Kéti e voltando a atenção para
Jorge) Você nunca deu valor a nada do que fiz por você.
Kéti- Mamãe?
Kéti estava com uma das mãos na porta de Helena e, com a outra,
ainda apontava a arma para mim.
Então eu ouvi um carro dar a partida.
Era o Impala.
Edna- Que diabos você está fazendo? (gritou Edna para Jorge, que
continuava sentado no assento do motorista.) Desligue isto!
Mas Jorge não lhe deu ouvidos. Virou-se para a esquerda. Tinha um
sorriso leve no rosto. Parecia quase sereno. O Impala encontrava-se lado a lado
com o Toyota de Helena; ele fez um aceno com a cabeça para a filha e disse:
Jorge- Eu nunca, nunca deixei de amar você ou de pensar em você.
Edna- Jorge!
E, a seguir Jorge olhou para Júlia, seus olhos apenas visíveis acima da
porta.
Jorge- Gostaria de ter conhecido você, Júlia, mas eu sei, sem a menor
sombra de duvida, que, com uma mãe como Helena, você é muito, muito especial.
(olhou profundamente para Edna) adeus, sua velha infeliz.
Disse, passando a marcha do carro e pisando no acelerador.
O motor rugiu. O Impala deu um salto para frente e voou de cima do
penhasco.
Kéti- Mãe!
Gritou Kéti, correndo da frente do carro de Helena e colocando-se no
caminho do Impala como se achasse que pudesse detê-lo com o próprio corpo.
O carro atirou Kéti sobre o capô, e era onde ela se encontrava quando o
Impala, com Jorge ao volante e Edna gritando ao seu lado, voou de cima do
penhasco.
Foram apenas dois segundos até ouvirmos a pancada na água.
QUANDO TUDO ACABOU
TIVE DE TIRAR O HONDA de Jorge, com o pára-brisa estilhaçado do caminho
para conseguirmos sair dali com o Toyota de Helena. Ela foi para o banco de
trás para ir abraçada com Júlia durante a longa viagem rumo ao sul, até Mil
Ford.
Eu subia que, provavelmente, deveríamos ter ligado para a policia e
esperado lá no topo da pedreira até ela chegar, mas achamos que o mais
importante era levar Júlia o mais rápido possível para casa, onde ela se
sentiria segura. Jorge, Edna e Kéti não iriam a lugar nenhum.
Não conversamos muito durante o percurso. Acho que Helena e eu
pensávamos a mesma coisa: não queríamos discutir o que havia acontecido na
frente de Júlia. Ela simplesmente precisava chegar em casa.
Mas brevidade quase idêntica, contei a Helena o que eu descobrira. Falei
da minha viagem a Youngstown. Sobre ter encontrado o pai dela no hospital. Que
Juan Fleming fora baleado.
Mas algo não estava batendo bem. Eu não conseguia me livrar da lembrança
de Kéti de pé, acima de mim, com a arma na mão, sem conseguir puxar o gatilho
se tratara de Tereza tia de Helena. Ou Octavio Abagnall.
O que foi mesmo que Kéti tinha dito para a mãe enquanto estava postado
sobre mim? “Eu nunca matei ninguém.” É, foi isso mesmo. Mas agora eu me
pergunto; quem mataria a tia de Helena e o detetive que contratamos?
CHEGANDO EM CASA E A SURPRESA
UMAS DUAS HORAS mais tarde chegamos em casa. Assim que viramos na nossa rua,
vi o carro de Madalena Wedmore na frente da nossa casa, estacionado no
meio-fio. Logo que viu o nosso carro, ela saltou. Estava à minha espera perto
do carro assim que abri a porta.
Seu rosto se suavizou ao ver a minha expressão de dor enquanto eu
saía do carro lentamente. Eu estava mesmo morto de dor.
Madalena- O que aconteceu com você? Você está péssimo.
Eduardo- E é exatamente como me sinto. (tocando um dos ferimentos com
cuidado) Levei uns chutes de Kéti Sloan.
Madalena- E onde ela está agora?
Abri a porta de trás e, embora algumas das costelas me dessem a
impressão de que iriam ceder a qualquer instante, peguei Grace, adormecida, no
colo para levá-la para dentro de casa.
Eduardo- Vem, eu conto tudo pra senhora.
Helena correu na minha frente para destrancar a porta. Madalena nos
seguiu casa adentro.
Não conseguindo carregar mais Julia, eu a deixei ali deitada no
sofá da sala. Depois de agasalhar minha filha no sofá eu e Helena contamos a
historia praticamente toda para dona Madalena.
Madalena- Bem, essa é uma historia e tanto.
Eduardo- Se é. Mas, se eu fosse inventá-la, pode acreditar que teria
criado alguma coisa mais verossímil.
Madalena- Vou dar uns telefonemas, providenciar os mergulhadores, volto
mais para o fim da tarde.
Ela se foi e Helena disse que ia tentar ficar mais apresentável outra
vez. O carro de Madalena partiu apenas um minuto quando ouvi outro veiculo
parar na frente da nossa casa. Abri a porta quando Leandro, usando um casaco
longo, chegou ao primeiro degrau.
Leandro- Eduardo!
Exclamou. Levei um dedo aos lábios.
Eduardo- Julia está dormindo.
Avisei. Fiz sinal para ele me segui até a cozinha.
Leandro- Então quer dizer que você as encontrou? Helena também?
Fiz que sim com a cabeça.
Leandro- E você encontrou o pai dela? Você encontrou Jorge. É incrível
que ainda esteja vivo, depois de todos esses anos.
Eduardo- Você não está se perguntando a respeito de Vilma também? Ou de
Kelly? Não está curioso para saber o que aconteceu com elas?
Os olhos de Leandro dardejaram.
Leandro- Sim é claro que estou. Eu já sei que foram encontradas na
pedreira.
Eduardo- É, é verdade. Mas com relação a todo o resto, sobre quem os
matou, imagino que você já saiba. Senão teria perguntado.
Leandro fechou a cara.
Eduardo- Leandro, foi você quem entregou o dinheiro?
Leandro- Como?
Eduardo- O dinheiro. Para Tereza. Para custear a educação de Helena. Foi
você, não foi?
Ele passou a língua pelos lábios, mostrou nervosismo.
Leandro- O que Jorge lhe contou?
Eduardo- O que você acha que ele me contou?
Leandro se afastando de mim.
Leandro- Ele lhe contou tudo, não foi? O filho-da-mãe. Ele jurou que
nunca contaria. (balança a cabeça com raiva) Eu estou tão perto. Tão perto de
me aposentar. Ele lhe contou a respeito de Carol, não contou? Sobre o acidente.
Eu não disse nada.
Leandro fica desesperado.
Eduardo- Como ela foi parar naquela vala?
Leandro- Ela entrou no meu carro e transamos, quando acabamos ela me
pediu cinqüenta dólares. Eu disse que, se ela era prostituta, deveria ter
deixado claro desde o inicio. Ela começou a discutir comigo, ainda perto do
carro, e eu acho que lhe dei um empurrão com um pouco mais de força, ela
tropeçou, a cabeça bateu no pára-choque e pronto.
Eduardo- Ela estava morta.
Leandro engoliu em seco.
Eduardo- Você acabou matando a garota. Meu Deus!
Leandro- Nem uma noite se passa sem que eu pense nisso, Eduardo. Foi uma
coisa terrível. Jorge juraria que contaria nada.
Eduardo- E ele não contou.
Silencio. Leandro olha profundamente para Eduardo.
Leandro- O que disse?
Eduardo- Tentei fazer com que me contasse, mas ele não disse nada. Você
acabou me contando tudo. Cada detalhe. Mas deixa-me ver se eu consigo descobrir
algo mais. Uma bela noite, Jorge, Vilma e Kelly desapareceram. Então, um dia,
anos mais tarde, você recebeu um telefonema. Era Jorge. Hora da retribuição.
Ele lhe dera cobertura por ter matado Carol, agora queria que você fizesse algo
por ele. Basicamente, ser um mensageiro. Entregar dinheiro para ele. Ele
enviaria para você. Você o passaria para Tereza, colocaria em seu carro, esconderia
no meio do jornal, ou seja, lá o que fosse.
Leandro só fez me olhar.
Leandro- É. Foi mais ou menos o que aconteceu.
Eduardo- Então o idiota que sou. Eu lhe contei o que Tereza me havia
revelado. Sobre o dinheiro. Sobre como ela ainda tinha guardados os envelopes e
a carta.
Leandro desta vez nada disse. E ataquei de outra direção.
Eduardo- Você acha que uma mulher prestes a matar duas pessoas para
agradar a mãe mentiria para ela sobre nunca ter matado ninguém?
Leandro- Como? Do que você está falando?
Eduardo- Só estou pensando em voz alta aqui. Estou falando de Kéti
Sloan. Filha de Jorge com Edna. Eu achei que Kéti tinha matado Tereza. Também
achei que tinha matado Octavio. Mas, agora eu não sei mais de nada.
Leandro engoliu seco.
Eduardo- Você foi ver Tereza depois que lhe contei o que ela me disse?
(perguntei) Você teve medo de que ela, talvez, tivesse juntado as coisas?
Leandro- Eu não queria matá-la. Mas achei que ela estivesse morrendo
mesmo. Então, mais tarde, depois que eu já tinha matado você me disse que ela
não estava morrendo.
Eduardo- Leandro...
Leandro- Mas ela já havia entregado a carta e os envelopes para o
detetive.
Eduardo- E você pegou o cartão dele no quadro de avisos. Ligou para ele
quando ele estava em minha casa. Matou o cara e ainda por cima roubou a mala de
documentos.
Olhei para o chão e senti uma grande tristeza.
Ele me olhou desconfiado.
Eduardo- Mas Tereza.... Você matou a doce Tereza. E não parou só nela.
Não, não existe a menor chance de eu deixar tudo isso para lá.
Ele enfiou a mão no bolso do casaco comprido e tirou uma arma.
Leandro- Suba as escadas, Eduardo.
Eduardo- Você não pode estar falando sério.
Leandro- Estou sim. Não vou deixar você estragar a minha vida. Já
comprei meu trailer. Quero minha aposentadoria. Quero viajar com minha mulher e
ser feliz.
Eduardo- Você nunca será feliz depois de tudo o que fez. A pessoa não
consegue ser feliz depois de duas mortes. E ainda quer causar mais?
Helena- O que está acontecendo?
Gritou Helena do quarto de Julia. Entrei no quarto de nossa filha,
seguido de Leandro. Helena, de pé ao lado da escrivaninha de Julia, abriu a
boca quando viu a arma, mas não conseguiu falar.
Eduardo- Foi Leandro. Ele matou Tereza. E Octavio.
Helena- O quê? Eu não acredito.
Eduardo- Pergunte a ele.
Leandro- Cale a boca.
O rosto de Helena estava vermelho, e os olhos arregalados. Ela perdeu o
controle. Gritou e se atirou sobre ele, mas Leandro estava pronto, golpeou o
rosto de Helena com a arma, atirando-a no chão, ao lado da escrivaninha.
Eu queria fazer alguma coisa, mas ele estava com a arma apontada em
minha direção.
Leandro- Odeio ter que fazer isso, Eduardo. De verdade. Sente-se na
cama, bem ali.
Ele deu um passo à frente e eu me sentei na beira da cama de Julia.
Helena continuava no chão e estava sangrando seu rosto e escorrendo pelo
pescoço em conseqüência ao corte que levou.
Leandro- Jogue-me o travesseiro.
Então era esse o plano. Colocar um travesseiro no cano da arma para
abafar o som. Olhei para Helena. Uma de suas mãos estava por baixo da
escrivaninha Julia. Ela olhou para mim e fez um leve aceno com a cabeça. Com
ele, dizia: confie em mim.
Peguei o travesseiro de cima da cama de Julia. Joguei-o para Leandro,
mas me certifiquei de que o fazia com força insuficiente, e ele teve de dar
meio passo a frente para pegá-lo.
Então, Helena se levantou. “pôs-se de pé num salto” seria uma descrição
mais exata. Tinha algo nas mãos. Uma coisa longa e preta. O telescópio quebrado
de Julia. Primeiro Helena jogou-o por cima do ombro para ganhar velocidade; em
seguida, desceu-o sobre a cabeça de Leandro com seu famoso backhand, colocando
toda a sua força, e mais um pouquinho, no movimento.
Ele se virou, viu o golpe chegar, mas não teve chance de reagir. Ela o
atingiu na lateral do crânio, e aquilo não soou como algo que se ouviria numa
partida de tênis. Foi mais parecido com um bastão rebatendo uma bola de
beisebol num arremesso muito rápido.
E foi um home run.
Leandro caiu feito uma pedra. Foi surpreendente Helena não ter matado.
A CARTA
-MUITO BEM – Começou Helena.
Helena- Lembre-se do nosso acordo?
Julia fez que sim com a cabeça. A mochila estava pronta. O lanche lá
dentro, assim como o dever de casa e até mesmo um celular.
Helena havia insistido nisso e eu não discuti.
Helena- Então, o que você vai fazer?
Julia- Assim que chegar a escola, ligo para você.
Helena- Isso mesmo.
Julia sorriu. Por ela tudo bem. Poder caminhar para a escola sem
acompanhante, mesmo que tivesse de ligar para casa quando chegasse lá, tornava
o acordo muito atraente, a seu ver.
Nós dois nos despedimos dela com abraços e ficamos na janela, vendo-a se
afastar até ela dobrar a esquina.
Leandro ainda estava se recuperando. Estava internado.
Madalena apareceu para acusá-lo das mortes de Tereza Berman e Octavio
Abagnall. O caso de Carol também fora reaberto, mas esse seria mais difícil de
provar.
Juan Fleming foi transferido do hospital de Lewiston para um daqui de
Milford. Vai ficar bem.
O telefone de Helena toca. Ela já estava com o fone na mão antes do fim
do primeiro toque.
Helena- Está bem... Está bem. Você está bem? Sem problemas? Certo...
Desligou.
Helena- (anunciando pra mim) Ela está bem.
Eduardo- Foi o que pensei. E você? Está bem?
Helena pegou um lenço de papel e enxugou os olhos.
Helena- Estou. Quer um café?
Eduardo- É claro. Sirva uma xícara para nós. Tenho que pegar uma coisa.
Fui até o armário do saguão, remexi o bolso do paletó que usara na noite
em que tudo aconteceu e tirei um envelope lá de dentro. Voltei para a cozinha,
onde Helena estava sentada com o café.
Helena- O que é isso?
Eu me sentei e continuei a segurá-lo.
Eduardo- Eu estava esperando o momento certo e acho que esse é o
momento.
Helena me olhou com aquela expressão que a gente fica quando espera má
noticias do médico.
Eduardo- Meu amor está tudo bem. Jorge, seu pai... Ele me explicou isto
daqui e queria que eu lhe explicasse.
Helena- O quê?
Eduardo- Naquela noite, depois que você teve aquela briga horrível com
os seus pais e subiu para se deitar, parece que você desmaiou. De qualquer
forma, sua mãe. Vilma, sentiu-se péssima. Pelo que você já contou, ela não
gostava quando as coisas ficavam mal entre vocês duas.
Helena- Verdade. Ela de qualquer forma sempre escrevia um bilhete para
mim. Mas naquele dia quando acordei de manhã e não os encontrei eu fiquei
desesperada pelo desaparecimento deles e por que minha mãe não deixou nada por
escrito.
Eduardo- Bem, acho que era o que ela queria fazer, por isso ela lhe
escreveu um... Um bilhete. E colocou na frente da porta do seu quarto antes de
sair para levar Kelly à farmácia.
Helena não conseguia tirar os olhos do envelope que se encontrava em
minhas mãos.
Eduardo- O seu pai ainda não estava se sentindo muito conciliador. Achou
que ainda era cedo demais para colocar panos quentes na situação. Então, depois
que a sua mãe saiu, ele subiu a escada, pegou o bilhete que ela havia escrito
para você e o guardou no bolso.
Helena estava paralisada.
Eduardo- Mas, dado tudo o que aconteceu nas horas que se seguiram,
acabou se tornando bem mais do que um simples bilhete. Foi a ultima mensagem de
uma mãe para a filha. (fiz uma pausa) Então ele o guardou, por via das duvidas,
caso um dia pudesse entregá-lo a você.
Passei o envelope, já rasgando em uma das extremidades, por cima da
mesa, para helena.
Ela tirou o papel de dentro do envelope e o abriu. Eu já o lera, então
sabia que Helena estava lendo o seguinte:
OI, DOCINHO:
Eu provavelmente vou estar no décimo sono quando você se levantar e
encontrar isto. Espero que não passe muito mal. Você fez um monte de bobagens
esta noite. Mas acho que isso é que é ser adolescente.
Gostaria de poder dizer que essas são as ultimas bobagens que você vai
fazer ou que essa é a ultima briga que você vai ter comigo e com o seu pai, mas
não seria verdade. Você vai fazer mais coisas idiotas, e nós vamos ter outras
brigas. Algumas vezes você vai estar errada; algumas vezes nós é que vamos
estar errados.
Mas tem uma coisa que você precisa saber. Aconteça o que acontecer, eu
sempre a amarei. Não há nada que você possa fazer que me faça deixar de amá-la.
Por que eu estou ao seu lado para o que der e vier. E essa é a mais pura
verdade.
E sempre vai ser assim. Mesmo quando você estiver crescida, vivendo sua
própria vida, quando tiver um marido e os próprios filhos (imagine só isso!),
mesmo quando eu nada for além de poeira, sempre estarei tomando conta de você.
Algum dia você talvez tenha a sensação de que tem alguém olhando por cima do
seu ombro. Aí vai olhar a sua volta e não terá ninguém. Eu serei esse alguém.
Cuidando de você, olhando você me fazer muito, mas muito orgulhosa. Por toda a
sua vida, menina. Eu sempre estarei com você.
Com amor, mamãe.
Observei Helena ler até o fim, e então a abracei enquanto ela chorava.

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